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Caso intriga comunidade da ciência forense; surpresa foi ainda maior na análise do sêmen, cujo DNA era totalmente composto pelo do doador

Três meses após passar por um transplante de medula, Chris Long, morador de Reno, cidade no estado americano de Nevada, descobriu que o procedimento alterou o DNA de seu sangue. Seu material genérico havia sido totalmente substituído pelo de seu doador, um homem alemão dez anos mais novo, com quem ele havia trocado apenas algumas mensagens.

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Long fez o transplante após receber um diagnóstico de leucemia mielóide aguda e síndrome mielodisplásica, condições que afetam a produção de células sanguíneas saudáveis. Ele fez o teste por incentivo de uma colega de trabalho na estação policial do Condado de Washoe, no Oeste de Nevada, onde atuava na área de TI.

Quatro anos após o procedimento que salvou sua vida, ele descobriu que seu sangue não foi o único a ser afetado. Amostras retiradas dos lábios e da bochecha trouxeram vestígios do material genético dele e do doador. Mais surpreende ainda foi a análise do sêmen, cujo DNA era totalmente composto pelo do homem alemão.

"Eu achei impressionante o fato de que eu posso desaparecer e alguém surgir (no material genético)", diz Long. O americano sofre da chamada quimera, termo técnico para as pessoas com a rara condição de compartilharem duas configurações de DNA. A palavra remete à criatura mitológica grega de mesmo nome, composta por um leão, um bode e uma serpente.

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Pesquisadores e cientistas forenses já identificaram determinados procedimentos médicos que causam quimerismo há anos, mas os componentes do corpo onde o DNA do doador aparecem têm sido pouquíssimo estudados no recorte de aplicações criminais.

Dezenas de milhares de pessoas realizam transplante de medula óssea todos os anos para o tratamento de doenças como leucemia, linfoma e anemia.

Embora seja improvável que qualquer uma delas se torne a vítima ou a autora de um crime, a mera possibilidade intrigou os amigos de Long no laboratório criminal do departamento policial. Por meio de testes de DNA, fizeram dele uma espécie de cobaia humana.

Implicações em investigações criminais

As implicações do caso, apresentado na Conferência Internacional de Ciência Forense, em setembro, levaram o interesse em torno da história de Long muito além do pequeno estado de Nevada.

Médicos, no geral, não precisam identficar onde o DNA do doador se concentrará no paciente, especialmente pelo fato de esse tipo de quimerismo não ser danoso para sua saúde — tampouco de mudar suas características.

"O cérebro e a personalidade permanecem os mesmos", explica Andrew Rezvani, diretor médico da unidade de Sangue e Transplante de Medula no centro médico da Universidade de Stanford, reforçando que nem mesmo a diferença de gênero traz reflexos.

No entanto, para um cientista forense, o panorama é outro. A presunção entre investigadores criminais na coleta de evidências de DNA na cena de um crime é a de que cada vítima e cada criminoso deixa para trás pistas de um código de identificação único — e não dois, incluindo um segundo personagem dez anos mais novo que vive a milhares de quilômetros de distância.

Renee Romero, a colega que incentivou Long a fazer os testes e coordenava o laboratório criminal do departamento de Washoe, viu uma oportunidade científica quando ele contou que seu médico havia encontrado um doador compatível em um site para seu transplante.

"Nós temos que rastrear você inteiro antes do procedimento para testar como o DNA se comportará no seu corpo", Renee lembra de ter dito a Long. Com a concordância do colega de trabalho, quatro anos depois, a coordenadora do laboratório conduziu o experimento com a ajuda de outros funcionários.

Quatro meses após o transplante, o sangue de Long já havia sido substituído pelo de seu doador. O material coletado de seus lábios, bochechas e da língua indicaram a presença do DNA do doador em quantidades flutuantes. De todas as amostras, apenas o cabelo e o peito estavam inalterados.

A maior surpresa, no entanto, veio do sêmen, cujo material genético havia sido inteiramente substituído pelo do homem alemão que doou a medula para Long. "Nós ficamos chocados ao preceber que Chris não estava mais presente", relata Darby Stienmetz, criminalista no departamento policial de Washoe.

DNA de preso aparece em caso de estupro

Para Brittney Chilton, da divisão de ciência forense, se outros pacientes responderem de forma similar ao transplante como Long e cometerem um crime, isso poderia desviar a atenção de investigadores. Ela lembra que não seria a primeira vez.

Em 2004, agentes que atuavam na apuração de um crime no Alasca extraíram o perfil do DNA de uma amostra de sêmen e compararam com uma base de dados, que apontou para um suspeito em potencial.

Havia um problema, contudo: o homem estava na prisão na época do estupro. Descobriu-se, então, que ele havia recebido um transplante de medula óssea. O doador, o irmão, acabou condenado.

Abirami Chidambaram, responsável pelo caso do Alasca, afirma que já havia tomado conhecimento, à época, de outro episódio complexo.

Nele, dois policiais estavam céticos quanto ao relato de uma vítima de abuso sexual que havia feito transplante de medula óssea anos antes e, na ocasião, alegava ter sido atacada por um homem, mas a análise de DNA indicava o material genético de dois homens. Eventualmente, os investigadores concluíram que o segundo perfil genético era de seu doador.

E se ele tiver um filho?

As especificidades do caso de Long levantam uma pergunta inevitável: o que acontecerá se ele tiver um filho? Ele repassaria os genes do doador alemão ou os seus próprios? No caso do americano, a questão nunca será respondida, já que ele realizou uma vasectomia depois de ter o segundo filho. Mas e se fosse qualquer outra pessoa?

Três especialistas em transplantes de medula óssea ouvidos pelo "NYT" concordam que é uma pergunta intrigante. Eles, no entanto, afirmam que a transmissão dos genes de outra pessoa como resultado do transplante como o realizado por Long é impossível.

Rezvani reforça que as células sanguíneas do doador não são capazes de criar novas células de esperma. Para Mehrdad Abedi, da Universidade da Califórnia, que tratou de Long, a vasectomia a qual ele se submeteu ajuda a explicar a transferência de material genético para o sêmen.

No entanto, casos de quimerismo também são capazes de criar outros cenários confusos. Gêmeos fraternos ou dizigóticos (ou seja, formados a partir de dois óvulos) por vezes adquirem o DNA do outro no útero.

Há também casos registrados de desconfiança de traição após o nascimento de bebês que não guarda semelhanças com o pai. Em outro episódio, uma mãe quase perdeu a custódia de uma criança depois de um teste de DNA.

Embora a história do americano levante diversos questionamentos, todos que se debruçaram sobre suas particularidades concordam com um aspecto: ele é um caso de estudo vivo, e é impossível determinar quantos indivíduos responderam ao transplante de medula óssea da mesma maneira que ele.

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A referência, eventualmente, se tornará uma das possibilidades curiosas que analistas forenses terão de considerar quando amostras de DNA não se mostrarem compatíveis. Da parte de Long, ele diz que espera encontrar seu doador durante uma viagem que fará em breve à Alemanha. O objetivo, no fim de tudo, é agradecer pessoalmente por ter salvado sua vida.