Alcoolismo: novos estudos mostram como controlar o vício
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Alcoolismo: novos estudos mostram como controlar o vício

A medicina está sempre em busca de novas abordagens para tratar o alcoolismo, uma doença que mata cerca de 3 milhões de pessoas ao ano, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Mas as tentativas de extinguir a dependência muitas vezes esbarram nas limitações dos tratamentos e na tendência a recaídas dos pacientes. As esperanças no horizonte são duas velhas conhecidas dos pesquisadores: a cetamina e a psilocibina.

O poderoso anestésico e a substância alucinógena presente nos cogumelos mágicos foram investigados em estudos recentes com foco na fonte da dependência dentro do cérebro. Hoje, o alcoolismo costuma ser tratado com uma combinação de psicoterapia, uso de medicamentos e grupos de apoio. Entretanto, recaídas são comuns em pessoas que lutam contra o abuso de substâncias químicas. 

A cetamina é um anestésico que começou a ter seu potencial terapêutico avaliado com sucesso para o tratamento de depressão resistente. Um estudo publicado em janeiro na revista American Journal of Psychiatry indica que ela também pode ajudar no tratamento do transtorno do uso de álcool. Três infusões semanais de baixa dose da substância, aliadas a terapia de prevenção de recaídas baseada em mindfulness, ajudaram adultos dependentes a manterem sua abstinência por mais tempo.  

Os participantes que receberam o tratamento permaneceram completamente sóbrios por 162 dos 180 dias em que foram acompanhados. A taxa de 87% de abstinência foi “significativamente maior do que qualquer um dos outros grupos”, disseram os pesquisadores. Ao fim do estudo, aqueles que foram tratados com a substância tinham 2,5 vezes mais chances de permanecer completamente abstinentes do que os participantes do grupo placebo. 

Os estudos precisam avançar para comparar se a cetamina combinada à psicoterapia é mais eficaz que os tratamentos atuais, mas os pesquisadores acreditam que os resultados preliminares são promissores. Acredita-se que a combinação funcione porque a substância alivia temporariamente os sintomas depressivos durante o período de alto risco para recaída, nas semanas após a desintoxicação. Além disso, o anestésico ajuda a alterar o padrão de pensamento e a bloquear gatilhos para a reincidência, o que torna os pacientes mais abertos à terapia.  

Cogumelos mágicos 

Já a psilocibina, que causa o efeito alucinógeno dos cogumelos mágicos, mostrou-se capaz de reduzir as recaídas. A substância psicodélica é capaz de restaurar os circuitos moleculares cerebrais responsáveis pelo controle do comportamento, da atenção e das emoções, além do desejo por álcool.  

O estudo foi feito em ratos, mas os pesquisadores acreditam que seja uma abordagem com bom potencial para futuros tratamentos contra o alcoolismo em humanos. A psilocibina, assim como outros psicodélicos, mostram um campo terapêutico promissor para diversas doenças mentais. Visando expandir seu uso e torná-la mais segura, empresas já estão trabalhando no desenvolvimento de versões sintéticas da substância. 

Para pessoas diagnosticadas com transtorno do uso de álcool, a melhor estratégia para reduzi-lo vai depender do grau do distúrbio. Casos leves podem ser resolvidos por conta própria e, após um tempo, a pessoa pode até ser capaz de beber de forma controlada e ocasionalmente. Já para os quadros moderados e graves, é preciso ajuda médica, além de cortar completamente o consumo.  

Atualmente, o tratamento padrão-ouro do alcoolismo é uma combinação de psicoterapia, em especial a cognitivo comportamental, associada ao manejo de contingência, com medicação. Esse tipo de terapia busca identificar os gatilhos associados ao uso do álcool e adotar estratégias de mudanças de rotina que evitem o acesso à bebida ou para serem utilizadas quando o desejo for acionado. 

Já o “manejo de contingência” envolve o ganho de recompensas ao atingir metas estabelecidas, como ficar uma semana sem beber, com o objetivo de reforçar o comportamento positivo. 

Em relação à medicação, são utilizados dois tipos de remédio. Um age diminuindo o apelo da bebida no cérebro, ou seja, o álcool não se torna tão prazeroso quando consumido. Outro, mais drástico, faz a pessoa passar mal quando bebe. Frequentar grupos de apoio, como os Alcoólatras Anônimos (AA) também é altamente recomendado por especialistas.  

"Esse seria o tratamento ideal e mais completo possível", afirma o psiquiatra André Malbergier, coordenador do Programa Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da USP (IPq). 

Para pessoas sem vício estabelecido, algumas mudanças de hábito para reduzir o consumo já ajudam.  

O controle voluntário serve, inclusive, para reduzir os riscos adicionais surgidos durante a pandemia de Covid-19. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro do Fígado (Ibrafig) revelou que 17,2% das pessoas que consomem bebida alcoólica intensificaram a prática nesses dois últimos anos. A média ficou em três doses por ocasião, o que equivale a 450 ml de vinho ou três latas de cerveja. 

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As principais diretrizes de saúde definem o consumo moderado de álcool como duas doses ao dia para homens e uma dose para mulheres. Cada dose corresponde a uma lata de 350 ml de cerveja, uma taça de 150 ml de vinho ou 45 ml de destilado, como vodca ou gim.  

A OMS tem parâmetros ainda mais rígidos. A organização recomenda abster-se de beber pelo menos dois dias por semana. Evidências recentes indicam que não há limite seguro para a ingestão de bebidas alcoólicas. Até mesmo aquela famosa taça de vinho, benéfica para o coração, vem acompanhada de malefícios, como o aumento no risco de câncer.  

Agora que a vida começa a voltar ao normal pós-isolamento, muitas pessoas parecem querer diminuir a quantidade de álcool. Mas qual seria a melhor estratégia para isso? Segundo especialistas, tudo vai depender do seu padrão de consumo. 

A maioria das pessoas consegue parar ou reduzir o consumo de álcool por conta própria. Porém, aqueles que bebem com mais frequência ou intensidade podem ter mais dificuldade, já que esse pode ser um indício de abuso. Ao primeiro sinal de exagero, é preciso identificar que existe um problema. 

"Qualquer estratégia só será efetiva se as pessoas perceberem que estão bebendo muito e aceitarem estabelecer mudanças", diz o psiquiatra Malbergier. 

Sinais de alerta 

Alguns sinais que indicam que o consumo está excessivo: a opinião de familiares; quando há associação do álcool a outras formas de prazer, aumento gradativo da quantidade, alteração do tipo de bebida consumida para aquelas com maior teor alcoólico e presença de sintomas de abstinência, como dificuldade para dormir, irritação, dificuldade de concentração, tremor e ansiedade. Os três últimos também são fortes indicadores de que pode haver um transtorno.  

"A pessoa que não é dependente tem a escolha de chegar em casa e decidir se vai beber água, suco, refrigerante ou cerveja. As pessoas que começam a ter problema com bebida perdem a plena capacidade de escolha", diz o psiquiatra. 

Para começar a se tratar, a pessoa cujo consumo de álcool está associado a eventos sociais deve diminuir o acesso a essas situações. Por exemplo, recusar o happy hour após o expediente. 

Malbergier também recomenda reduzir a velocidade de consumo da bebida para uma dose por hora. É claro que ninguém precisa, nem vai, cronometrar no relógio. 

"Uma alternativa é se espelhar naquele amigo que bebe pouco e devagar, e acompanhá-lo. Também ajuda pedir uma garrafa ou copo de água junto com a bebida alcoólica. Isso impede que a substância atinja altos níveis no sangue", orienta. 

Pessoas que exageram na bebida tendem a beber antes de comer. Inverter a ordem dos fatores é outro aliado da mudança de hábitos, porque o alimento inibe a absorção do álcool. Outra boa opção, para quem gosta de drinques, são os coquetéis não alcoólicos.  

"As pessoas que bebem muito estão em busca da embriaguez. Elas não valorizam mais a bebida, o ritual ou o gosto. Todas essas estratégias buscam justamente evitar que a pessoa entre nesse estado", explica. 

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