Professor da UFPE relata desafios das altas habilidades; especialistas explicam impactos na saúde mental e riscos da falta de identificação
Acervo Pessoal / Divulgação
Professor da UFPE relata desafios das altas habilidades; especialistas explicam impactos na saúde mental e riscos da falta de identificação

Ser identificado com altas habilidades ou superdotação costuma ser associado a facilidade para aprender, desempenho acima da média e sucesso acadêmico. Na prática, porém, a experiência pode envolver também solidão, pressão por resultados, dificuldades de socialização e até confusão com sintomas de transtornos psiquiátricos.

Foi assim em parte da trajetória de Klaus Leite Pinto Vasconcellos, professor titular do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Ele aprendeu a ler muito cedo e passou boa parte da infância e da adolescência mergulhado em livros, estudos e assuntos que dificilmente conseguia compartilhar com pessoas da mesma idade.

Klaus não se recorda de ter sido rejeitado pelos colegas. Pelo contrário, conta que era bem recebido na escola. Ainda assim, sentia-se mais sozinho do que as outras crianças.

“Eu acho que eu mesmo provoquei essa solidão. Com uma capacidade intelectual grande, passei a estudar e ler com uma frequência muito maior do que a normal, e isso fez com que eu mesmo me afastasse”, conta.

O interesse intenso pela literatura e pelos estudos acabou reduzindo seu contato com outras experiências durante aquela fase da vida.

“Eu me concentrei demais em literatura e estudo e não tinha ninguém com quem discutir. Isso me impediu de procurar mais o resto do mundo, de ter mais amigos e também tornou mais difícil o contato com o mundo real que estava à minha frente.”

Altas habilidades não significam facilidade em tudo
Hoje, Klaus é doutor em Estatística pela Universidade de Warwick, na Inglaterra, professor titular da UFPE e autor do livro Fundamentos para a Estatística de Convergência de Variáveis Aleatórias, publicado em 2021 pela Sociedade Brasileira de Matemática.

A trajetória acadêmica de destaque, entretanto, não significa que todas as escolhas tenham sido simples.

Desde criança, Klaus queria estudar Matemática. A família, preocupada com as perspectivas profissionais e financeiras da carreira, tentou direcioná-lo para outra área. Por orientação da mãe, graduou-se em Engenharia Elétrica. Posteriormente, seguiu para a pós-graduação em Estatística Matemática e tornou-se professor universitário.

“Minha vocação era ser matemático. Minha mãe me proibiu de fazer Matemática porque eu acabaria ganhando salário de professor de universidade. Formei-me engenheiro elétrico, mas depois fui fazer pós-graduação em Estatística Matemática e hoje sou professor da UFPE. De certa forma, as coisas acabaram acontecendo como tinham que acontecer”, afirma.

Dentro da comunidade estatística, ele passou a ser reconhecido pela forte formação matemática e pela facilidade para mergulhar em temas novos e complexos.

“Se me disserem que preciso estudar Geometria Algébrica para ensinar a disciplina em 2028, minha resposta será: claro, me dê as referências. No final de 2027, vocês terão um professor de Geometria Algébrica”, conta.

Essa facilidade intelectual, no entanto, sempre conviveu com dificuldades em outras áreas. Klaus relata que tinha pouca coordenação para esportes e atividades físicas, algo que percebeu ainda na infância.

“Eu sempre fui muito bom intelectualmente, mas tive que pagar o preço de ser desajeitado e sem coordenação. Essa dicotomia sempre foi um dos maiores desafios da minha vida.”

Pressão para ser excelente pode virar um peso
Outro aspecto pouco discutido é a expectativa criada em torno de quem apresenta altas habilidades. A ideia de que uma pessoa superdotada precisa demonstrar desempenho excepcional constantemente pode produzir uma cobrança que ultrapassa a escola.

Klaus se lembra de uma situação vivida na adolescência. Ao acompanhar o pai, que era neurologista, a um hospital, pretendia levar uma revista em quadrinhos para passar o tempo. Ouviu, porém, que deveria escolher outra leitura porque os colegas do pai sabiam que ele era superdotado.

Acabou levando Apresentação da Poesia Brasileira, de Manuel Bandeira.

“É muito comum ter que enfrentar uma supercobrança. Só esperam de você o máximo, e isso é um grande desafio”, diz.

A psiquiatra Fabrícia Signorelli, especialista em TDAH, TEA e altas habilidades, explica que elevado potencial intelectual não é garantia de sucesso acadêmico, profissional ou emocional.

Características como perfeccionismo, intensidade emocional e desenvolvimento assíncrono podem representar desafios quando não há identificação e suporte adequados.

“A gente tem um estereótipo muito errado de que ter altas habilidades ou superdotação é igual a ter sucesso ao longo da vida. A falta de desafios, a dificuldade de identificação e a pressão social podem levar ao insucesso”, afirma.

Milhões podem permanecer sem identificação
A experiência de Klaus ajuda a colocar rosto em uma questão que alcança crianças e adolescentes em todo o país.

O Censo Escolar 2025, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), contabilizou cerca de 56 mil estudantes com altas habilidades ou superdotação na educação básica. Em 2024, eram pouco mais de 44 mil, o que representa crescimento de aproximadamente 27% em um ano.

O número registrado, porém, permanece distante de algumas estimativas utilizadas na literatura sobre o tema.

Uma publicação acadêmica da Universidade Federal de Santa Maria reproduz uma estimativa atribuída à Organização Mundial da Saúde segundo a qual entre 3% e 5% da população apresentaria altas habilidades ou superdotação.

Se essa proporção fosse aplicada às aproximadamente 46 milhões de matrículas da educação básica brasileira, o universo potencial ficaria entre 1,38 milhão e 2,3 milhões de estudantes.

A diferença ajuda a dimensionar um dos principais desafios: muitas crianças podem atravessar parte significativa da vida escolar sem que suas características sejam identificadas.

Superdotação não é doença
A falta de informação também pode provocar outro problema: interpretar características relacionadas às altas habilidades como manifestações de uma condição psiquiátrica.

Superdotação não é uma doença nem constitui, por si só, um diagnóstico médico. Segundo Fabrícia, determinadas características podem, em alguns casos, ser confundidas com sintomas de transtornos.

“Muitas vezes, a não identificação da superdotação e a interpretação dessas características como sintomas de um transtorno psiquiátrico levam a diagnósticos errados ou identificações perdidas”, afirma.

A especialista também chama atenção para o risco de medicalizar características que não representam uma doença, reforçando a importância de uma avaliação adequada.

Altas habilidades podem coexistir com TDAH e autismo
Ter altas habilidades não impede que a mesma pessoa apresente outras condições.

É possível, por exemplo, que alguém tenha altas habilidades e também TDAH, transtorno do espectro autista, dislexia ou alguma deficiência. Essa coexistência é conhecida como dupla excepcionalidade.

Nesses casos, a identificação pode se tornar ainda mais complexa. Um elevado potencial cognitivo pode compensar determinadas dificuldades e fazer com que sinais de outra condição sejam menos perceptíveis, especialmente durante a vida escolar.

Segundo Fabrícia, um QI elevado pode, por exemplo, mascarar prejuízos pedagógicos associados ao TDAH. Por isso, uma avaliação precisa considerar tanto as altas habilidades quanto a possibilidade de uma condição coexistente.

E o que acontece com a superdotação no envelhecimento?
Embora grande parte das discussões esteja concentrada na infância e na educação, as altas habilidades acompanham o indivíduo ao longo da vida.

Ainda existem, entretanto, questões sem respostas definitivas sobre a relação entre esse perfil e o envelhecimento cerebral.

“Ainda não é possível afirmar que o cérebro de uma pessoa com altas habilidades envelheça mais lentamente ou apresente proteção específica contra doenças neurodegenerativas”, explica Thaís Bento Lima, gerontóloga parceira científica do Supera Estimulação Cognitiva.

Independentemente do nível intelectual, hábitos relacionados à preservação da saúde cerebral continuam importantes durante o envelhecimento.

“Manter oportunidades de aprendizagem, desafios cognitivos, atividade física, participação social e cuidados com a saúde ao longo da vida continua sendo importante para a promoção de um envelhecimento saudável.”

Nova lei prevê identificação precoce
O tema também ganhou uma nova dimensão no campo das políticas públicas. Em junho de 2026, foi sancionada a Lei Federal nº 15.436, que instituiu a Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação.

A legislação prevê medidas como identificação precoce, atendimento educacional especializado, progressão escolar flexível, formação de profissionais da educação e criação de um cadastro nacional.

A norma também contempla a dupla excepcionalidade e estabelece que o atendimento considere tanto as altas habilidades quanto as necessidades relacionadas a outra condição ou deficiência.

Ampliar a identificação pode ser determinante para evitar que crianças e adolescentes passem anos sem compreender por que aprendem, sentem ou se relacionam de maneiras diferentes.

A trajetória de Klaus Vasconcellos mostra justamente como uma característica frequentemente associada apenas a vantagens pode ter outras dimensões. A facilidade intelectual abriu caminhos importantes na vida acadêmica, mas também esteve acompanhada por solidão e pela expectativa constante de apresentar resultados excepcionais.

“Só esperam de você o máximo”, resume o professor.

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