As doenças cardiovasculares causaram aproximadamente 19,8 milhões de mortes no mundo em 2022 e responderam por cerca de 32% de todos os óbitos, segundo a Organização Mundial da Saúde . O impacto não se distribui de maneira isolada entre diagnósticos. Condições como hipertensão, diabetes e doença renal crônica frequentemente se sobrepõem, elevando a complexidade do acompanhamento e a probabilidade de eventos graves.
A relação entre coração e rins é particularmente relevante porque a perda da função renal altera volume circulante, equilíbrio eletrolítico e pressão arterial, ao mesmo tempo que amplia a exposição a arritmias, hipertrofia ventricular e morte súbita. Em pacientes que iniciam terapia renal substitutiva, reconhecer sinais cardiovasculares pode contribuir para uma avaliação clínica mais completa e para decisões de cuidado compatíveis com o risco.
Uma pesquisa publicada na Revista da Faculdade de Ciências Médicas de Sorocaba examinou eletrocardiogramas de 199 pacientes com doença renal crônica em estágio 5 no início do tratamento dialítico. Saburo Chaves Yamamoto, médico cardiologista com experiência em terapia intensiva e gestão hospitalar, integrou o grupo de autores do estudo.
Os resultados mostraram que apenas 12% dos exames apresentavam traçados considerados normais. Entre os achados mais frequentes estavam sobrecarga atrial esquerda, observada em 31% dos pacientes, sobrecarga ventricular esquerda, em 30%, e alterações de repolarização relacionadas à hiperpotassemia, em 26%. Também foi identificado prolongamento do intervalo QT corrigido, marcador que requer atenção por sua associação com instabilidade elétrica cardíaca.
O levantamento ainda apontou maior prevalência de sobrecarga ventricular esquerda entre pacientes cuja doença renal tinha a hipertensão como causa. Dentro desse grupo, o padrão strain apareceu em 47% dos casos com sobrecarga ventricular. Os números não permitem transformar o eletrocardiograma em diagnóstico isolado, mas demonstram a frequência de alterações que podem orientar investigação e acompanhamento.
A relevância do estudo está na interseção entre especialidades. O paciente renal avançado não apresenta apenas um problema de filtração; ele pode carregar alterações cardiovasculares silenciosas ou pouco específicas. Para Saburo Yamamoto, a resposta assistencial precisa buscar “melhorar a coordenação do cuidado, fortalecer estratégias de prevenção e bem-estar, reduzir reinternações evitáveis e otimizar o uso de recursos”. A declaração consta de seu planejamento para iniciativas de educação e organização em saúde.
A coordenação mencionada pelo cardiologista envolve circulação de informações entre terapia intensiva, cardiologia, nefrologia, atenção ambulatorial e equipes responsáveis pela transição após a alta. Quando cada etapa utiliza critérios distintos ou registros incompletos, sinais clínicos podem perder continuidade e exames já realizados deixam de contribuir plenamente para decisões posteriores.
O eletrocardiograma permanece como ferramenta amplamente disponível e de execução relativamente simples, mas sua utilidade depende de interpretação clínica, comparação com exames anteriores e integração com outros dados. Alterações eletrolíticas, medicamentos, hipertensão e características estruturais do coração precisam ser consideradas antes de qualquer conclusão.
A pesquisa com 199 pacientes não encerra a discussão nem substitui estudos multicêntricos, mas oferece uma contribuição verificável: alterações eletrocardiográficas foram predominantes no início da terapia renal substitutiva. Ao posicionar esses achados dentro de uma abordagem integrada, o trabalho do qual Saburo Yamamoto participou reforça que a prevenção cardiovascular também depende de reconhecer riscos presentes em outras doenças crônicas.