400 mil mortos: veja o drama da família Lira, que perdeu 5 pessoas para a Covid
Alex Pazuello/Semcom
400 mil mortos: veja o drama da família Lira, que perdeu 5 pessoas para a Covid

Para a auxiliar de serviços gerais Ângela Moreira de Lira, de 42 anos, 2021 começou com uma via crucis pelo sistema de saúde, atrás de vaga, medicamento e oxigênio para os mais de 20 familiares acometidos pelo coronavírus. Ângela é moradora de Manaus, capital do Amazonas, epicentro do desastre sanitário provocado pela variante nacional no primeiro mês do ano. Sua peregrinação durou semanas e terminou com a morte de cinco integrantes da família.

O primeiro a adoecer foi o pai, Carlos Borba de Lira, de 62 anos. Em 29 de dezembro, Lira começou a sentir uma moleza estranha e procurou a unidade básica de saúde da comunidade São Sebastião da Serra Baixa, onde vivia com a mulher, um vilarejo rural de 800 habitantes em Iranduba, cidade a 25 km de Manaus. De início, os cinco testes rápidos para Covid-19 deram negativo. Só quando fez o RT-PCR, o do cotonete no nariz, testou positivo. Em 6 de janeiro, seu quadro piorou de repente e ele foi levado para o Hospital Municipal Hilda Freire.

"O médico falava que a única luz no fim do túnel para o meu pai era uma UTI, mas não tinha vaga em canto nenhum. A gente corria atrás e tudo fechado", relembra Ângela, que chorou durante quase toda a uma hora de entrevista.

Na frente do hospital, noite e dia, pelo menos dez integrantes da família faziam vigília à espera da vaga na UTI. Àquela altura, Manaus e região atravessavam o momento mais crítico da segunda onda da pandemia, com doentes morrendo sufocados. No hospital de Iranduba, a situação não era diferente. A estudante Marcia Freitas de Lira, de 26 anos, sobrinha de Lira, conta que assim que o oxigênio do Hilda Freire estava perto de terminar ela foi com o prefeito até Manaus em busca de mais cilindros.

De volta a Iranduba, na entrada da cidade, avisaram do hospital que o recurso havia acabado. Por dez minutos, os pacientes ficaram sem oxigênio e respiraram com o auxílio de ressuscitadores manuais, conhecidos com ambú, bombeados por algum familiar. Quando os cilindros chegaram, profissionais de saúde deram as mãos e fizeram uma corrente de oração no pátio do hospital, em agradecimento.

"Esse período sem oxigênio agravou o quadro do meu tio, porque ele estava bem. Pelo menos dez pacientes do hospital vieram a óbito neste dia", afirmou Marcia.

Para garantir que o pai continuasse respirando, Ângela e a família desembolsaram R$ 950 na compra de dois cilindros. Quando finalmente conseguiu uma vaga de UTI, ela contratou uma unidade móvel para transferir o pai para Manaus, por R$ 3.500, mas o médico avaliou que seu estado de saúde era crítico demais para suportar a viagem. Lira morreu horas depois, na madrugada do dia 13.

"Ele era tudo para nós. Estamos perdidos, começando a aprender a andar de novo. Não perdi só um pai, perdi meu grande amigo", disse Ângela.

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Ângela mal havia lidado com as burocracias e a dor da perda do pai e o vírus fazia novas vítimas. A variante se espalhou rapidamente pela comunidade da Serra Baixa. É ali que os Lira se encontram em datas comemorativas, como no Dia das Mães. Era o ano de 2019 e, nesse dia, eles "juntaram as panelas" e jogaram bingo. A maior motivação para a reunião era convencer a matriarca Ernestina Borba de Lira, de 84 anos, a viajar com a família para Fortaleza. Ela concordou e meses depois 40 integrantes dos Lira voaram para o Nordeste.

Naquela reunião do Dia das Mães, foi tirada a fotografia que está no alto desta reportagem. Nesta quinta-feira, os membros remanescentes se reuniram novamente para uma nova imagem, exposta abaixo.

Ernestina foi a segunda da família a morrer. Seu quadro se agravou tão rápido que a família pouco pôde fazer. Como não havia vaga no hospital, ela morreu em casa em 16 de janeiro, só três dias depois de Lira. Foi sepultada sem os protocolos de segurança dos cemitérios de cidades do eixo Rio-São Paulo. Em Serra Baixa, a própria família cava os buracos e enterra os corpos. Havia dezenas de pessoas presentes.

"Antes da Covid, era muito difícil enterrar alguém aqui na comunidade. Com essa variante, toda semana o pessoal cavava para enterrar seus familiares", disse Marcia.

A partir daí, foram tantos doentes que os Lira montaram espécies de UTIs caseiras para cuidar dos parentes. Diariamente, usavam dois cilindros de oxigênio para que os pacientes conseguissem respirar. Compraram oxímetros, aparelhos para medir a saturação, contrataram um infectologista e um fisioterapeuta. Em média, gastavam por dia em torno de R$ 800. Ângela conta que um primo chegou a ficar com 90% do pulmão comprometido e 12% de saturação.

"Com meu pai, a gente aprendeu que a nova variante não aparecia no raio-X, precisava logo bater uma tomografia. Aprendeu que precisava medir a saturação e qual medicamento tomar. Meu pai teve que morrer para a gente aprender a lidar com esse vírus", lamentou Ângela.

Ângela conta que uma prima que estava com o pai e a mãe contaminados em casa se viu numa situação desesperadora. Eles estavam deitados um próximo do outro em camas separadas por um cilindro de oxigênio. Com o oxigênio perto de acabar, ela implorou a Deus para não precisar escolher entre um ou outro para oferecer o aparelho. Acabou conseguindo remediar a crise fazendo inalação no pai, até o novo cilindro chegar. A mulher acabou morrendo. O marido, que estava deitado de costas para ela, sequer conseguiu se virar para se despedir dela.

Só da parte dos Lira, Ângela perdeu o pai, a avó e a tia Francisca Almeida de Oliveira, de 65 anos, parteira da comunidade. Do lado da mãe, ainda morreram o tio José Cordovil Beneza, de 69 anos, e a prima Claudia Leitte, de 50 anos.

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