Protesto organizado pela ONG Rio de Paz na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro
Rreprodução/Facebook/ONG Rio de Paz
Protesto organizado pela ONG Rio de Paz na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro

O que são 600 mil mortes? Com os óbitos registrados hoje, o Brasil supera essa triste marca, deixando um rastro de 16 meses de uma crise sanitária, econômica e política sem precedentes. Para as famílias, restou a saudade que preencheria oito vezes as arquibancadas do Maracanã. De acordo com informações do consórcio de imprensa, o Brasil bateu 600.077 óbitos na tarde de hoje .

Desde março de 2020, o brasileiro convive com uma confusa política de restrições sanitárias país afora. Sem uma coordenação nacional de combate à covid-19, e vivendo sob uma frequente mudança de comando, mandos e desmandos no Ministério da Saúde, o cidadão passou a conviver com cenas de horror, como a abertura das covas nos cemitérios de São Paulo, e a falta de oxigênio em Manaus.

Mas com quase 71% da população vacinada com a primeira dose da vacina, será que estamos mais próximos do fim da pandemia?

"O que a gente pode falar é que o fim nunca chegará", diz o médico infectologista Julio Croda, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz e Professor Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. "Mas estamos melhores do que no passado, principalmente devido ao desenvolvimento das vacinas e da aplicação em quase toda a população", pondera.

"Com esse avanço, é possível vislumbrar um cenário melhor, com menos hospitalizações e óbitos. Entretanto, o vírus continuará circulando em todo o mundo. Pode ser que surjam novas variantes, pode ser que exista a necessidade de doses de reforço para toda a população. Só o futuro vai dizer. Mas temos ferramentas para lidar com isso de uma forma melhor do que tínhamos no passado", estima.

O infectologista do Hospital Emílio Ribas Francisco Ivanildo de Oliveira Júnior faz avaliação semelhante. "Certamente estamos mais perto do fim da pandemia do que estávamos no início desse ano ou há seis meses, antes da vacinação. Agora exatamente quanto tempo a gente vai demorar para considerar a pandemia resolvida, e o que é que vai ser o normal daí em diante, isso não dá para responder. O que dá para imaginar é que o novo normal, ou a situação que vai ser definitiva, ou mesmo o fim da pandemia, não vai ser exatamente igual o que a gente vivia antes", diz.

Nos últimos meses, vivemos sob a expectativa de uma piora nos índices com a chegada da variante Delta. Desde o início de setembro, as amostras de São Paulo e do Rio de Janeiro já apontavam a cepa como predominante em quase todos os casos analisados. O impacto que era esperado - ainda bem - não aconteceu. 

"No Rio de Janeiro, houve um aumento de hospitalizações em enfermarias e em UTIs, e um leve aumento no número de óbitos, mas isso já diminuiu. O impacto que era esperado, baseado na nossa cobertura vacinal - bastante similar a de alguns locais que viveram uma tragédia por conta da delta, como a Flórida, nos Estados Unidos -, não ocorreu no Brasil", afirma Croda.

"Mas também não ocorreu em toda América Latina, mesmo com níveis de cobertura vacinal menores de que alguns estados americanos e países da Ásia, que sofreram muito com a variante", completa. Ele afirma que o grande número de pacientes infectados com a variante gama meses antes da chegada da delta ao país pode ser uma das respostas.

Lembrar que a vacina é um pacto coletivo também é essencial para cogitar um mundo sem pandemia, reforça o Dr. Francisco. Em uma realidade onde muitos países não conseguem imunizar sua população, como é o caso do continente africano, ainda é impensável acreditar na erradicação da infecção.

"É importante que todo mundo tenha consciência que não adianta eu, meu núcleo familiar, minha cidade ou meu país estarmos protegidos, se existem lugares onde a cobertura vacinal é baixíssima. A própria OMS tem chamado muita atenção em relação a isso, e tinha uma meta de vacinação global de 10% até setembro, no mínimo. E a gente sabe que tá longe disso".

Em maio deste ano, a organização estabeleceu uma escala de metas para a vacinação em todo mundo - 10% até setembro, 40% até dezembro e 70% até metade de 2022. Com o fim do prazo, pelo menos 50 países não atingiram o índice. Enquanto na Europa, a média de imunização já passa de 50%, em países da África, o índice é irrisório, menor que 1%.

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"Essa situação de falta de vacinação predispõe a uma transmissão sem controle, aumenta a chance de novos surtos, epidemias, e é justamente essa condição que facilita o aparecimento de variantes", explica o médico.  "Precisamos estar preparados para isso, e de eventualmente algumas terem resistência maior às vacinas ou aos anticorpos produzidos por infecção anterior."

O Dr. Francisco acredita que a covid-19 tem potencial de provocar uma mudança comportamental na população, e perpetuar alguns dos novos costumes.

"Dá para imaginar que o 'novo normal', ou a situação que vai ser definitiva não vai ser exatamente igual ao que a gente vivia antes da pandemia. Posso estar enganado, mas acredito que algumas questões vieram para ficar, algumas preocupações passaremos a ter, como por exemplo não ir trabalhar com sintomas respiratórios, não mandar filhos para escolas nessas condições. Isso vai nos acompanhar, vai ser uma coisa mais normal e corriqueira. As pessoas utilizando máscaras na rua, em ambientes fechados como no transporte público, ao longo do tempo, deve prevalecer".

Já dá para relaxar?

A retomada das atividades dá, a quem está em isolamento desde 2020, a sensação de que, aos poucos, a vida está voltando ao normal. Mas será que, mesmo vacinado, já é hora de relaxar? Os especialistas entram em consenso de que ainda não dá para baixar a guarda.

"Obviamente dá para diminuir as restrições na medida em que a vacinação vai avançando, mas não dá para achar que a situação está resolvida", alerta o Dr. Francisco.

"Precisamos comunicar isso com clareza para a população, e sem ser desestimulante, sem trazer frustração para as pessoas. Elas precisam ter um alento de que a coisa vai melhorar, mas sabendo que isso não acontece da noite para o dia. É um processo lento e sujeito a idas e vindas", lembra ele, reforçando que durante esses 16 meses, o país já passou por reaberturas e novos fechamentos.

"A comunicação tem que ser feita com cuidado. Como no exemplo das máscaras. Dissemos que reduz o risco de transmissão, e as pessoas entenderam que de máscara, dá para ir para todo lugar. Dissemos que a vacina reduz o risco de transmissão, e muitas pessoas, principalmente uma parte da população de idosos, tomou uma dose e partiu para o abraço, achou que o problema estava resolvido. A gente viu, logo depois um aumento de casos, porque as pessoas modificaram seu comportamento, passaram a ter uma conduta muito menos cuidadosa e criteriosa em relação aos contatos".

Diante disso o Dr. Julio Croda faz o alerta. "A mensagem é clara: as medidas preventivas devem ser adotadas até que a gente consiga chegar em um nível muito baixo de hospitalizações e óbitos, e quando a grande maioria da população acima de 18 anos estiver vacinada com as duas doses. Todo cuidado é pouco. Acredito que isso aconteça até o fim do ano, se não surgirem novas variantes, e aí teremos a oportunidade de flexibilizar mais medidas".

Não são só números: Quem são as vítimas da covid-19

Segundo dados da Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Estado de São Paulo (ARPEN), os mortos pelo coronavírus no Brasil, são:

  • 56% homens;
  • 43,8% mulheres.

  • 50,5% brancos;
  • 27,9% pardos;
  • 6% pretos;
  • 0,8% amarelos;
  • 0,18% indígenas. 

  • 67% maior de 60 anos

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