O que preocupa não é a variante indiana, mas a falta de vacinas, diz virologista
O Antagonista
O que preocupa não é a variante indiana, mas a falta de vacinas, diz virologista

O professor titular de virologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Amílcar Tanuri está alarmado com a falta de vacinas para proteger a população contra a Covid-19. Ele alerta que, mais do que as variantes do coronavírus, sejam a indiana ou as brasileiras, o foco precisa ser em vacinar com a segunda dose o maior número de brasileiros o mais depressa possível. As vacinas, garante, serão capazes de conter adoecimento e morte pela Covid-19.

A variante indiana do coronavírus se alastra pelo mundo e já chegou ao Brasil. Qual a maior urgência hoje?

É vacinar a população o mais depressa possível. Isso é urgentíssimo. É óbvio que a entrada de variantes estrangeiras preocupa, mas temos um país onde o coronavírus já circula com intensidade. Precisamos evitar adoecimento e morte por Covid-19 e isso, não importa a variante, as vacinas podem fazer. O que mais preocupa não é a variante indiana ou qualquer outra variante, é a falta de vacinas em primeiro lugar. E depois de testes e outras medidas de contenção.

Há um temor de que essa variante escape do sistema imunológico e que as vacinas sejam menos efetivas contra ela?

Primeiro, não há prova de que ela escape do sistema imunológico nem que seja mais agressiva. Existe suspeita de que seja mais transmissível. Mas todas são questões que a vacinação rápida pode resolver.

Por quê?

Porque as vacinas em uso no Brasil, não importa qual, todas elas, têm se mostrado capazes de estimular uma rápida e robusta produção de anticorpos neutralizantes (aqueles que realmente atacam o coronavírus). Quando o vírus infecta o imunizado, a quantidade de anticorpos sobe muito. Isso significa que, se a pessoa imunizada com as duas doses for infectada, não importa se por P.1, variante indiana, britânica etc., seu sistema de defesa vai agir e impedir que ela adoeça com gravidade ou morra de Covid-19, e isso é o fundamental. Mas isso precisa ser feito com uma velocidade infinitamente maior do que a que acontece no Brasil.

Por quê?

Porque as pessoas não imunizadas com as duas doses estarão vulneráveis a contrair o coronavírus, que se espalha muito depressa, e podem adoecer e morrer. Porém, mesmo que ele se espalhe depressa, se a maior parte da população estiver protegida, a Covid-19 não causará doença e morte.

Que vacinas são mais efetivas?

Todas têm tido resultados satisfatórios contra doença grave e morte, seja CoronaVac, AstraZeneca ou Pfizer. Precisamos buscar vacinas onde houver para comprar. Por isso defendo a Sputnik (vacina russa, cujo pedido de uso emergencial no Brasil foi negado pela Anvisa) e vou defender qualquer outra com bons resultados e que esteja disponível. É questão de salvar vidas.

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E o que podemos esperar da variante indiana?

Ela ainda precisa ser mais estudada. Mas o que precisa ficar claro é que, enquanto o vírus estiver em alta circulação, se disseminando sem controle, novas variantes surgirão. Isso é uma evolução natural do vírus sem controle, vai acontecer.

E o que mais de urgente precisa ser feito?

A velha receita jamais posta em prática no Brasil. Além de vacinas, testagem em massa, uso de máscaras, medidas de higiene e distanciamento social.

O quanto a testagem vai ajudar?

Muitíssimo. Porque ela identifica os infectados e permite que sejam isolados, assim como seus contatos rastreados. E isso precisa ser massificado. A forma de fazer também é conhecida: testes rápidos de antígenos. São baratos, ágeis e eficientes. Podem fazer colossal diferença positiva e inexplicavelmente nunca colocados em uso no Brasil em massa. Esperamos que agora isso mude.

Precisamos sequenciar o material genético do vírus mais depressa?

Sim, claro. É preciso conhecer as variantes que circulam, o risco que representam. Esse tipo de estudo é importante para a prevenção do agravamento da pandemia. Mas, para salvar vidas agora, o foco é nas vacinas, e estamos muito lentos, com ritmo muito ruim.

E o que mais precisa ser feito?

Há um claro indício de agravamento da pandemia. Precisamos preparar os hospitais para impedir que a falta de insumos básicos, como o oxigênio, volte a se repetir.

O que temos certeza neste momento?

Que gastamos dinheiro, recursos e deixamos de salvar vidas com a crendice e a insistência em drogas que não funcionam, como cloroquina e ivermectina. Elas estão disponíveis nas farmácias, foram oferecidas ao povo. E não adiantaram de nada. Se funcionassem não teríamos a tragédia de hoje, caminhando para meio milhão de mortos. É uma questão de reconhecer a realidade.

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