Dr. Tiago Silva
Acervo pessoal
Dr. Tiago Silva

As festas julinas fazem parte da tradição brasileira e reúnem famílias em torno de fogueiras, comidas típicas e apresentações culturais.

No entanto, o período também costuma registrar um aumento significativo nos casos de queimaduras, principalmente envolvendo crianças e idosos.

O uso inadequado de álcool líquido, fogos de artifício, fogueiras e líquidos quentes está entre as principais causas dos acidentes, muitos deles evitáveis com medidas simples de prevenção.

Segundo o diretor médico da Werfen Brasil e cirurgião pediátrico Dr. Tiago Silva, o crescimento desse tipo de ocorrência está diretamente relacionado à combinação de diferentes fontes de calor em um mesmo ambiente festivo.

"Os acidentes mais comuns são queimaduras de segundo grau em mãos, braços e rosto, causadas pelo manuseio incorreto dos materiais ou pela proximidade com as chamas das fogueiras", explica.

Para o especialista, um dos erros mais frequentes é utilizar álcool líquido para acender ou reavivar fogueiras já acesas.

O vapor do produto pode inflamar de forma explosiva e provocar queimaduras extensas em poucos segundos.

Também representam riscos importantes soltar fogos próximos ao rosto, acender artefatos em locais fechados, usar roupas sintéticas perto das chamas e permitir que crianças permaneçam sem supervisão ao redor de fogueiras.

A orientação é optar pelo uso de álcool em gel apenas em churrasqueiras, nunca em fogueiras, utilizar roupas de algodão, manter distância das chamas e evitar reutilizar fogos que falharam na primeira tentativa.

As crianças e os idosos merecem atenção redobrada.

De acordo com Dr. Tiago, esses grupos apresentam maior vulnerabilidade às queimaduras.

Além de nunca deixar crianças próximas a fogueiras, alimentos quentes ou fogos de artifício sem supervisão, é importante impedir que elas tenham acesso a fósforos e isqueiros.

Já entre os idosos, fatores como perda do equilíbrio, pele mais fina e cicatrização mais lenta aumentam o risco de lesões graves.

Quando o acidente acontece, agir rapidamente pode fazer toda a diferença na recuperação.

O primeiro passo é afastar imediatamente a vítima da fonte de calor e resfriar a região atingida com água corrente em temperatura ambiente durante 10 a 20 minutos.

Em seguida, é importante retirar roupas e acessórios próximos à área lesionada, desde que não estejam aderidos à pele, cobrir o local com um pano limpo e procurar atendimento médico.

O especialista alerta que alguns hábitos populares ainda colocam a saúde em risco.

"Produtos como manteiga, pasta de dente, clara de ovo, pó de café e pomadas caseiras não tratam queimaduras. Eles aumentam o risco de infecção e dificultam a avaliação médica", afirma.

Outro erro comum é utilizar gelo diretamente sobre a queimadura.

Apesar da sensação inicial de alívio, o frio intenso pode aprofundar a lesão e causar ainda mais danos ao tecido.

Também não se deve furar bolhas, pois elas funcionam como uma barreira natural de proteção contra infecções.

Saber identificar a gravidade da queimadura também é fundamental.

As queimaduras de primeiro grau costumam provocar apenas vermelhidão e dor, como ocorre após exposição excessiva ao sol, podendo ser tratadas em casa com hidratação e resfriamento da área.

Já as de segundo grau apresentam bolhas e dor intensa, exigindo avaliação médica.

As queimaduras de terceiro grau atingem camadas profundas da pele, podendo deixar a região esbranquiçada, acinzentada ou carbonizada e, muitas vezes, apresentam pouca dor devido à destruição das terminações nervosas.

Esses casos representam uma emergência médica.

Independentemente do grau, algumas situações exigem atendimento imediato, como queimaduras que atingem rosto, mãos, pés, articulações ou região genital, lesões provocadas por eletricidade ou produtos químicos, suspeita de inalação de fumaça e acidentes envolvendo crianças menores de dois anos.

O mecanismo da queimadura também influencia diretamente o tratamento.

Enquanto líquidos quentes costumam causar lesões mais superficiais, principalmente em tronco e membros, as chamas tendem a provocar queimaduras mais profundas.

Fogos de artifício frequentemente causam ferimentos nas mãos e no rosto e podem resultar em amputações de dedos.

Já as queimaduras elétricas merecem atenção especial porque a lesão interna costuma ser maior do que aquela visível na pele.

Além dos impactos físicos, as queimaduras podem deixar consequências emocionais importantes.

Segundo Dr. Tiago Silva, cicatrizes, deformidades e limitações funcionais podem comprometer a qualidade de vida e afetar a autoestima do paciente.

Entre as sequelas mais comuns estão as contraturas, alterações na mobilidade e a necessidade de múltiplas cirurgias reparadoras.

Em muitos casos, o tratamento também exige acompanhamento psicológico, principalmente quando a lesão interfere na imagem corporal e na reinserção social.

Entre crianças, quadros de ansiedade, depressão e baixa autoestima podem ser ainda mais frequentes.

Outro ponto destacado pelo médico é que o tempo é um fator decisivo para evitar complicações.

"Os primeiros 20 minutos determinam se a lesão vai se aprofundar ou estabilizar. O resfriamento imediato com água corrente é a medida mais eficaz nesse período", ressalta.

Esperar para procurar atendimento na esperança de que a queimadura melhore sozinha pode favorecer infecções, aumentar o risco de sequelas e dificultar a recuperação.

Em queimaduras extensas, o atraso pode provocar complicações graves, como choque hipovolêmico, especialmente em crianças.

Durante a cicatrização, alguns sinais indicam que a queimadura pode estar infeccionando, como aumento progressivo da dor, vermelhidão que ultrapassa os limites da lesão, inchaço, presença de secreção amarelada ou esverdeada, mau cheiro e febre.

Nessas situações, a avaliação médica deve ser imediata.

Para o especialista, a melhor estratégia continua sendo a prevenção.

"Nunca use álcool líquido perto do fogo, nem para acender nem para reavivar chamas. E nunca deixe crianças sem supervisão próximas a fogueiras ou fogos de artifício. Essas duas medidas simples eliminam a maioria dos acidentes graves registrados nesta época do ano", conclui.

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