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Um ano marcado por surtos de doenças não lembradas e pela polêmica saída dos cubanos do programa Mais Médicos; relembre a área da saúde em 2018

Ebola, sarampo, febre amarela e programa Mais Médicos foram principais acontecimentos de 2018 na área da saúde
Marcelo Camargo/ABr
Ebola, sarampo, febre amarela e programa Mais Médicos foram principais acontecimentos de 2018 na área da saúde

O ano de 2018 foi conturbado em todos os sentidos, em especial  política e economicamente. Na agitação das eleições, a saúde não foi o assunto mais notado no Brasil, mas isso não significa que o tema tenha passado incólume pelas tormentas do ano. Em meio a surtos de doenças como o sarampo e queda de outras, 2018 deixou sua marca também nessa área.

Para o Ministério da Saúde, a retomada da cobertura vacinal foi uma das mais importantes ações realizadas neste ano, principalmente contra a poliomielite e o sarampo . A pasta também destaca que o ano foi de  combate às fake news. “Para se ter uma ideia, desde março, quando o Ministério da Saúde montou uma equipe para acompanhar as notícias falsas nas redes, mais de 200 temas enganosos foram encontrados e replicados entre milhões de usuários”, afirma o governo.

Fazendo uma retrospectiva 2018 , a pasta avalia que outra ação relevante foi o acordo com a indústria para redução de até 62,4% do teor de açúcar em alimentos industrializados, como bebidas adoçadas, bolos e biscoitos. A redução máxima varia conforme a categoria e será gradual até 2022. Somadas as metas, o acordo deverá retirar até 144 mil toneladas de açúcar dos alimentos, o que pode melhorar a saúde da população.

O iG fez um levantamento dos principais acontecimentos na área da saúde em 2018. Relembre abaixo: 

O retorno do ebola ao Congo 

Congo voltou a conviver com surto de ebola ao longo de 2018
Divulgação/ Comitê Internacional da Cruz Vermelha
Congo voltou a conviver com surto de ebola ao longo de 2018

Após uma grave epidemia da doença entre 2014 e 2016, que afetou mais de 30 mil pessoas, o continente africano  voltou a sofrer com o vírus do ebola em 2018. A República Democrática do Congo anunciou, pela nona vez, um novo surto em abril deste ano, na província de Équateur.

Entre o dia 1º de abril e 3 de julho, 54 casos de ebola foram confirmados no país africano e, dos infectados, 33 morreram. Em julho, o Ministério da Saúde do Congo declarou que a epidemia havia chegado ao fim . O país passou 42 dias sem registrar nenhuma nova vítima. Seguindo os padrões internacionais, uma epidemia só é considerada finalizada 42 dias depois que as amostras de sangue do último caso forem consideradas negativas pela segunda vez.

Mas pouco depois, em agosto, um novo surto foi confirmado e, desde então, o número de infecções registradas já chegou a 419, sendo 372 confirmadas em laboratório, 47 possíveis e outros 56 em processo de investigação. Além disso, na cidade de Beni, houve mais de 200 casos.

O surto da doença se estendeu até o mês de dezembro e essa já é considerada a  maior epidemia de ebola da história da República Democrática do Congo, superando o número de 318 contágios registrados no primeiro surto do vírus, em Yambuku, em 1976.

A baixa cobertura vacinal que trouxe o sarampo de volta

Enquanto a África se preocupava com o surto de ebola, uma crise de sarampo também perturbou parte do mundo, principalmente o continente americano. Segundo relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde em novembro, os casos da doença  cresceram 30% em todo o mundo desde 2016.

O surto de sarampo começou na Venezuela que, pela situação econômica e social atual, está enfrentando uma baixa cobertura vacinal. Assim, a doença se espalhou para outros países. Foram confirmados 10.163 casos de sarampo no Brasil desde o início de 2018. O País enfrenta duas crises da doença: no Amazonas e em Roraima.

Para o diretor da Secretaria Brasileira de Imunizações (SBIm), Dr. Juarez Soares, a crise da doença no Brasil também é consequência da falta de cobertura vacinal. “Se nós tivéssemos uma cobertura vacinal considerada adequada, que seria acima de 95%, não teríamos a doença acontecendo em nosso país”, afirmou, em entrevista ao iG.

Para ele, isso ocorre por diversos motivos, principalmente por uma “falsa segurança” da população, que acredita que a doença não acontece mais e a chance de ser infectado é muito pequena, então acabam não vacinando seus filhos.

“É claro que existem outros motivos relatados pelos especialistas da área, como o medo dos eventos adversos, os movimentos antivacina, a dificuldade de acesso, o horário de vacinação no posto não é fácil para uma mãe que trabalha. Então várias outras situações são colocadas como causas dessa baixa cobertura vacinal que a gente tem visto nos últimos três anos”, defendeu Soares.

Segundo o Ministério da Saúde, municípios com coberturas vacinais abaixo de 95% podem apresentar risco de reintrodução do sarampo. “O Programa Nacional de Imunizações (PNI) tem orientado todas as Unidades Federadas que envidem esforços para que todos os municípios do país alcancem coberturas iguais ou maiores que 95% de forma homogênea."

O presidente do Conselho de Secretarias Municipais da Saúde, Mauro Junqueira, afirma que a única forma de cessar a epidemia de sarampo no País é com o apoio da população, que deve ir até os postos de vacinação. “O Ministério da Saúde, em conjunto com os municípios e estados, estão tomando as providências de bloqueio nas áreas de maior transmissão. Ainda na região norte tivemos reuniões com os secretários de saúde do Pará e de Manaus para que os bloqueios fossem aplicados e para que a gente pudesse conter o avanço da doença."

"Mas nós temos casos em todo o país, todos eles com bloqueio, todos eles monitorados, e a gente espera que, com o apoio da população, procurando se imunizar através da vacina, a gente consiga voltar a normalidade”, completou Junqueira. 

A febre amarela no Brasil novamente

Poder público investiu em vacinas contra febre amarela
Rovena Rosa/Agência Brasil
Poder público investiu em vacinas contra febre amarela

O Brasil também teve que enfrentar o retorno de uma doença que não aparecia há dois anos: a febre amarela . De acordo com o Ministério da Saúde, de 1º de janeiro a 8 de novembro deste ano, foram registrados 1.311 casos e 450 mortes, quase o dobro do identificado no mesmo período do ano anterior, 736 casos e 230 mortes.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) chegou a incluir 13 estados brasileiros na lista de áreas de risco para a doença : São Paulo, todos os das regiões Norte e Centro-Oeste (bem como o Distrito Federal), o Maranhão e Minas Gerais.

A situação acendeu alerta nas autoridades brasileiras, que passaram a aplicar a dose fracionada da vacina para conter o avanço da doença. O fracionamento da vacina implica no uso de apenas um quinto (0,1 ml) de uma dose padrão (0,5 ml), visando ampliar o alcance da campanha de imunização.  O governo brasileiro assegurou reiteradas vezes que a efetividade e segurança da dose fracionada era a mesma que a da tradicional.

Assim como o sarampo, a nova crise da febre ocorreu em razão da falha na cobertura vacinal , que atingiu apenas pouco mais da metade dos cidadãos. De acordo com o diretor da SBIm, o surto da doença é uma grande preocupação, principalmente agora, com o início do verão, em que o aumento da temperatura favorece a reprodução dos mosquitos transmissores e, consequentemente, o potencial de transmissão do vírus.

“Há uma preocupação muito grande quanto a isso e há um estímulo para que as pessoas se vacinem. É uma vacina de rotina, que está disponível em todas as nossas unidades de saúde do país. E a tendência é que a partir de 2019, em algum momento, fique todo o país como área de vacinação. A forma de evitar a doença é se vacinar”, afirma.

Além disso, o Ministério da Saúde considerou que parte das pessoas pode ter decidido não se vacinar por decisão própria, da família, do responsável ou ainda por questões filosóficas, religiosas e fake news disseminadas nas redes sociais por grupos antivacinas.

A Aids e a evolução da ciência

Por outro lado, o País registrou  queda de 16% nos casos e mortes por HIV nos últimos seis anos, segundo um boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde em 2018. A pasta também destaca a diminuição significativa da transmissão vertical do HIV, quando o bebê é infectado durante a gestação, que diminuiu em 43%. “Isso se deve ao aumento da testagem na Rede Cegonha, que contribuiu para a identificação de novos casos em gestantes”. 

Enquanto o Brasil lidava com a Aids, do outro lado do mundo, na China, um cientista da Universidade de Shenzhen, He Jiankui, e sua equipe, afirmaram ter criado os primeiros bebês geneticamente modificados , Lulu e Nana. O cientista teria usado a técnica de edição de genes conhecida como CRISPR para modificar um gene e tornar as gêmeas resistentes contra o vírus que causa a AIDS, o que pode ser considerado um grande avanço para a área da saúde e da ciência.

Na retrospectiva 2018 , também vale ressaltar a aprovação de três novos tratamentos para o câncer. Dois para pacientes que possuem a doença nos rins e o terceiro para o câncer de próstata. Os procedimentos foram liberados pela Anvisa em outubro e apresentaram resultados significativos nos pacientes.

A política também na saúde

Profissionais de Cuba fazem parte do Mais Médicos desde o início do programa, em 2013
Karina Zambrana/Ministério da Saúde - 24.8.13
Profissionais de Cuba fazem parte do Mais Médicos desde o início do programa, em 2013

O ano também registrou acontecimentos importantes relacionados à política na saúde. Uma comissão do Senado aprovou, em novembro, projeto que prevê a descriminalização do plantio da maconha para fins medicinais e científicos. O uso foi aprovado desde que haja prescrição médica e fiscalização. O texto ainda precisa passar pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), depois por votação no plenário do Senado e, por último, na Câmara dos Deputados.

Outro fato que também marcou o fim de 2018 foi a  saída dos cubanos do programa Mais Médicos. A decisão do regime socialista cubano de abandonar a parceria com o Brasil se deu após críticas do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), que queria cortar o repasse de recursos ao governo cubano, que recolhe parte do salário dos médicos, e exigir "comprovação" da capacidade dos profissionais.

Assim, os cubanos voltaram ao país de origem e um novo edital foi aberto para que brasileiros pudessem se inscrever no programa. As vagas não foram totalmente preenchidas e o Ministério voltou a abrir as inscrições para profissionais estrangeiros ou brasileiros formados no exterior. Áreas mais afastadas ou distritos indígenas enfrentam a falta de atendimento nos postos de saúde por conta da saída dos cubanos.

O ano que vem reserva dúvidas, em todos os sentidos possíveis. Os novos profissionais do Mais Médicos serão capazes de ocupar todas as vagas, incluindo as situadas em comunidades afastadas ou indígenas? O surto de sarampo vai acabar? A cobertura vacinal será capaz de reparar os danos manifestados em 2018? O Ministério da Saúde, hoje, se diz otimista para 2019. A pasta propõe investir na prevenção, reparando e evitando o surgimento das doenças ou a evolução para estágios mais graves. O governo espera que, assim, seja possível promover mais qualidade de vida ao brasileiro.

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