O fim da Segunda Guerra Mundial teve fim a 80 anos, mas alguns impactos do conflito ainda permanecem não apenas nos livros de história, mas em ações do cotidiano, estudos e na mente de milhões de pessoas.
Para entender melhor os impactos e a permanência de uma “herança” da Segunda Guerra nos dias de hoje, em especial na saúde, o Portal iG entrevistou a psicoterapeuta e psicóloga formada pela Unesp (SP), Renata Roma .
Para a especialista, o conhecimento atual sobre traumas é muito mais amplo.
“Na época da guerra, a compreensão que se tinha era que transtornos como o de estresse pós-traumático estava ligado quase exclusivamente a soldados no campo de batalha. Hoje sabemos que ele pode ocorrer em diversas situações, como violência física, abuso sexual, acidentes ou até mesmo com uma perda traumática, incluindo a de um animal de estimação – um luto que ainda é pouco reconhecido socialmente” , explica.
Esses entendimentos e o desenvolvimento de terapias disponíveis atualmente trouxeram uma perspectiva diferente em relação ao estresse pós-traumático.
“Se antes, se via como uma falha do indivíduo ou até mesmo como uma falha de caráter, hoje sabemos que é uma resposta natural do corpo quando uma experiência traumática não consegue ser processada”, reforça.
Renata também explica que algumas pesquisas mostram que as marcas psicológicas da guerra podem ultrapassar a experiência direta e chegar até descendentes.
“Estudos apontam que filhos e netos de sobreviventes de situações como o holocausto, por exemplo, tem uma vunerabilidade maior e isso acontece porque através de narrativas, silêncios e até mecanismos biológicos isso é trasmitido de uma geração para outra”.
A especialista também ressalta que outros estudos também indicam que parentes de pessoas que estiveram presentes na Segunda Guerra tem uma prevalência maior de medos específicos, ansiedades e uma forma de perceber o mundo de forma hipervigilante . Ou seja, alguns aspectos relacionados à guerra ainda podem ser observados em gerações atuais.
O que mudou em relação aos cuidados?
Renata explica que a terapia de exposição, usada atualmente no tratamento da ansiedade e do TOC, tem inspiração em práticas aplicadas a veteranos durante a guerra.
Outro exemplo é o EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares), criado para lidar com memórias traumáticas, hoje aplicado também em vítimas de violência sexual e pessoas lutadas.
Ela destaca que a Segunda Guerra mudou a forma como a sociedade vê a saúde mental. Esse novo olhar levou à criação de políticas públicas, programas específicos e terapias específicas voltadas para traumas, como o próprio EMDR.
Quando perguntadas se existem paralelos entre o sofrimento psíquico da época da guerra e o de populações atuais expostas a conflitos e crises humanitárias, a especialista afirma que os sintomas permanecem semelhantes : pesadelos, hipervigilância, lembranças intrusivas e dificuldade de confiar.
Segundo ela, essas experiências traumáticas abalam o senso de segurança e continuidade da vida, e as terapias modernas ajudam a ressignificar essas memórias, permitindo reintegração social.
A guerra também provocou doenças físicas
Além dos traumas psicológicos desenvolvidos dentro e fora dos campos de batalha, o caos da guerra também foi um ambiente de proliferação para outras doenças.
Em entrevista cedida ao Portal iG, o médico especialista em Clínica Médica (clínico geral), Luís Felipe Garcia Paschoali explica sobre as condições da época e como a medicina evoluiu utilizando técnicas desenvolvidas ainda durante o cenário de guerra.
Ele conta que durante o período, doenças que dependiam de aglomeração para se disseminar tiveram grande intensidade nesse período, e ele cita: “Tuberculose, pneumonia, gripe e doenças gastrointestinais. Além disso, tifo e enfermidades transmitidas por piolhos e pulgas também foram muito comuns”.
Com soldados vivendo em trincheiras, enfrentando frio, fome e higiene precária, as condições sanitárias eram mínimas, abrindo espaço para grandes surtos .
E mesmo após oito décadas, algumas dessas doenças ainda persistem . “Tuberculose, tifo e cólera tiveram grande disseminação durante e após a guerra. Além disso, soldados que estiveram em regiões africanas foram infectados por doenças transmitidas por insetos, como malária, dengue e febre do Nilo Ocidental”.
Avanços na medicina
Entretanto, a guerra também trouxe alguns avanços significativos . O surgimento da penicilina foi um grande aliado no combate às infecções bacterianas.
“Antes da penicilina não havia medicamentos eficazes contra bactérias. Ferimentos em combate, quando infectados, podiam evoluir para infecção generalizada e levar à morte. A penicilina mudou esse cenário, tornando doenças antes intratáveis em tratáveis. Ela salvou incontáveis vidas, tanto no front quanto fora dele, permitindo tratar pneumonias, sífilis e sepse” , ressalta Paschoali.
O clínico geral, também afirma que a necessidade de proteger soldados contra doenças contagiosas como tétano e poliomielite também impulsionou avanços logísticos, como a produção em larga escala de vacinas.
Com isso, práticas como higienização das mãos, antissepsia em procedimentos e descarte correto de resíduos ganharam destaque. Esses cuidados foram a base para os protocolos que seguimos atualmente nos hospitais.
O especialista ainda destaca que um dos maiores aprendizados do conflito foi a importância da prevenção.
“A guerra mostrou que é mais barato prevenir do que tratar. Isso impulsionou campanhas de vacinação em massa no pós-guerra, o que levou, por exemplo, à erradicação da varíola. Além disso, pouco depois, foi criada a Organização Mundial da Saúde ( OMS ), essencial para formular políticas públicas globais”.
Tecnologias da guerra que ainda salvam vidas
Algumas inovações desenvolvidas nesse período permanecem indispensáveis.
“A penicilina continua sendo usada, principalmente contra sífilis. As transfusões de sangue também evoluíram muito na época e salvaram milhares de vidas. Além disso, foi nesse contexto que surgiram as bases para a organização dos serviços de urgência e emergência que conhecemos hoje” , conclui Paschoali.