
Segundo dados do Movimento Mulher 360, duas em cada três mulheres (66,7%) em posições de liderança já apresentam sintomas da Síndrome de Burnout.
O cenário evidencia os impactos da sobrecarga e da pressão no ambiente corporativo e amplia a discussão sobre os efeitos do adoecimento mental entre profissionais responsáveis por decisões estratégicas.
Para a psicóloga Denise Milk, o problema ultrapassa a esfera individual.
Quando o esgotamento alcança profissionais em posições de liderança, seus efeitos podem aparecer também na tomada de decisões, na gestão de conflitos, nas relações com as equipes e no próprio ambiente de trabalho.
“Esse dado revela uma contradição importante do mundo corporativo: temos executivos responsáveis pela saúde dos negócios que, muitas vezes, não conseguem sustentar a própria saúde. E isso não pode ser tratado apenas como uma questão individual. Um líder esgotado continua tomando decisões estratégicas, administrando conflitos, definindo prioridades e influenciando emocionalmente dezenas ou centenas de pessoas”, afirma.
“Quando o adoecimento chega à alta gestão, ele deixa de ser apenas um problema de saúde e passa a ser também um risco para o negócio. A qualidade da liderança interfere diretamente na qualidade das relações, das decisões e do ambiente que a organização produz”, acrescenta.
Saúde mental não pode ficar restrita a ações de bem-estar
A discussão sobre burnout também envolve a responsabilidade das empresas na identificação e prevenção dos riscos psicossociais relacionados ao trabalho.
Para Denise, esse debate exige olhar para fatores que fazem parte da rotina das organizações, como sobrecarga permanente, pressão excessiva e relações profissionais inseguras.
A psicóloga destaca ainda o papel da NR-1 na incorporação dos riscos psicossociais à gestão de segurança e saúde no trabalho.
“A NR-1 é importante justamente porque ajuda a deslocar essa discussão do campo do benefício corporativo para o campo da gestão. Risco psicossocial não se enfrenta apenas oferecendo ações de bem-estar enquanto permanecem intactas culturas de excesso, relações inseguras, sobrecarga permanente ou lideranças despreparadas para gerir pessoas”, explica.
Para a especialista, oferecer iniciativas isoladas de qualidade de vida não resolve o problema quando os fatores responsáveis pelo desgaste continuam presentes na própria organização do trabalho.
“As empresas aprenderam a acompanhar indicadores financeiros, operacionais e comerciais com enorme precisão; agora precisam desenvolver a mesma maturidade para gerir a dimensão subjetiva do trabalho”, afirma Denise.
O desafio se torna ainda mais relevante quando profissionais submetidos à sobrecarga são justamente aqueles responsáveis por conduzir equipes, administrar crises e definir estratégias.
Nesse contexto, prevenir o burnout deixa de significar apenas cuidar individualmente de quem apresenta sintomas e passa também pela análise das condições em que o trabalho é realizado.
Para Denise, cuidar da saúde mental não significa reduzir a importância de metas ou resultados, mas discutir de que maneira eles são alcançados e sustentados ao longo do tempo.
“Isso não significa tornar as organizações menos orientadas a resultado. Pelo contrário: saúde mental e alta performance não são forças opostas. O desafio contemporâneo é construir ambientes em que as pessoas consigam produzir bons resultados sem precisar adoecer para sustentá-los”, conclui.
