Covid: casos no RJ por início dos sintomas aumenta pela 1ª vez desde fevereiro
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Covid: casos no RJ por início dos sintomas aumenta pela 1ª vez desde fevereiro

Pela primeira vez desde fevereiro, o número de casos confirmados de Covid-19 por data de início dos sintomas dá sinais de aumento no  Rio de Janeiro. De acordo com o painel da Secretaria estadual de Saúde (SES), a nova alta no índice aconteceu na semana epidemiológica 27, que foi de 4 a 10 de julho. Antes dessa, a mais recente escalada na série histórica foi registrada na semana epidemiológica 7, de 14 a 20 de fevereiro.

O indicador de notificações por data de início dos sintomas é diferente do índice de notificações por data de registro. Este é mais suscetível a imprecisões, devido à represagem dos dados. Em outras palavras, é possível, por exemplo, que casos ocorridos no mês passado, e em diferentes dias, só tenham sido oficialmente registrados na semana passada, todos num único dia. Isso acaba inflando o número de notificações diárias e apontando um aumento na quantidade de infecções que não é necessariamente real.

O índice de confirmações por data de início de sintomas visa justamente a amortecer o impacto desses atrasos, oferecendo uma visão mais precisa de quando o número verdadeiro de pessoas infectadas passou a aumentar. E esse indicador começa a demonstrar agora, com a demora natural nas atualizações dos dados, o que as projeções de especialistas já vinham apontando há algumas semanas: uma escalada na transmissão da Covid-19 no estado.

Segundo dados da SES, o número de casos por início dos sintomas aumentou 10% entre as semanas epidemiológicas 26 e 27. Foram 11.369 ocorrências na semana mais recente, contra 10.294 na outra. Na semana 28, o número oscilou para baixo, com 10.698 notificações.

Na semana seguinte, porém, o índice subiu novamente, com 12.230 ocorrências — um aumento de 14%. Desde então, o marcador continua no mesmo patamar, por volta dos 12 mil casos semanais. E os registros das semanas mais recentes devem ainda aumentar, pois o normal é que as confirmações ocorram com atraso.

Desde a semana passada, a Fiocruz alerta para uma reversão na tendência de queda do número de casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) no estado, uma perspectiva que se consolidava em virtude dos efeitos da vacinação especialmente. As análises do instituto se baseiam em estimativas que pretendem compensar o atraso nas notificações oficiais, que ainda não confirmavam, ao menos não de maneira sólida, as projeções dos especialistas.

Contudo, com o mais recente aumento de casos confirmados por data dos primeiros sintomas, os números da SES começam a indicar que a quantidade de novas infecções ocorridas diariamente no Rio de fato parou de cair. E a tendência dela agora, segundo a Fiocruz, é aumentar.

Diante desse quadro, só se pensa, claro, numa coisa: a variante Delta, que é mais transmissível. Devido à presença da nova cepa, o prefeito Eduardo Paes chegou a classificar o Rio de Janeiro como o “epicentro” da Covid-19 no Brasil. Mas, de acordo com a epidemiologista Gulnar Azevedo, professora do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), ainda não se pode atribuir o novo aumento à linhagem recém-chegada. Isso porque os dados disponibilizados pelas análises de sequenciamento genético no estado ainda são insuficientes.

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"Para assegurar que isso é efeito da variante Delta, precisaríamos estar fazendo mais exames de identificação da linhagem. A Vigilância Genômica deveria estar mais intensa. Mas é uma possibilidade. É um risco, por isso que precisamos chamar a atenção de todas as maneiras, acender todos os alertas. E, aí, vem aquela discussão: parte daquela população vacinada com as duas doses pode não estar tendo a cobertura necessária contra a Delta, como os mais idosos. A própria cidade do Rio está discutindo aplicar a terceira dose nesses grupos", afirma a especialista. "A Fiocruz já detectou um aumento nas internações entre idosos, e isso me preocupa muito".

Quarta onda?

Como o GLOBO mostrou, a Fiocruz estima que aconteça agora o primeiro aumento no número de hospitalizações por quadros graves de Covid-19 entre idosos em mais de cinco meses. A situação é particularmente grave no caso do grupo dos 80 anos ou mais, que apresentou, pela segunda análise semanal consecutiva, o crescimento mais acentuado no índice de internações. Segundo o instituto, a faixa etária tem hoje o maior número de hospitalizados desde o início da pandemia.

O dado foi calculado com o auxílio de um método estatístico chamado nowcasting, que considera o comportamento histórico dos números da Covid-19 para compensar o atraso nas notificações e estimar indicadores em tempo real. A atualização mais recente do estudo apontou ainda uma retomada na quantidade de óbitos por Covid-19 em pessoas de 60 anos ou mais no Rio de Janeiro. É o primeiro aumento no número de mortes nessa faixa etária desde fevereiro.

"É fundamental monitorar agora as cadeias de transmissão, para saber se isso é efeito da Delta. E também é fundamental promover, de fato, uma tentativa de controle do contágio, para bloquear a transmissão. O cuidado, por exemplo, para que as pessoas realmente fiquem isoladas caso tenham tido sintomas. Em caso de contato, o ideal é ficar em quarentena. Precisamos fazer isso até termos certeza de que não vai haver um surto maior, que a curva não vai subir por conta da Delta, que é o que está acontecendo em vários países, inclusive em Israel. O país, com 80% da população completamente vacinada, está vendo o número de casos aumentar por causa da variante", diz Azevedo.

O aumento no número de confirmações de casos ainda não se refletiu nos índices oficiais de internações e óbitos — embora, segundo a Fiocruz, isso já esteja acontecendo. A razão da estabilidade no número de mortes pode ser um padrão historicamente observado em Virologia: quanto mais transmissível um vírus é, menos letal tende a ser. Só que ainda não há evidências científicas de que a variante Delta siga esse padrão, afirma Gulnar Azevedo.

Segundo a especialista, a manutenção da queda nas confirmações de casos graves e óbitos pode se dever também ao tempo que as infecções levam para apresentar desfecho clínico. Ou seja, ambos os índices podem vir a aumentar nas próximas semanas, dando maior definição a uma possível quarta onda. A esperança, contudo, é que a tendência de redução se mantenha em virtude da vacinação.

"Israel não teve um aumento no número de internações e mortes tão expressivo quanto no número de casos. Mas, em comparação com eles, temos um quantitativo de população não vacinada muito grande. E o fato de a população maior de 60 anos, já vacinada, também apresentar um aumento nas internações, acende um segundo alerta. É possível, sim, que as pessoas vacinadas que tiveram infecção pela variante Delta tenham um prognóstico melhor, mas elas estão sendo internadas e demandando assistência. É uma questão de escala. Mesmo se não for mais letal, a Delta, sendo mais transmissível, causa maior pressão hospitalar. Cinco por cento de 100 casos é algo bem menor do que 5% de 1000", explica a especialista.

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