Maria Fernanda Braga
Acervo pessoal
Maria Fernanda Braga

Acordar cansado mesmo após uma noite inteira de sono, enfrentar dificuldade de concentração ao longo do dia, depender do café para manter a produtividade ou receber comentários frequentes sobre o ronco costumam ser situações atribuídas ao estresse ou à rotina intensa.

No entanto, segundo especialistas, esses sinais podem estar relacionados à forma como ocorre a respiração durante o sono, um fator que ainda passa despercebido por muitas pessoas e que pode influenciar diretamente o desempenho físico, mental e profissional.

Enquanto empresas ampliam investimentos em inteligência artificial, desenvolvimento humano e formação de lideranças, a ciência tem voltado sua atenção para um aspecto biológico que pode ser determinante para a performance: a qualidade da respiração durante o sono.

“Nem toda baixa performance é falta de competência. Muitas vezes, existe uma limitação fisiológica que permanece invisível por anos. A alta performance não começa quando abrimos o computador pela manhã. Ela começa horas antes, durante o sono”, afirma a cirurgiã-dentista Maria Fernanda Braga.

Estudos apontam que distúrbios respiratórios do sono, como o ronco e a apneia obstrutiva do sono, estão associados à redução da oxigenação do organismo e à fragmentação do descanso noturno.

Essas alterações podem comprometer funções cognitivas essenciais, como atenção, memória, velocidade de processamento e tomada de decisão.

Um estudo publicado na revista científica The Lancet Respiratory Medicine estima que aproximadamente 1 bilhão de adultos entre 30 e 69 anos convivam com apneia obstrutiva do sono em todo o mundo.

Grande parte dessas pessoas sequer recebeu diagnóstico, o que faz com que muitas convivam diariamente com os impactos da condição sem conhecer sua origem.

Nos últimos anos, a odontologia também passou a desempenhar um papel importante na identificação desses distúrbios.

Alterações da mordida, do desenvolvimento dos maxilares e da estrutura facial deixaram de ser observadas apenas sob o ponto de vista estético e passaram a ser compreendidas como possíveis sinais de alterações funcionais relacionadas à respiração.

Segundo Maria Fernanda Braga, formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), especialista em Odontopediatria pela mesma instituição e dedicada desde 2016 à prática clínica voltada aos impactos da odontologia no sono, muitas dessas alterações começam ainda na infância.

“A respiração bucal persistente, especialmente quando está associada à obstrução das vias aéreas, pode modificar o desenvolvimento da face e da mordida. Quando esses padrões são identificados precocemente, conseguimos compreender não apenas como o paciente mastiga, mas também como respira, dorme e quais impactos isso pode apresentar para sua saúde ao longo da vida”, explica.

A especialista destaca que características como palato estreito, mordida aberta, desalinhamento dentário e alterações na posição da língua podem representar adaptações funcionais do organismo.

Em alguns pacientes, esses sinais também podem estar associados ao desenvolvimento menos favorável das vias aéreas e a distúrbios respiratórios do sono.

Além dos impactos individuais, evidências científicas mostram que a baixa qualidade do sono também está relacionada à redução da produtividade, ao aumento do risco de acidentes de trabalho e ao comprometimento da capacidade de concentração.

Por isso, a discussão deixou de estar restrita aos consultórios e passou a fazer parte das conversas sobre saúde corporativa, desempenho e qualidade de vida.

De acordo com Maria Fernanda Braga, a identificação precoce continua sendo um dos pilares do tratamento.

“A definição da melhor abordagem depende de uma avaliação clínica integrada aos sinais e sintomas apresentados pelo paciente. O tratamento pode incluir aparelhos de avanço mandibular, técnicas de reeducação muscular e estratégias voltadas ao restabelecimento do padrão respiratório, sempre dentro de uma abordagem multidisciplinar.”

Para a especialista, observar sinais como ronco frequente, sono não reparador, cansaço persistente e dificuldade de concentração pode ser o primeiro passo para identificar alterações respiratórias que afetam não apenas a saúde, mas também a qualidade de vida e a performance diária.

Compreender essa relação entre respiração, sono e desenvolvimento humano amplia as possibilidades de prevenção e tratamento, contribuindo para uma rotina mais saudável e produtiva.

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