
O que acontece no campo pode chegar até a mesa. Alterações no clima, disponibilidade de água, qualidade do solo e uso de fertilizantes interferem diretamente na produção agrícola e ajudam a colocar em discussão não apenas a produtividade, mas também a segurança alimentar.
Com períodos de calor intenso, excesso de chuvas e estiagens prolongadas entre os desafios enfrentados pela agricultura, pesquisadores e empresas vêm buscando tecnologias capazes de melhorar o aproveitamento de água e nutrientes pelas plantas.
Uma das alternativas estudadas é a nanotecnologia aplicada aos fertilizantes.
Atuando desde 2014, a Ética do Brasil pesquisa e desenvolve soluções em nanotecnologia e criou uma linha de nanofertilizantes que utiliza minerais presentes nos fertilizantes convencionais, mas trabalha com partículas em escala reduzida.
Segundo a química e especialista em nanotecnologia Kátia Coelho, porta-voz da empresa, a proposta é aumentar a eficiência no aproveitamento dos nutrientes aplicados nas culturas.
“Estamos trabalhando com as mesmas moléculas de minerais que já são utilizadas na agricultura, mas em uma escala muito menor. Isso aumenta a eficiência da absorção e reduz perdas que podem acontecer com os fertilizantes convencionais”, explica.
Do campo para a alimentação
A discussão ganha relevância para a saúde quando observada pela perspectiva da segurança alimentar. Eventos climáticos extremos podem comprometer safras, afetar a disponibilidade de determinados alimentos e aumentar a pressão sobre sistemas de produção.
Nesse contexto, tecnologias capazes de utilizar água, solo e nutrientes de maneira mais eficiente vêm sendo estudadas como ferramentas para aumentar a capacidade de adaptação da agricultura.
A nanotecnologia, entretanto, também exige avaliação criteriosa. A utilização de materiais em escala nanométrica na agricultura envolve aspectos relacionados à eficiência, ao comportamento dessas partículas no ambiente e à segurança de sua aplicação.
Por isso, desenvolvimento tecnológico, testes, regulamentação e acompanhamento científico precisam caminhar juntos.
Menos perdas de nutrientes
Em períodos de chuva intensa, nutrientes aplicados ao solo podem sofrer perdas por diferentes processos. Já durante períodos de calor e estiagem, a disponibilidade de água passa a representar outro desafio para o desenvolvimento das culturas.
A Ética do Brasil desenvolveu formulações que incluem hidrogel de nanosílica, com o objetivo de auxiliar na retenção de água e na disponibilização dos nutrientes.
“A ideia é ajudar a planta a aproveitar melhor os nutrientes e a água disponível. Em uma situação de muita chuva ou de seca, o desafio é diferente, mas nos dois casos existe uma preocupação com a eficiência do que foi aplicado”, explica Kátia.
Segundo a empresa, a tecnologia vem sendo utilizada e testada em culturas como cana-de-açúcar, mandioca, batata-doce, amendoim, tomate, cítrus, uva e horticultura, além de poder ser aplicada em soja e milho.
Nanotecnologia exige avaliação
Embora a redução no volume de fertilizantes e o melhor aproveitamento de nutrientes sejam possibilidades relevantes, a discussão sobre nanotecnologia na agricultura não deve ficar restrita à produtividade.
Quando novas tecnologias passam a integrar sistemas responsáveis pela produção de alimentos, também é necessário compreender seus impactos ambientais e sua segurança ao longo da cadeia.
Para Kátia, transformar pesquisa científica em aplicação prática exige justamente aproximar desenvolvimento tecnológico e necessidades reais da produção.
“Não adianta desenvolver uma tecnologia sofisticada se ela não chegar ao produtor e não resolver um problema real. Nosso objetivo é justamente transformar a pesquisa em uma solução que possa ser utilizada no campo”, conclui.
Em um cenário de mudanças climáticas e pressão crescente sobre água, solo e produção de alimentos, a nanotecnologia passa a integrar uma discussão que ultrapassa os limites das propriedades rurais. Afinal, eficiência agrícola, disponibilidade de alimentos e segurança alimentar são temas que também chegam à saúde da população.
