
A falta de medicamentos, os atrasos nos pagamentos de profissionais e as dificuldades para manter tratamentos médicos podem ter origem em problemas que começam longe dos consultórios.
Por trás da rotina de hospitais e clínicas, decisões financeiras, conflitos entre acionistas e falhas administrativas podem comprometer o funcionamento dos serviços e afetar diretamente a assistência oferecida aos pacientes.
O assunto chama atenção diante de disputas societárias envolvendo grandes empresas do setor de saúde, como a Oncoclínicas, que passou a enfrentar questionamentos de médicos acionistas minoritários sobre questões financeiras e operacionais.
O caso também envolve uma disputa arbitral com valores bilionários, levantando discussões sobre os impactos que conflitos empresariais podem provocar na continuidade dos serviços médicos.
Para Carol Kaderli, conselheira consultiva certificada pelo Advisory Board Institute (ABI) e fundadora da CMK Business Advisory, o faturamento elevado de uma instituição não significa, necessariamente, que ela tenha condições financeiras de manter suas operações com segurança.
Com mais de 20 anos de experiência em liderança executiva, incluindo passagens por empresas como SAMP Assistência Médica, Athena Saúde e Associl, a especialista já atuou na gestão de operações que reuniam mais de 1,5 milhão de beneficiários.
“A queixa inaugural que recebo em quase todos os diagnósticos corporativos é a necessidade imediata de vender mais, mas aumentar vendas sem capacidade de entrega inflaciona custos e destrói o demonstrativo de resultados”, explica Carol.
Quando os problemas financeiros chegam aos pacientes
Uma instituição de saúde depende de planejamento contínuo para garantir a compra de medicamentos, a manutenção de equipamentos, o pagamento de profissionais e a disponibilidade de materiais utilizados nos atendimentos.
Quando esses processos não funcionam adequadamente, as consequências podem atingir diferentes etapas do cuidado médico.
Segundo Carol, um dos erros recorrentes na administração hospitalar é acreditar que aumentar o número de pacientes ou expandir a comercialização de planos será suficiente para resolver problemas financeiros.
A especialista explica que o crescimento sem organização pode ampliar despesas, sobrecarregar profissionais e dificultar a manutenção da qualidade assistencial.
Outro ponto de atenção está nas disputas empresariais que envolvem instituições médicas.
Para a conselheira, decisões tomadas com foco exclusivo em resultados financeiros futuros podem deixar necessidades imediatas do atendimento em segundo plano.
“Quando a liderança trata uma instituição médica como um bilhete de loteria financeiro voltado a desfechos arbitrais, a atividade assistencial acaba sufocada pela falta de liquidez imediata. A saúde vive de previsibilidade no presente; nenhum centro de atendimento sobrevive aguardando decisões jurídicas de longo prazo”, afirma.
Falta de comunicação também pode prejudicar o atendimento
Além dos problemas financeiros, a comunicação entre profissionais de saúde e gestores tem papel importante na identificação de falhas que podem comprometer a rotina assistencial.
De acordo com a experiência da especialista em diagnósticos corporativos, funcionários nem sempre se sentem seguros para relatar dificuldades operacionais, problemas no atendimento ou situações que precisam de intervenção da administração.
O receio de sofrer consequências profissionais ou de assumir responsabilidades pode fazer com que informações importantes deixem de chegar aos responsáveis pelas decisões.
Esse distanciamento dificulta a identificação de problemas e pode levar gestores a adotarem medidas financeiras sem compreender suas causas.
Para Carol, a administração precisa criar condições para que os profissionais comuniquem dificuldades e participem da identificação de soluções, especialmente em instituições nas quais decisões administrativas têm consequências diretas para a assistência médica.
Como evitar que crises comprometam os tratamentos?
A adoção de mecanismos de controle financeiro, acompanhamento de processos e participação de conselhos consultivos independentes está entre as medidas defendidas pela especialista para melhorar a administração das instituições de saúde.
Carol utiliza o princípio chamado CNPJ First, que propõe priorizar a continuidade e a sustentabilidade da instituição em relação aos interesses individuais de acionistas ou dirigentes.
Na prática, a proposta envolve acompanhar despesas, identificar desperdícios, organizar processos internos e garantir que as decisões empresariais considerem as necessidades dos serviços prestados.
“O empresário precisa entender que a dívida bancária nunca é a causa do problema, mas apenas o sintoma final de uma operação gerencialmente desgovernada. A pergunta fundamental que faço aos conselhos não é quanto a operação faturou no último mês, mas onde ela estará sustentada daqui a três anos com governança e paz de espírito”, destaca.
Para a conselheira, a estabilidade financeira de hospitais e clínicas deve estar diretamente relacionada à capacidade de manter a assistência médica funcionando de maneira contínua.
A discussão reforça que a qualidade de um serviço de saúde não depende apenas da estrutura física ou da qualificação dos profissionais.
A forma como uma instituição administra seus recursos também pode influenciar a segurança dos pacientes, a disponibilidade de tratamentos e a confiança na relação entre médicos e pessoas atendidas.
