A decisão do governo dos Estados Unidos de retirar seis imunizantes do calendário infantil oficial provocou reação imediata de especialistas em saúde e reacendeu um debate internacional sobre os limites entre escolhas políticas e a proteção coletiva. O anúncio ocorreu em um contexto de aumento de doenças respiratórias no país, o que ampliou a apreensão da comunidade médica.
Com a mudança, a recomendação universal foi substituída por um modelo de “decisão clínica compartilhada”, no qual a aplicação das vacinas passa a ser definida entre médicos e responsáveis pelas crianças.
Embora os imunizantes continuem disponíveis, eles deixam de contar com o endosso formal do calendário nacional, o que, segundo infectologistas, pode afetar diretamente a adesão da população.
Para Guenael Freire, infectologista do Laboratório São Marcos, da Dasa, o impacto mais preocupante está no ambiente de desinformação.
“Quando o Estado deixa de emitir uma mensagem clara, abre espaço para dúvidas e receios. Isso pode levar à redução da cobertura vacinal e criar condições para o retorno de enfermidades que estavam sob controle” , avaliou ao Portal iG .
Ele alerta que doenças potencialmente erradicáveis nas próximas décadas podem voltar a representar ameaça a crianças, idosos e pessoas com comorbidades.
Efeitos que surgem com o tempo
Outro ponto destacado pelos especialistas é que as consequências não tendem a ser imediatas. O infectologista Alberto Chebabo, dos laboratórios Bronstein e Sérgio Franco, explica que a perda de confiança nas vacinas costuma produzir efeitos silenciosos.
“Meses ou anos depois, o sistema de saúde passa a registrar casos graves de meningite, bronquiolite ou gastroenterite em crianças. A lógica da saúde pública vai além da decisão individual, pois busca proteger também quem não tem condições de escolher” , afirma.
Chebabo ressalta ainda que, apesar da mudança adotada pelo governo norte-americano, a Academia Americana de Pediatria manteve a recomendação para essas vacinas, reforçando o consenso científico sobre sua importância
Desigualdade no acesso à proteção
A infectologista Rosana Richtmann, consultora em vacinas na Dasa, chama atenção para o risco de aprofundamento das desigualdades em saúde. Segundo ela, famílias com maior acesso a informação e acompanhamento médico tendem a manter a imunização em dia, enquanto grupos mais vulneráveis perdem uma orientação pública fundamental.
“À primeira vista, parece apenas uma alteração administrativa, mas o efeito real é desigual e atinge mais duramente quem já enfrenta barreiras de acesso” , pontua.
Imunizantes envolvidos na mudança
As seis vacinas retiradas do calendário oficial estão associadas à prevenção de doenças com potencial grave:
Influenza : reduz complicações como pneumonia e hospitalizações, além de diminuir a circulação do vírus na comunidade, especialmente entre crianças pequenas.
Hepatites A e B : a primeira evita surtos ligados a água e alimentos contaminados; a segunda previne infecções crônicas que podem evoluir para cirrose e câncer hepático.
Meningocócica : protege contra meningite bacteriana, doença de progressão rápida, com risco de morte ou sequelas neurológicas permanentes.
Rotavírus : previne gastroenterites graves e desidratação, ainda responsáveis por internações infantis em regiões com baixa cobertura vacinal.
Vírus Sincicial Respiratório (VSR): principal causador de bronquiolite em bebês e uma das maiores causas de internação no primeiro ano de vida.
Ao final, Guenael Freire reforça que o sucesso das vacinas muitas vezes torna invisível o perigo das doenças que elas previnem.
“Esses vírus e bactérias continuam circulando. A imunização não protege apenas indivíduos, mas sustenta todo o sistema de saúde. Sem ela, os riscos voltam a crescer” , conclui.