gripes
shutterstock
H1N1 fez mais de 790 vítimas no país só em 2019

Apesar da preocupação com a disseminação do coronavírus e com uma eventual chegada da epidemia ao Brasil , outras doenças, já conhecidas e até evitáveis com vacina, ainda fazem vítimas no país e continuam alvo de preocupação em saúde pública. Não são apenas doenças com surtos recentes, como sarampo, dengue e chicungunha , mas também gripes , como a causada pelo coronavírus. O vírus influenza A ( H1N1 ), por exemplo, matou uma média de duas pessoas por dia no Brasil no ano passado.

Leia também: Brasileiros gravam vídeo com apelo a Bolsonaro para saírem da China; assista

Em 2019, foram registrados 3.430 casos de infecção e 796 mortes em decorrência da infecção por H1N1, segundo o Ministério da Saúde. A maioria dos casos afetou idosos, crianças pequenas e pessoas com outros fatores de risco associados, como pneumopatias e doenças cardiovasculares crônicas. A epidemia de H1N1 começou em 2009, em um cenário de alarde similar ao vivido hoje com o coronavírus.

"Desde então o vírus influenza A (H1N1) permaneceu em circulação entre seres humanos e continua em vários países, inclusive no Brasil, como principal causa de síndromes respiratórias agudas graves causadas por vírus", explica Ricardo Palacios, diretor de Ensaios Clínicos do Instituto Butantan, em São Paulo.

Em 2018, foram registrados 3.880 casos de H1N1, e 917 óbitos nesse mesmo período no país. Além do desafio desse e de outros vírus respiratórios, como o A(H3N2) e o vírus influenza B, surtos conhecidos no verão brasileiro e doenças que se consideravam desaparecidas e voltaram ao país ainda inquietam especialistas e afetam a população.

"O número de mortes com o coronavírus é elevado, e o potencial de disseminação também preocupa. Ainda não sabemos muito sobre o comportamento do vírus, nem qual impacto causaria se chegar ao Brasil. Mas outros vírus preocupam e continuam gerando casos aqui, como dengue, chicungunha e febre amarela, que tem avançado em alguns lugares do país", diz a virologista Clarissa Damaso, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

No ano passado, segundo dados do Ministério da Saúde, foram confirmados 782 óbitos por dengue no país, e 92 por zika. O sarampo fez 15 vítimas letais em 2019 - 14 delas em São Paulo, estado que ainda vive um surto da doença.

E o vírus da febre amarela está em circulação no território, principalmente nos estados de Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Nos surtos de 2016/2017 e 2017/2018, foram registrados cerca de 2.100 casos de febre amarela no Brasil e mais de 700 óbitos pela doença.

Leia também: Suspeita de coronavírus faz Uber suspender 240 usuários no México; entenda caso

"Estamos em pleno verão, e os casos de dengue e chicungunha continuam estourando. Não podemos minimizar os "velhos vírus", que continuam causando problemas reais", acrescenta a virologista.

Ela afirma que é natural que as pessoas fiquem com medo do coronavírus, e que a novidade cause impacto na população: "mas outras doenças como sarampo e gripe, que matam, já têm vacina e a população não toma, não adere às campanhas".

Importância da vacina

Mesmo com a campanha de vacinação de sarampo no ano passado, por exemplo, estima-se que cerca de três milhões de pessoas entre 5 e 19 anos ainda não estejam imunizadas contra a doença no país.

No caso da gripe, o Instituto Butantan forneceu em 2019 ao Ministério da Saúde 65 milhões de doses da vacina influenza trivalente (H1N1, H3N2 e B). Este ano, informa a instituição, serão 75 milhões de doses, com entrega dos primeiros lotes ao ministério em março.

Leia também: Bolsonaro se afasta das eleições de 2020 para não afetar futuro do novo partido

Seguindo recomendação de especialistas do Hemisfério Norte, que indicam as cepas que devem constar na campanha de vacinação prévia ao inverno no Hemisfério Sul, a vacina deste ano no Brasil conterá novas cepas do vírus da gripe.

"Os vírus estão em processo de mutação genética, e a partir dessa vigilância mundial conseguimos detectá-las, para garantir que a vacina seja eficaz", explica Palacios, do Instituto Butantan.

Ele lembra que a vacina não impede resfriados, como muitos acham. Ela age, principalmente, para evitar complicações da influenza, como a síndrome respiratória aguda grave, que pode levar à internação e à morte. Poderia, inclusive, ajudar a reduzir complicações em um cenário de coinfecção com o coronavírus.

"A vacina é favorável em cascata, ajuda a prevenir infecções e reduzir complicações e piora do quadro clínico. A infecção por influenza, por exemplo, predispõe as pessoas a terem outros eventos, como pneumonia causada por bactérias. Há outras coisas que a vacina de influenza indiretamente ajuda a prevenir. Inclusive a coinfecção com outro vírus respiratório, que poderia ser o caso em uma chegada do coronavírus e de outros vírus em circulação", diz o especialista em bioética e infectologia.

Clarissa Damaso, da UFRJ, ressalta que a adesão à campanha de vacina pode ser decisiva para o funcionamento do sistema de saúde brasileiro em um cenário de nova epidemia: "será principalmente importante neste ano, que temos um novo vírus respiratório em circulação, proteger contra os que já existem, até para não haver uma sobrecarga no sistema de saúde com testagens e diagnósticos. Aí sim o sistema de saúde pode não dar vazão".

Leia também: Filipinas é primeiro país a confirmar morte por coronavírus fora da China

No cenário incerto, especialistas reforçam a importância da prevenção.

"A prevenção de um vírus respiratório, seja coronavírus, influenza ou outros, tem muita coisa em comum", diz Palacios. "No dia a dia, as pessoas podem ajudar. Se estiverem doentes, devem proteger nariz e boca para evitar transmitir a outras pessoas. Não temos esse costume, continuamos trabalhando resfriados".

Se forem tossir ou espirrar, acrescenta, o recomendado é usar lenço, ou outro material para proteger: "a mão pode passar no olho, cumprimentar alguém ou pegar uma comida para uma criança, e transmitir a doença. E é fundamental lavar as mãos. É simples, e ajuda muito".

    Veja Também

      Mostrar mais