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Fiocruz alerta que atraso de notificações prejudica combate à epidemia da Covid-19
Gabriel de Paiva / Agência O Globo
Fiocruz alerta que atraso de notificações prejudica combate à epidemia da Covid-19

Estudo do projeto MonitoraCovid-19 , realizado por pesquisadores do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Icict/Fiocruz), e divulgado hoje (20), alerta que a divulgação de casos da doença pode apresentar mais de 50 dias de diferença entre o registro no sistema de saúde e a publicação nos boletins epidemiológicos , em alguns estados.

No Amapá, Maranhão, Paraíba, Rio de Janeiro e Rondônia, os dados oficiais registraram o número máximo de casos da covid-19 até sete semanas depois de ele ter acontecido efetivamente . O que significa que medidas importantes de saúde pública podem ter demorado a ser tomadas, prejudicando o combate à epidemia, alerta o estudo.

O epidemiologista do Icict Diego Xavier explicou à Agência Brasil que foi feita uma análise considerando os dois sistemas de referência do Ministério da Saúde que abrangem a covid-19: o Sistema de Informação de Vigilância da Gripe (Sivep-Gripe) e o e-SUS VE, criado para atender à elevada demanda de notificações de casos devido à epidemia.

“E a gente identificou essa diferença no tempo. Em alguns estados, a gente tem essa variação grande em número de dias entre a data que ocorreram a máxima de casos e os óbitos. Em última análise, é isso”.

Diego Xavier ressaltou que o sistema de saúde também foi bastante afetado pela pandemia do novo coronavírus (Sars-CoV-2) , principalmente nos estados onde a covid chegou primeiro.

“As maiores diferenças a gente observa exatamente nesses estados”, apontou. É o caso, por exemplo, do Rio de Janeiro, Amazonas e Pará. Outros estados em que foi identificada diferença grande entre as datas real e oficial em relação ao número máximo de casos foram Paraná (30 dias), Rio Grande do Norte e Espírito Santo (27 dias cada), Goiás (25 dias), Distrito Federal (26 dias), Rio Grande do Sul (22 dias), Roraima (21 dias), Santa Catarina (20 dias) e Amazonas (19 dias).

O epidemiologista explicou que a doença leva um tempo para se confirmar por exame laboratorial e que, no início da pandemia, havia pouca capacidade de testagem, o que, segundo ele, também influenciou, além do volume muito grande de notificações.

Diego Xavier disse que os sistemas de atendimento de pacientes não estavam preparados, o mesmo ocorrendo com os sistemas de notificação. “Isso acabou resultando nesse problema, nessa defasagem”.

Sintomas

Os dados, contudo, continuam entrando no sistema e boa parte deles está sendo informada nos boletins estaduais. Quando os pesquisadores compararam os dois sistemas de dados de saúde, consideraram todos os casos de covid, desde a data informada pela pessoa como sendo o início dos sintomas quando chegava a uma unidade de saúde, até a confirmação da doença. “Nos casos que foram confirmados, a gente está comparando a data do início dos sintomas com os dados que saem no boletim”, informou.

O infectologista disse que quando a capacidade e a velocidade de testagem aumentaram, essa defasagem começou a diminuir. “Os dados aparecem. O grande problema é que, quando os dados apontavam que estávamos em uma situação um pouco mais confortável em alguns estados, a gente estava exatamente passando pelo pior período epidêmico. A gente estava com uma alta de casos e óbitos, mas a informação que estava chegando é que a doença ainda estava subindo. Na verdade, a gente já estava na alta”.

Diego Xavier estimou que essa diferença de informações pode ter prejudicado algumas políticas de flexibilização de atividades , naquele momento, em algumas localidades.

Já os estados da Região Sul do país, onde a doença chegou mais tarde, tiveram tempo para se estruturar, diz o estudo. “Ali, nota-se que a defasagem de informações é muito menor.”

Recomendações

Os pesquisadores do Icict/Fiocruz recomendam aos estados que é necessário que os gestores acompanhem mais de perto a data em que ocorreu o evento, a partir dos primeiros sintomas em diante, bem como a data do óbito, para que possam tomar medidas mais adequadas .

“Além disso, a gente precisa também investir mais e evidenciar a importância que têm os nossos sistemas de vigilância epidemiológica, desde a captura do dado lá na ponta do serviço. A gente precisa melhorar a cultura de coleta de dados. A ficha precisa ser muito bem preenchida pelo profissional de saúde que está lá na ponta, porque essas informações servem para fazer políticas de saúde depois. Mas desde a coleta do dado até a estruturação tecnológica do sistema, a gente precisa de sistemas que respondam mais rápido”, recomenda Diego Xavier.

O epidemiologista alertou, no entanto, que não é viável que os estados mudem a forma de divulgação dos boletins, porque a população já se acostumou a ela. “Mudar a forma como se divulga só vai trazer mais confusão”. Segundo ele, trata-se mais de uma questão interna e técnica das secretarias de Saúde. A recomendação da Fiocruz é que as divergências apontadas no estudo devem ser levadas em conta pelos gestores públicos.

O epidemiologista destacou que o sistema criado por ocasião da pandemia da gripe H1N1 (Sivep-Gripe) apresenta uma qualidade dos dados muito melhor e com defasagem menor, além de oferecer outras oportunidades de análise usando as informações.

“A gente precisa criar sistemas nessa perspectiva, robustos, mais dinâmicos, para a gente saber o que está acontecendo no momento em que a doença está atingindo a população, porque tem vários aspectos que fizeram a doença acontecer”.

Diego Xavier alertou que, se os pesquisadores forem trabalhar apenas com informação que sai nos boletins e que se vê na televisão, “primeiro a gente está defasado no tempo e, provavelmente, tomando decisões não adequadas, como no caso da flexibilização do isolamento social”.

Diego Xavier disse que é preciso ter cuidado quando se analisa os dados de um estado porque, na realidade, eles se referem a uma média de municípios. Na realidade, segundo Diego Xavier, cada cidade está em um tempo epidêmico diferente. Por isso, acrescenta, a recomendação da Fiocruz continua a mesma, a de continuar mantendo o isolamento social, usar máscara, sair de casa somente quando for necessário, aliadas a medidas mais complexas, como a volta às aulas, que precisam de planos mais estruturados porque, senão, os casos vão voltar a subir.

Desafio

Os pesquisadores da Fiocruz consideram que os dados sobre a covid-19 no Brasil, tanto em nível estadual como municipal, são fundamentais para a tomada de decisões sobre as políticas públicas e medidas de emergência para conter a epidemia. Mas salientam que esses dados dependem de sistemas e painéis que têm cobertura e qualidade bastante variáveis no país. Consideram que esse é um dos desafios para o combate à pandemia do novo coronavírus.

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