
O aumento da expectativa de vida traz uma consequência que raramente aparece nas discussões sobre envelhecimento: a quantidade crescente de resíduos produzidos pelos cuidados diários com idosos.
Entre eles estão as fraldas geriátricas e outros produtos absorventes utilizados por pessoas com incontinência urinária ou fecal.
Depois do uso, esses materiais reúnem plástico, fibras, polímeros, urina, fezes e microrganismos, combinação que transforma o descarte em uma questão que envolve saúde e meio ambiente.
O assunto chama ainda mais atenção quando entra em cena a resistência aos antibióticos.
Bactérias presentes no organismo humano podem ser eliminadas pelas fezes e pela urina, inclusive aquelas que já desenvolveram resistência a determinados medicamentos.
Um estudo realizado em 23 instituições de longa permanência na França analisou produtos para incontinência utilizados por 547 moradores.
Entre os participantes, 88 eram portadores de enterobactérias multirresistentes.
Os pesquisadores conseguiram identificar esses microrganismos também a partir de amostras coletadas nos produtos absorventes utilizados pelos idosos.
O que uma fralda usada pode carregar?
Entre as bactérias que podem estar presentes em materiais biológicos estão Escherichia coli e Klebsiella pneumoniae.
Ambas podem fazer parte de quadros infecciosos e algumas cepas apresentam resistência a antibióticos, dificultando o tratamento de determinadas infecções.
Uma pesquisa realizada em 111 instituições de longa permanência na Holanda analisou mais de 5,3 mil amostras obtidas de urina e de produtos para incontinência.
Isso não transforma a fralda geriátrica em responsável pelo surgimento da resistência antimicrobiana.
O que os estudos demonstram é que produtos utilizados por pessoas colonizadas podem conter esses microrganismos depois do uso.
A diferença é importante: o risco está relacionado ao material biológico presente no resíduo e à maneira como ele é manipulado e destinado.
Um resíduo que tende a aumentar
A composição das fraldas também torna o problema ambiental mais complexo.
Ao contrário de resíduos formados por um único material, os produtos absorventes descartáveis combinam diferentes componentes e chegam ao lixo contendo material orgânico.
Um estudo australiano estimou que urina e fezes podem corresponder a aproximadamente 60% do peso de um produto para incontinência depois do uso.
Os pesquisadores também projetaram que, com o envelhecimento da população, a geração de resíduos de produtos absorventes utilizados por adultos poderá superar de quatro a dez vezes a quantidade proveniente de fraldas infantis no país até 2030.
Uma revisão internacional sobre produtos higiênicos absorventes estimou ainda que as fraldas para adultos correspondem, em peso, a aproximadamente 4,8% dos resíduos municipais nos países da OCDE e 3,3% nos países latino-americanos analisados.
Os números mostram que a discussão não envolve apenas o que existe dentro de uma fralda usada, mas também a quantidade desse material que precisa ser coletada e receber uma destinação adequada.
Resistência aos antibióticos também é questão ambiental
A resistência antimicrobiana deixou de ser uma preocupação restrita a hospitais.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) destaca que bactérias resistentes e genes relacionados à resistência podem circular por resíduos fecais, águas residuais e outros ambientes, principalmente quando existem deficiências de saneamento e tratamento.
Em 2025, a organização publicou orientações específicas para a vigilância da resistência antimicrobiana em águas residuais e no ambiente.
A proposta é ampliar a capacidade de acompanhar como esses microrganismos e seus genes circulam fora dos serviços de saúde.
Isso não significa que uma fralda colocada no lixo necessariamente terminará em um rio ou sistema de esgoto.
A preocupação surge quando resíduos com material biológico são descartados ou manejados inadequadamente e passam a integrar uma cadeia ambiental já relacionada à circulação de microrganismos resistentes.
O envelhecimento coloca o tema em evidência
Para famílias e cuidadores, trocar uma fralda faz parte de uma rotina muito mais ampla, que pode incluir banho, alimentação, medicamentos e acompanhamento médico.
Depois que o material é fechado e colocado no lixo, dificilmente seu destino continua sendo uma preocupação de quem realizou o cuidado.
Em instituições de longa permanência, onde dezenas ou centenas de trocas podem acontecer diariamente, o volume torna essa questão ainda mais evidente.
O envelhecimento populacional tende a aumentar a utilização desses produtos e, consequentemente, a quantidade de resíduos gerados.
Estudos sobre o ciclo de vida das fraldas para adultos já relacionam esse crescimento ao maior consumo de matérias-primas e energia, geração de resíduos e impactos ambientais associados à produção e ao descarte.
A fralda geriátrica, portanto, ocupa uma posição pouco percebida entre duas questões que desafiam diferentes países: como lidar com os resíduos produzidos por uma população cada vez mais longeva e como reduzir a circulação de bactérias resistentes aos medicamentos disponíveis.
O descarte de uma única fralda pode parecer um gesto pequeno dentro da rotina doméstica.
Quando multiplicado pelo consumo diário de milhares de idosos em casas, hospitais e instituições, porém, o destino desse material passa a fazer parte de uma discussão muito maior sobre envelhecimento, saneamento, resíduos e saúde pública.
