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Luiz Henrique Mandetta criticou o fato de o programa não prever a rescisão dos médicos cubanos e não dar prioridade às áreas mais necessitadas do País

Rafael Carvalho/Governo de Transição
"Como você faz um convênio com o país [Cuba] em que não se prevê nem o distrato?", questionou Mandetta

O ministro da Saúde do próximo governo, Luiz Henrique Mandetta, disse ontem (28) que o Programa Mais Médicos será completamente revisto na próxima gestão. Ele garantiu que vai aguardar o processo de reposição das vagas iniciado pelo atual governo após a saída de 8,5 mil médicos cubanos, mas criticou o programa pelo que chamou de "improvisações" adotadas desde a sua criação.

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"Vamos aguardar o que esse governo vai concluir [de reposição das vagas], porque a gente já fez reuniões. O entendimento deles começa de um jeito e [depois] muda. A característica desse Programa Mais Médicos é de improvisações, uma atrás da outra, desde o dia que ele foi instalado até o dia de hoje. O programa está vivendo uma crise das improvisações", opinou.

Mandetta criticou, por exemplo, o fato de o convênio para atuação dos médicos cubanos não ter previsto um processo de rescisão com saída gradual dos profissionais, como o que aconteceu após a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) à Presidência.

"Como você faz um convênio com o país, no caso Cuba , através da OPAS [Organização Panamericana de Saúde], em que não se prevê nem o distrato? Quando você faz o aluguel da sua casa, quando você vai devolver [o imóvel], você tem as condições pelas quais você termina. Quando você está trabalhando, você tem até aviso prévio. Então é um programa tão no improviso que nem as condições de como termina o programa foram pensadas", criticou. 

Vagas remanescentes

Para Mandetta, outro problema do Mais Médicos é não dar prioridade para as áreas de difícil provimento
José Cruz/Agência Brasil
Para Mandetta, outro problema do Mais Médicos é não dar prioridade para as áreas de difícil provimento

Com a dificuldade de preencher as vagas deixadas pelos cubanos, o Ministério da Saúde prorrogou o prazo para escolha de vagas por médicos formados fora do País e que já enviaram documentação para participar do programa. Agora, brasileiros graduados no exterior têm até os dias 23 e 24 de janeiro para selecionarem os municípios de alocação.

Nessa etapa, foram disponibilizadas 842 vagas em 287 municípios e 26 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI). Os postos abertos são referentes às localidades não ocupadas na segunda seleção aberta para médicos que possuem registro no Brasil. Dados do Ministério apontam que 1.707 profissionais, que devem se apresentar entre os dias 7 e 10 de janeiro, já escolheram localidades.

Para Mandetta, outro problema do Mais Médicos é não dar prioridade para o preenchimento de vagas nas áreas de difícil provimento, fazendo com que regiões com maior grau de desenvolvimento acabem recebendo os profissionais antes das que mais precisam.

"Tem cidades com IDH [Índice de Desenvolvimento Humano] muito alto que, em tese, não precisariam de médicos estrangeiros, mas tiveram a substituição completa [dos médicos cubanos ]. E tem cidades do chamado Brasil profundo, onde tem populações ribeirinhas, distritos sanitários indígenas, onde você tem difícil provimento. Então por que não começar pelas áreas de difícil provimento?", questionou.

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Ainda segundo Mandetta, por causa dessa distorção, a primeira cidade com preenchimento de vagas no  Mais Médicos  foi Brasília, o que seria, na sua visão, uma inversão de prioridade. "Não me parece que Brasília seja uma cidade hipossuficiente, é uma cidade com IDH elevadíssimo, capital da República, tem um poder aquisitivo muito alto. O programa como um todo vai ter que ser rediscutido", enfatizou.


*Com informações da Agência Brasil