
Uma pesquisa divulgada em maio de 2026 na revista científica Cancers demonstrou que associar a ultrassonografia à mamografia melhora expressivamente a identificação do câncer de mama em pacientes com elevada densidade mamária. O levantamento, que acompanhou 63.870 voluntárias em 16 unidades de saúde na Alemanha, apontou 10,7 diagnósticos a cada mil mulheres que realizaram ambas as modalidades de exame, frente a 7,2 por mil entre as que fizeram unicamente a mamografia.
O que são mamas densas?
Mamas densas representam apenas uma variação anatômica normal, e não uma doença ou anomalia. As mamas são compostas por três tipos principais de tecidos:
Tecido glandular
: responsável pela produção de leite durante a lactação.
Tecido fibroso
: oferece sustentação e forma à mama.
Tecido adiposo (gordura)
: preenche o restante da estrutura mamária.
Ter "mamas densas" significa que existe uma proporção maior de tecido fibroglandular (glandular e fibroso) em comparação ao tecido adiposo, ou seja, a mama possui mais estrutura e menos gordura. Na mamografia, o tecido fibroglandular aparece em tom claro (branco), enquanto a gordura aparece em tom escuro (cinza).
Para a médica radiologista Lorena Amaral, do Laboratório Exame, empresa do grupo Dasa no Distrito Federal, a complicação deriva da própria visualização do exame: "O tecido mamário denso e muitos tumores aparecem em tons claros na mamografia
. É como procurar algo branco em um fundo também branco. Isso pode dificultar a identificação de lesões, mesmo quando o exame é realizado corretamente. Por isso, uma mamografia sem alterações suspeitas não descarta completamente a presença de câncer, especialmente em mulheres com mamas densas", afirma.
O papel da mamografia e a indicação de exames complementares
Apesar da necessidade de exames complementares em mamas densas, a mamografia continua sendo o único exame de rastreamento populacional comprovadamente capaz de reduzir a mortalidade por câncer de mama, pois detecta microcalcificações que outros exames não conseguem identificar. No entanto, para mulheres com mamas densas, a mamografia funciona como um primeiro filtro. Como tanto o tecido fibroglandular quanto eventuais lesões surgem em tons claros no exame, diferenciar visualmente torna-se mais complexo, sendo necessário associar exames como a ultrassonografia para identificar possíveis alterações ocultas.
Nesse contexto, a indicação de exames adicionais é individualizada e não significa suspeita de câncer
. Além do ultrassom, a tomossíntese pode substituir a mamografia no rastreio quando disponível, e a ressonância magnética pode integrar a investigação em casos de risco elevado. A escolha depende da idade, do histórico familiar e da densidade mamária, lembrando que no estudo alemão a adição do ultrassom elevou a taxa de biópsias de 1,5% para 3,2%
. A compreensão clara do laudo traz tranquilidade, pois os exames complementares são solicitados para garantir a precisão do rastreamento, e não por haver uma anormalidade prévia.
De acordo com a médica Fernanda Philadelpho, coordenadora do Núcleo de Mama do Alta Diagnósticos e da CDPI (RJ), a indicação dos exames deve ser personalizada conforme as particularidades de cada mulher: “A mamografia continua sendo o único exame de rastreamento populacional comprovadamente capaz de reduzir a mortalidade por câncer de mama, pois detecta microcalcificações que outros exames não veem. A diferença é que, para pacientes com mamas densas, ela atua como um primeiro filtro e precisa ser associada a exames complementares, como a ultrassonografia mamária, que ajuda a diferenciar a anatomia glandular de uma lesão oculta. Vale destacar que a tomossíntese também pode ser usada no rastreio no lugar da mamografia, quando disponível. Em casos específicos, recursos como a ressonância magnética também podem integrar a investigação individualizada”, destaca.
Fatores de prevenção e estilo de vida
Além do rastreamento e do acompanhamento médico regular, existem hábitos e fatores do dia a dia que ajudam a reduzir o risco geral de desenvolvimento do câncer de mama
:
Manter o peso corporal saudável, praticar atividade física regularmente, seguir uma alimentação balanceada e nutritiva, evitar o tabagismo, limitar o consumo de álcool e gerenciar adequadamente o estresse.
Diretrizes do SUS e acompanhamento regular
No Brasil, o cuidado com a saúde das mamas envolve diretrizes atualizadas do SUS e a conscientização reforçada pelo Outubro Rosa. Desde setembro de 2025, mulheres de 40 a 49 anos têm acesso à mamografia no SUS mediante decisão compartilhada com o profissional de saúde, e a faixa prioritária para o rastreamento bienal abrange de 50 a 74 anos. Mais do que realizar os exames na frequência recomendada, a prevenção passa por integrar hábitos saudáveis, conhecer os próprios fatores de risco, compreender as informações presentes no laudo e manter o acompanhamento médico sempre em dia.