
Para quem trabalha com redes sociais, estar online não significa apenas entretenimento. O celular também é escritório, ferramenta de criação, meio de comunicação e lugar onde resultados profissionais são medidos praticamente em tempo real. Nesse cenário, estabelecer uma fronteira entre trabalho, descanso e vida pessoal pode se tornar um desafio.
Leonardo Barros Lahan, conhecido nas redes como Lahan, começou a trabalhar com internet aos 16 anos e conhece de perto essa dinâmica. Depois de transformar o digital em profissão, o influenciador percebeu que também precisava encontrar momentos em que sua atenção não estivesse direcionada para uma tela.
Hoje, aos 29 anos, morando em São Paulo e com mais de 170 mil seguidores somados em seus dois principais perfis no Instagram, ele conta que encontrou na academia e, principalmente, na corrida uma maneira de desacelerar e cuidar também da saúde para além da exposição digital.
“Minha mente naturalmente funciona em uma velocidade muito alta e estou sempre pensando em diferentes coisas. O exercício físico me ajuda a desacelerar, permanecer mais presente e organizar melhor os pensamentos”, afirma Lahan.
Quando o celular também é o local de trabalho
Guardar o celular pode parecer uma recomendação simples para diminuir o tempo nas redes. Para quem depende delas profissionalmente, porém, essa separação é mais complexa.
No caso dos influenciadores, abrir um aplicativo pode significar trabalhar. É ali que estão publicações, comentários, mensagens, tendências, métricas e informações sobre o desempenho de conteúdos.
Isso também significa que o trabalho pode continuar disponível durante praticamente todo o dia, inclusive nos períodos que deveriam ser destinados ao descanso.
Para Lahan, essa dinâmica pode alimentar a percepção de que permanecer conectado significa estar sempre um passo à frente.
“É muito fácil você acreditar que precisa estar conectado o tempo inteiro porque sempre existe alguma coisa acontecendo. Uma publicação pode performar melhor, uma ideia pode surgir, alguém pode estar crescendo enquanto você está parado. Só que chega um momento em que você percebe que não dá para transformar cada minuto do dia em produtividade”, diz.
Comparação também entrou na rotina
Outro aspecto que atravessou a experiência do influenciador foi a comparação.
Lahan começou no digital quando ainda morava com os pais, no Rio de Janeiro. Aos 16 anos, enxergava a internet como uma possibilidade de conseguir renda extra. Com o crescimento do trabalho, números como alcance, engajamento e seguidores passaram a fazer parte da vida profissional.
Nas redes, porém, os próprios resultados aparecem lado a lado com o sucesso de outras pessoas.
“Teve momentos em que eu trabalhava muito e não conseguia enxergar os resultados acontecendo na mesma velocidade que via acontecer para outras pessoas. Isso mexe com você porque a internet coloca o resultado de todo mundo na sua frente o tempo inteiro”, relata.
Com os anos, ele diz ter percebido que essa comparação poderia interferir na maneira como enxergava a própria trajetória.
“Com o tempo entendi que comparação e ansiedade podem destruir uma trajetória promissora. Algumas coisas simplesmente precisam de tempo”, afirma.
A percepção toca em uma questão que vai além do universo dos influenciadores. Nas plataformas, conquistas profissionais, viagens, mudanças físicas, relacionamentos e momentos felizes podem ser apresentados continuamente, enquanto frustrações, dificuldades e períodos de construção permanecem menos visíveis.
Lahan tenta fazer essa diferenciação também no conteúdo que compartilha.
“Muitas pessoas veem apenas o resultado final de alguém nas redes sociais. Eu gosto de mostrar também que existem trabalho, erros, pressão, disciplina e anos de construção”, diz.
Exercício virou uma forma de sair da velocidade das redes
Foi justamente colocando o corpo em movimento que Lahan encontrou uma maneira de diminuir a velocidade dos pensamentos.
Atualmente, corrida e musculação fazem parte de sua rotina. Os exercícios, segundo ele, deixaram de representar apenas uma preocupação física e passaram a funcionar também como um período de atenção direcionada para algo que não envolve métricas, publicações ou desempenho nas plataformas.
“Quando estou treinando, tento realmente estar naquele momento. Para alguém que trabalha conectado e passa boa parte do dia pensando no que precisa fazer depois, conseguir estar presente em uma única atividade faz diferença”, conta.
A prática regular de atividade física está associada a benefícios para a saúde física e também pode contribuir para o bem-estar, humor e qualidade do sono. No caso de Lahan, ele relata perceber ainda mudanças na concentração e na própria maneira de trabalhar.
“Quando consigo manter consistência nos treinos e na corrida, percebo uma diferença muito grande na minha concentração e na maneira como trabalho. Hoje não vejo exercício apenas pela questão física. Virou uma parte importante da minha rotina”, explica.
Saúde mental também passa pelos limites fora das telas
A experiência de Lahan levanta uma discussão cada vez mais presente em profissões digitais: como descansar quando o trabalho está permanentemente no bolso?
A hiperconexão não está restrita aos influenciadores. Mensagens profissionais, notificações, e-mails e plataformas digitais também tornaram mais tênue a divisão entre expediente e vida pessoal em diferentes profissões.
Para criadores de conteúdo, há ainda uma particularidade: além de ferramenta de trabalho, a rede social é o espaço em que a própria performance profissional é exposta e comparada publicamente.
Por isso, estabelecer momentos fora das telas pode fazer parte de uma rotina mais equilibrada, assim como preservar sono, lazer, atividade física e relações que não estejam permanentemente ligadas ao trabalho.
Quando ansiedade, alterações do sono, irritabilidade, exaustão ou outros sinais de sofrimento se tornam persistentes e começam a interferir na rotina, a avaliação de um profissional de saúde pode ser importante.
Nem todo crescimento precisa acontecer na velocidade do feed
Aos 29 anos, Lahan vive uma realidade diferente daquela do adolescente que começou a trabalhar pela internet no quarto da casa dos pais.
A mudança do Rio de Janeiro para São Paulo, o crescimento da audiência e a transformação das redes em profissão vieram acompanhados também da necessidade de construir limites entre aquilo que acontece na tela e a própria vida.
Se antes acompanhar o crescimento de outras pessoas alimentava a pressão por resultados, hoje ele diz tentar estabelecer outra referência.
“Quando você trabalha com internet, parece que sempre existe alguém crescendo mais rápido, fazendo mais ou conquistando alguma coisa antes de você. Hoje tento competir muito mais comigo mesmo. Quero evoluir, mas também entendi que não adianta construir uma carreira se você não consegue encontrar momentos para simplesmente sair daquela velocidade”, conclui.
