Prefeituras apertam medias contra
Agência Brasil
Prefeituras apertam medias contra "sommelier de vacina"


Na contramão do chamado "sommelier de vacina", cidades têm adotado regras mais rígidas para coibir a caça a determinados imunizantes. Algumas prefeituras têm feito as pessoas assinarem termos de recusa e irem para o fim da fila. Outras deixam para informar a vacina já na hora da aplicação no braço. Há, ainda, casos em que as marcas de vacinas aplicadas variam de acordo com a faixa etária.

A escolha de vacinas, além de ser um ato egoísta, reforçam especialistas, só atrasa o processo de vacinação e o alcance de uma imunidade coletiva contra a Covid.

Em Belo Horizonte (MG), a prefeitura passou a direcionar as vacinas especificamente para determinadas faixas etárias. Pessoas de 59 a 53 anos estão recebendo a AstraZeneca, de 52 anos a CoronaVac, de 51 anos a Pfizer, de 50 anos a Janssen, de 49 anos a Pfizer e de 48 e 47 anos a AstraZeneca. As pessoas convocadas são orientadas a se vacinarem exclusivamente nos locais listados para cada grupo. Se alguém aparece em unidades diferentes daquelas definidas, explica a Secretaria Municipal de Saúde, não será vacinado.

Em São Paulo, a prefeitura de São Bernardo do Campo, na região do ABC paulista, adotou um termo de responsabilidade depois que cerca de 300 pessoas recusaram a vacina entre segunda e quarta-feira da semana passada. Desde que o decreto foi publicado, quem desistir de se vacinar terá que assinar um documento e aguardar o final do processo de imunização de toda a população adulta do município para então ter acesso novamente a uma dose de proteção contra a Covid. Segundo a prefeitura, ao menos 32 pessoas já assinaram o termo e foram automaticamente colocadas no final da fila.

Em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, quem escolher vacina e travar o andamento da imunização na cidade também deve assinar um termo de recusa e ir para o final da fila. Além disso, não é possível saber antecipadamente qual vacina será aplicada. "A Prefeitura deixou de informar antecipadamente a origem do imunizante a ser aplicado em cada grupo. Agora, as pessoas só tomam conhecimento de qual vacina receberão no momento da aplicação", informa em nota. Até o momento, 647 pessoas já se recusaram a tomar a vacina - 12 após a implantação do termo de recusa, na semana passada.

"Pessoas tentavam desmarcar o agendamento pelas redes sociais quando sabiam que era a vacina do laboratório A ou B. E ainda há aqueles que recusam no local da vacinação. Estes irão para o fim da fila", diz a secretária municipal de Saúde de São Caetano, Regina Maura Zetone.

Em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, a oficialização de um termo de recusa já teve repercussão nos postos. Segundo a prefeitura, "houve queda acentuada de pessoas exigindo a marca da vacina". Além disso, a prefeitura passou a não divulgar antecipadamente os nomes dos fabricantes das vacinas. "A pessoa só é informada sobre qual vacina está tomando no momento da imunização", diz o órgão.

Vacina para periferias e regiões vulneráveis

Em Criciúma (SC), ao menos 929 pessoas já recusaram a vacina disponível no momento da aplicação, segundo a prefeitura. A cidade também decidiu adotar um termo de responsabilidade e ciência e criou um decreto municipal para tornar oficial que quem quiser escolher vacina irá para o fim da fila.

Para a epidemiologista Carla Domingues, ex-coordenadora do Programa Nacional de Imunizações (PNI), a proposta dos termos de recusa é alternativa interessante para coibir a ação do "sommelier de vacina".

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"Existe uma ordem hierárquica, então se chegou sua vez e a pessoa não quer tomar a vacina, ela está abrindo mão do seu direito e passa a vez para outra pessoa que quer tomar. Cada município está fazendo sua regulamentação. É uma forma rápida de resolver", afirma.

Sobre a separação de marcas de vacinas de acordo com a faixa etária, ela afirma ser inviável em larga escala.

"Não temos vacina suficiente no país para criar um portfólio para cada grupo que chegar para vacinar. Isso não é factível operacionalmente. Fora as gestantes, que têm vacinas específicas, ou pensar na Janssen como alternativa para aplicar em professores para voltar às aulas mais rápido ou para a população em situação de rua, por exemplo, é complexo pensar nessa alternativa para os demais grupos", diz a epidemiologista.

Em Salvador (BA), algumas vacinas têm sido usadas em maior parte para públicos específicos, para facilitar a imunização. Segundo o secretário municipal da Saúde, Léo Prates, a vacina da Janssen, por ser de dose única, tem sido usada em população de situação de rua e moradores de ilhas da região, por serem áreas de mais difícil acesso aos profissionais de saúde.

Para o epidemiologista Paulo Lotufo, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), outra forma de inibir as preferências por vacinas seria destinar os imunizantes mais cobiçados às áreas periféricas das cidades, onde se concentram o maior número de casos e população mais vulnerável:

"É simples, deveria pegar tudo que é Pfizer e levar ao extremo leste e sul, Cidade Tiradentes, Guaianases (regiões da periferia de São Paulo). E deixar o restante com as vacinas recusadas. Quem se recusar a tomar a vacina disponível que vá para a repescagem, depois de toda a população maior de 18 anos estar vacinada", afirma.

O epidemiologista lamenta a ação "individualista" de quem escolhe vacina e critica ainda "quem pagou atestado" para ser vacinado antes, em menção às pessoas que entraram no grupo de comorbidades.

A secretaria de estado da Saúde de São Paulo afirma que "todas as vacinas contra a Covid-19 disponibilizadas na campanha de imunização são seguras, eficazes e aprovadas pela Anvisa", e que "todos os quantitativos de vacinas recebidos do Ministério da Saúde são distribuídos aos municípios". Segundo a pasta, as doses são enviadas para cada etapa da campanha e cabe às prefeituras "a organização, distribuição à rede de saúde e aplicação das doses na população seguindo os critérios do PEI (Plano Estadual de Imunização)".

Para a epidemiologista Carla Domingues, ações de escolha e recusa de vacinas só atrasam o combate ao novo coronavírus e a saída da pandemia:

"O sommelier de vacina não entende que a vacinação é uma ação coletiva. Precisamos acelerar a vacinação e ter todo mundo vacinado, independentemente da vacina. É um equívoco pensar que existe uma vacina melhor que outra. Apesar da eficácia diferente, elas têm o mesmo objetivo que é prevenção de gravidade e óbito, e para isso são muito similares."

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