Hidroxicloroquina, medicamento defendido por Bolsonaro
Fotoarena / Agência O Globo
Hidroxicloroquina, medicamento defendido por Bolsonaro

BRASÍLIA - Anunciada nesta quarta-feira como titular da Secretaria Extraordinária de Enfrentamento à Covid-19 do Ministério da Saúde, a infectologista Luana Araújo já se manifestou contrária ao uso de cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina para a doença, inclusive em pacientes com sintomas leves. Ela afirmou que se trata de "neocurandeirismo" e destacou o "Brasil na vanguarda da estupidez mundial" ao comentar uma postagem de apoio ao uso da hidroxicloroquina no Twitter.

Os remédios, sem eficácia comprovada para a Covid-19, são defendidos pelo presidente Jair Bolsonaro e por integrantes do governo como parte do chamado "tratamento precoce" e constam, inclusive, de orientação da pasta para o atendimento aos doentes, baixada pelo ex-ministro Eduardo Pazuello no ano passado.

A postagem que originou comentários de Araújo é uma nota da Associação Médica Brasileira, de julho do ano passado, defendendo a autonomia do médico em prescrever a hidroxicloroquina. Em meio a mensagens de internautas parabenizando e criticando a entidade, a médica escreveu: "Neocurandeirismo. Iluminismo às avessas. Brasil na vanguarda da estupidez mundial", escreveu a médica.

O perfil no Twitter, com a foto da médica e seus dados de identificação, não é "verificação", uma espécie de sinal de autenticidade geralmente usado por figuras públicas, mas pessoas próximas a Araújo confirmaram que a conta é dela. Ela é infectologista e mestre em saúde pública pela Universidade de Johns Hopkins, nos Estados Unidos. Apesar de apresentada em evento do Ministério da Saúde, a nomeação oficial da médica ainda não foi publicada.

Na sequência de comentários no Twitter, ao responder a um perfil que hoje aparece como suspenso na rede social, Araújo destacou, usando a sigla HCQ para hidroxicloroquina: "Feliz por você, mas não há qualquer evidência a favor (e muita contrária) à eficiência da HCQ. Seus pacientes devem ter se recuperado em função da competência de suporte de vocês, aliada à história da doença. Nada de pseudoterapia".

Logo depois, ela responde a esse mesmo perfil que a aplicação da droga não mostrou eficácia em nenhuma fase da doença: "Nem na fase inicial. Artigo da semana passada mostrou isso claramente." E posta um artigo científico que demonstra a falta de efeitos da droga.

A outro comentário, ela escreveu: "Moço, não confunda Medicina e Política. É isso que lhe faz não ter elementos para raciocinar plenamente sobre o assunto. Não existem 'estudos em ambos os sentidos', se soubesse ler um artigo científico, não diria isso. Ditadura é impedir que você raciocine por si. Não caia nessa".

Ela ressalta que os chamados estudos com efeitos positivos são frágeis do ponto de vista metodológico: Não têm nenhuma força de evidência, são fracos, cheios de vieses. Se quiserem usar a HCQ por fé é uma coisa, mas atribuir qualquer ciência a isso é uma afronta a quem trabalha direito".

Araújo também usou as redes sociais para falar de outro medicamento defendido por Bolsonaro: a ivermectina. Ao postar um estudo randomizado, publicado em revista científica prestigiada, sobre a utilização da droga em pacientes com pacientes com sintomas leves, comentou: "Não só não houve benefício, como os 7,5% dos pacientes (comparados com 2,5% no grupo placebo) abandonaram o estudo por efeitos adversos da medicação. E temos visto isto na prática: são casos de pancreatite, hepatite, alergia medicamentosa..."

"As pessoas não sabem se acreditam no político ou no cientista"

Em entrevistas a veículos de imprensa, Araújo também já afirmou sua contraposição ao uso dos remédios e sempre defendeu práticas baseadas em evidências científicas. Ao jornal O Estado de Minas, em janeiro, ela afirmou que pensa como "todas as sociedades internacionais de infectologia": "Não existe evidência de eficácia no uso de qualquer medicação no tratamento precoce de COVID-19. O que funciona na COVID-19 é um diagnóstico e uma monitorização precoce. Infelizmente, não temos tratamento”.

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Araújo também já falou sobre a mistura prejudicial de política e ciência nos debates sobre Covid-19. "As pessoas não sabem em quem acreditar: no político ou no cientista. No meio disso tudo, vira um salve-se quem puder. E as pessoas acabam acreditando naquilo que preenche suas expectativas. A partir do momento em que você diz: existem uma droga, duas, três, cinco para dar suporte, a pessoa pensa que não precisa mais lavar a mão, não precisa mais usar máscara porque é chato, não precisa mais fazer distanciamento. Porque ela confia nessa terapêutica, mas essa terapêutica não existe".

Em um artigo sobre isolamento social nos tempos de Covid-19, Araújo afirma que o método mais ampliado (isolamento horizontal) traz controle efetivo da doença, mas pondera que cada país tem condições específicas para suportá-lo. "O Brasil e outros países de baixo e médio desenvolvimento socioeconômico, dada a proporção de informalidade das suas economias, tendem a sofrer muito mais as repercussões deletérias do isolamento. Um remédio amargo, difícil de engolir, com efeitos colaterais potencialmente gravíssimos".

A médica, então, aponta alternativas, como isolamento vertical, em que populações vulneráveis são isoladas, regionalizar as medidas, estabelecer períodos diferenciados das restrições. Mas não fecha a questão, ressaltando que é preciso "coragem" para tomar decisões inéditas:

"Na prática, essas soluções alternativas recaem sobre outras variáveis ainda mais complicadas: poder e vontade política, apoio popular, resultados econômicos precoces, resposta pandêmica adequada, dados científicos atualizados, liderança e coragem, muita coragem para implementar uma intervenção inédita".

Médica promete trabalho pautado em evidências científicas

O nome de Araújo foi anunciado nesta terça-feira pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga. Ela vai assumir uma nova secretaria, criada por ele, para centralizar as ações de enfrentamento à Covid-19. Ao ser apresentada em evento do ministério, ela prometeu trabalho duro pautado em evidências científicas.

Ela é formada e fez residência na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foi a primeira brasileira a ganhar uma bolsa específica para a pós-graduação na prestigiada Universidade Johns Hopkins, segundo a própria médica destacou. Ela concluiu o curso de mestrado em saúde pública no ano passado.

Apontada por colegas da área como "competente" e "tecnicamente muito boa", além de "anti-cloroquiner", Araújo tem consultorias ao Banco Mundial registrado em seu currículo em rede social profissional. Também consta assessorias prestadas a secretarias de Saúde e que a médica já deu palestras.

Médicos que conhecem a profissional comentam, em caráter reservado, que não sabem como ela se sairá no governo atual. Um deles classifica a chegada dela como "uma grande evolução" comparado ao que "temos lá". "Anti-cloroquiner e estava trabalhando no Banco Mundial para expandir a vacina para COVID para países com menos acesso", completou.

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