Dr. Otávio Melo
Acervo pessoal
Dr. Otávio Melo

O Conselho Federal de Medicina regulamentou o uso do plasma rico em plaquetas, conhecido como PRP, para o tratamento complementar de quatro condições osteomusculares.

Publicada no Diário Oficial da União em 15 de julho de 2026, a Resolução CFM nº 2.464/2026 revoga a norma de 2015, que classificava a técnica como experimental e restringia sua utilização a protocolos de pesquisa clínica.

Com a mudança, o PRP passa a ser reconhecido como procedimento médico auxiliar nos casos de osteoartrite de joelho, também chamada de artrose, discopatia lombar, epicondilite lateral do cotovelo, conhecida como cotovelo de tenista, e reparo meniscal.

A autorização, no entanto, não transforma a técnica em substituta de tratamentos clínicos, reabilitacionais, intervencionistas ou cirúrgicos já indicados para cada paciente.

A resolução define o PRP como um produto biológico autólogo, ou seja, produzido a partir do sangue do próprio paciente, submetido somente à manipulação mínima e destinado ao uso não transfusional.

Também determina critérios relacionados à indicação, segurança, rastreabilidade, infraestrutura, registro em prontuário e responsabilidade médica.

Médico ortopedista, especialista em cirurgia do joelho e tratamento da dor, Dr. Otávio Melo pesquisa medicina regenerativa há mais de dez anos.

Mestre em Medicina e Biomedicina, doutorando e criador do Método Regenius, ele alerta que a regulamentação não deve ser interpretada como autorização para promessas de resultados garantidos.

“O PRP não é um líquido milagroso. Ele não regenera qualquer tecido, em qualquer paciente, em qualquer estágio da doença. É uma ferramenta terapêutica poderosa quando bem indicada, bem preparada e bem aplicada. É exatamente por isso que o mau uso da técnica, por profissionais que não dominam o método, pode trazer resultados decepcionantes ou até complicações”, afirma.

O que é o plasma rico em plaquetas?

O sangue é composto por uma parte líquida, chamada plasma, e por elementos como hemácias, leucócitos e plaquetas.

Embora sejam conhecidas principalmente por sua participação no controle dos sangramentos, as plaquetas também armazenam centenas de proteínas chamadas fatores de crescimento.

Essas substâncias atuam como mensageiras no processo de cicatrização, participando da produção de colágeno, da modulação da inflamação e do reparo dos tecidos.

São as plaquetas, por exemplo, que contribuem para a formação da camada que protege uma lesão enquanto a pele inicia sua reconstrução.

No PRP, essas células são concentradas em quantidade superior à encontrada normalmente no sangue.

Segundo Dr. Otávio Melo, dependendo do protocolo utilizado, a concentração pode ficar entre cinco e dez vezes acima do nível sanguíneo original.

O material é então aplicado diretamente na área lesionada, como joelho, cotovelo ou coluna.

Por ser produzido com o sangue do próprio paciente, o procedimento apresenta baixo risco de reação imunológica.

Isso não significa, porém, que seja isento de riscos ou que possa ser realizado sem avaliação clínica, exames, estrutura adequada e domínio técnico.

Como o procedimento é realizado?

O tratamento pode ser feito em ambiente médico apropriado e envolve quatro etapas principais.

Primeiro, é coletada uma pequena quantidade de sangue, em processo semelhante ao de um exame laboratorial de rotina.

Em seguida, o material é colocado em uma centrífuga, que gira em alta velocidade para separar seus componentes de acordo com a densidade.

Hemácias, leucócitos e diferentes frações do plasma são organizados em camadas.

Depois, o médico separa a porção rica em plaquetas e concentra os fatores de crescimento.

O material preparado é aplicado diretamente na estrutura lesionada.

A nova resolução determina que o PRP seja exclusivamente autólogo, obtido do próprio paciente, e passe apenas por manipulação mínima.

Também proíbe materiais de origem alogênica, heteróloga ou sem rastreabilidade.

Não é permitida a adição de medicamentos, células-tronco, concentrado de medula óssea, gordura microfragmentada ou outros produtos que descaracterizem a natureza biológica do PRP, exceto em pesquisas autorizadas ou diante de regulamentação específica.

A aplicação deve ser feita preferencialmente com orientação por imagem. Nos procedimentos realizados na coluna, o uso de imagem é obrigatório.

“No procedimento guiado por ultrassom, o médico enxerga em tempo real onde a agulha está, garantindo precisão milimétrica e mais segurança, além de evitar vasos sanguíneos e nervos. Aplicar PRP sem visualizar precisamente a estrutura-alvo é como tentar acertar um alvo de olhos fechados. A ultrassonografia tira esse fator de sorte da equação”, explica o ortopedista.

Saúde do paciente influencia o resultado

Como o sangue é a matéria-prima do PRP, a condição metabólica do paciente interfere diretamente na qualidade do material utilizado.

Diabetes descompensada, alimentação rica em produtos ultraprocessados, tabagismo, consumo frequente de álcool, deficiências de vitamina D ou ferro e desequilíbrios hormonais podem prejudicar o tratamento.

Em pessoas com inflamação sistêmica, o plasma também pode apresentar mediadores inflamatórios em níveis elevados.

Por isso, a indicação não deve ser feita apenas com base na localização da dor ou em um exame de imagem isolado.

“Antes de qualquer infiltração, é indispensável uma avaliação médica rigorosa, com exames de sangue criteriosos. Em pacientes mais crônicos, muitas vezes recomendamos um período de preparo metabólico, com ajuste da glicemia e correção de deficiências nutricionais e hormonais, antes de indicar a aplicação. Pular essa etapa é um dos principais motivos de insucesso do tratamento”, diz Dr. Otávio.

No Método Regenius, o paciente passa por avaliação clínica e metabólica antes da aplicação.

Quando necessário, alterações identificadas são tratadas previamente para melhorar as condições biológicas do organismo e ampliar as possibilidades de resposta.

A resolução também apresenta contraindicações. O PRP não deve ser realizado, por exemplo, em pacientes com infecção ativa na área da aplicação, neoplasia ativa ou condições hematológicas incompatíveis com o procedimento.

A decisão depende da gravidade do quadro e da avaliação individual.

PRP funciona, mas não cura artrose

A regulamentação proíbe a divulgação do PRP como promessa de cura, garantia de regeneração dos tecidos ou alternativa automática a uma cirurgia formalmente indicada.

O procedimento deve ser apresentado como parte de um tratamento mais amplo e individualizado.

“O PRP funciona e temos dados sólidos, mas ele não cura a artrose. Ele entra para somar ao tratamento, não para substituir as condutas consagradas pela literatura médica internacional”, ressalta Dr. Otávio.

De acordo com os estudos reunidos pelo especialista, uma metanálise envolvendo 1.162 pacientes com artrose leve ou moderada do joelho identificou melhora da dor e da função física aos seis e aos 12 meses.

Outra revisão, com mais de 3.100 participantes, apontou resultados superiores aos do ácido hialurônico e dos corticoides no controle da dor a longo prazo, com efeitos observados por até um ano.

Uma análise de segurança publicada em 2025, que reuniu informações de mais de 76 mil pacientes, indicou que o PRP apresentou a menor taxa de eventos adversos entre as opções injetáveis avaliadas.

Em uma metanálise de 11 ensaios clínicos randomizados e controlados por placebo, com 1.616 pacientes de sete países, houve redução moderada da dor e melhora funcional.

Outro levantamento, baseado em estudos publicados entre 2021 e 2024, apontou redução média de 8,5 pontos na escala de dor WOMAC e ganho de 6,2 pontos no escore funcional IKDC.

Na epicondilite lateral, um estudo duplo-cego e multicêntrico com 230 pacientes encontrou taxa de sucesso de 83,9% com PRP após 24 semanas, diante de 68,3% no grupo de controle.

Outro ensaio citado pelo médico observou 73% de sucesso com o plasma, em comparação com índices entre 49% e 51% entre pacientes tratados com corticoides.

Nas discopatias e hérnias de disco lombares, estudos sobre infiltração intradiscal identificaram redução da dor de 5,9 para 1,4 pontos em seis meses, além de regressão parcial de hérnias em alguns pacientes avaliados por exames de imagem.

Os números mostram resultados positivos, mas moderados e relacionados a condições específicas.

Eles não garantem que todos os pacientes terão a mesma evolução.

Uso fora das quatro indicações

A resolução admite que o médico considere o uso off-label do PRP, ou seja, em situações que ainda não aparecem entre as quatro indicações formalmente reconhecidas.

Para isso, devem existir evidências científicas robustas, critérios de validação e uma justificativa clínica clara.

O paciente também precisa ser informado de que aquela utilização não está entre as indicações expressamente previstas na resolução.

A norma exige a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido, com informações sobre os benefícios esperados, as limitações científicas, os possíveis riscos e as alternativas disponíveis.

O procedimento e sua evolução devem ser registrados detalhadamente no prontuário.

Celebridades ajudaram a popularizar a técnica

O PRP ganhou visibilidade internacional após ser associado ao tratamento de atletas.

Entre os nomes que já divulgaram a utilização da técnica estão Rogério Ceni, Ronaldo Fenômeno, Tiger Woods, Rafael Nadal, Stephen Curry e Kobe Bryant.

Neymar Jr. também utilizou o tratamento em 2026 como parte da preparação física para a Copa do Mundo, com foco na recuperação e na prevenção de novas lesões.

Entre artistas brasileiros, Cláudia Raia, Luana Piovani, Ângela Leal, Glória Menezes e Tarcísio Meira já tiveram tratamentos ortopédicos com PRP divulgados publicamente.

Dr. Otávio Melo  ressalta que esses casos ajudaram a tornar o procedimento conhecido, mas não podem servir como parâmetro de indicação ou garantia de resultado.

“O fato de um atleta ou uma celebridade ter usado PRP e voltado à ativa não significa que qualquer pessoa terá a mesma resposta. Esses pacientes costumam contar com acompanhamento multidisciplinar intenso e protocolos exclusivos de reabilitação. Cada organismo tem sua própria biologia, seu grau de lesão e suas comorbidades”, afirma.

Quantas aplicações são necessárias?

O desconforto costuma ser leve e semelhante ao de uma injeção comum.

Segundo o especialista, a sensação pode ser reduzida quando o procedimento é guiado por ultrassom e realizado por um profissional experiente.

O número de sessões varia conforme a condição, o estágio da doença e a resposta de cada paciente.

Há estudos que utilizam de três a cinco aplicações, com intervalos de uma a duas semanas, especialmente na artrose de joelho.

Em outros casos, uma única aplicação pode produzir melhora inicial.

Não existe um protocolo único para todos.

A concentração de plaquetas, o processo de centrifugação, o intervalo entre as sessões, a técnica de infiltração e a identificação correta da origem da dor interferem no resultado.

A indicação e a aplicação são atos médicos exclusivos, conforme estabelecido pelo CFM.

A norma impede que essas etapas sejam delegadas a pessoas não habilitadas.

Quanto custa e o plano de saúde cobre?

O tratamento é realizado de forma particular e não possui um preço único.

O valor depende da complexidade, da região tratada, do número de sessões, da necessidade de exames e do uso de ultrassonografia durante a aplicação.

O PRP não aparece entre os procedimentos de cobertura mínima obrigatória do Rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar.

Por isso, os planos de saúde não são obrigados a custear o tratamento, embora situações contratuais ou decisões específicas possam ser analisadas individualmente.

O parecer técnico disponível da ANS informa que a aplicação de plasma rico em plaquetas não integra o Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde.

Segundo Dr. Otávio, poucos médicos no Brasil possuem treinamento aprofundado em todas as etapas do método.

A experiência do profissional influencia a definição do protocolo de centrifugação, a quantidade de aplicações, a escolha da técnica e o diagnóstico da causa da dor.

No Instituto Regenius, em Belo Horizonte, os procedimentos são realizados com orientação por ultrassonografia e seguem as novas diretrizes do CFM e as normas sanitárias aplicáveis.

PRP não é a única terapia regenerativa

A regulamentação representa um avanço para a medicina regenerativa, mas o PRP não é a única opção disponível para pacientes com problemas articulares ou musculoesqueléticos.

O hidrogel é apresentado como uma evolução da viscossuplementação.

Enquanto o ácido hialurônico tradicional atua como um lubrificante temporário, o hidrogel possui maior permanência dentro da articulação, podendo chegar a aproximadamente o dobro do tempo, além de contribuir para o amortecimento da carga.

O ozônio medicinal é utilizado como modulador inflamatório em situações selecionadas.

Já as terapias derivadas de células da medula óssea ou do tecido adiposo são abordagens diferentes do PRP e possuem características próprias.

Enquanto o PRP concentra plaquetas e seus fatores de crescimento, produtos derivados da medula óssea ou do tecido adiposo podem apresentar componentes celulares com outras propriedades biológicas.

Essas técnicas ficaram conhecidas após serem relacionadas a tratamentos de personalidades como Cristiano Ronaldo e Tony Robbins, mas também exigem indicação criteriosa e não devem ser tratadas como soluções universais.

Para Dr. Otávio Melo, a nova resolução permite que o PRP deixe o campo exclusivamente experimental e seja utilizado em situações específicas, com parâmetros técnicos mais claros.

O avanço, porém, vem acompanhado de maior responsabilidade médica.

“A medicina regenerativa evolui rapidamente, mas nenhum procedimento substitui o diagnóstico correto. O melhor resultado depende da ciência, da preparação do paciente, da escolha da técnica e de um acompanhamento individualizado”, conclui.


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