SÃO PAULO — A equipe médica de Bruno Covas anunciou na última quinta-feira que o câncer na região do estômago do tucano resistiu à quimioterapia, realizada em oito sessões desde outubro, e o prefeito de São Paulo já iniciou novo tratamento baseado em imunoterapia.

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Prefeito Bruno covas luca contra o câncer de estômago

O prognóstico é positivo: a expectativa é que o tratamento, menos agressivo, permita que o prefeito retome paulatinamente à vida pública. Mas as imunoterapias - criadas há 35 anos e ainda oferecidas na rede pública de maneira limitada, sobretudo através de protocolos de pesquisa - são inacessíveis para a maioria das vítimas de câncer brasileiras. Os custos variam entre R$ 200 mil e R$ 600 mi l por paciente.

O tratamento do prefeito, com sessões de infusão intravenosa de 30 minutos a cada três semanas, não tem prazo de término e não exige internação. Cada dose, administrada a cada três semanas, tem custo em torno de R$30 mil.

Até setembro de 2018, o serviço era oferecido apenas pela rede privada. O Hospital do Câncer de Barretos (SP) foi a primeira instituição pública a oferecer imunoterapia no Brasil, em parceria com a  iniciativa privada e o governo do estado - mas mesmo ali esse oferecimento sofre ameaças.

Rodrigo Garcia, hoje vice-governador de São Paulo, afirmou em 2018 que ‘não existem evidências’ sobre a eficácia das imunoterapias , colocando em xeque o financiamento estatal do tratamento. À época, especialistas do Hospital criticaram a afirmação do tucano e defenderam que todo medicamento oferecido para os pacientes da instituição têm eficácia comprovada.

O método tem levado o Brasil para uma nova era do tratamento de câncer, segundo Renato Cunha, médico especialista em terapia celular do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. Entre os médicos, é consenso que o tratamento intravenoso que “ensina” as células de defesa do paciente a combaterem as células tumorais tem revolucionado a área e curado pacientes de forma menos agressiva e com mais benefícios a longo prazo do que a quimio ou radioterapia.

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Em 2019, Cunha liderou a equipe que nacionalizou a produção do vetor usado numa das imunoterapias pesquisadas pela instituição. Através dela, o médico conseguiu a remissão significativa dos sintomas de câncer linfático de Vamberto Luiz de Castro, de 62 anos.

Antes, o vetor era produzido apenas por EUA e China. A produção nacional barateou o custo do tratamento — ainda assim, o Centro de Terapia Celular de Ribeirão Preto estima em R$15 milhões as necessidades para que o projeto continue. O acesso ainda é restrito a participantes de protocolos de pesquisas realizadas no hospital.

— O tratamento aqui é compassivo: o paciente procura o médico como última opção, se quimio e radio não funcionaram. A previsão para que comecemos um estudo clínico, aberto para mais pessoas, é no próximo ano. A partir desse estudo clínico é que vamos tirar os dados necessários para pedir a incorporação do tratamento ao SUS e isso deve demorar em torno de dois anos — afirmou Cunha.

Entre os especialistas, a dúvida é se o SUS consegue ou não bancar tratamentos como esse. Maria Del Pilar é diretora do Instituto do Câncer de São Paulo (ICESP), hospital público vinculado ao Hospital das Clínicas de São Paulo, e também defende que o principal empecilho no acesso ao tratamento , hoje, é seu custo.

— São drogas que têm um elevado custo por conta dos gastos que foram feitos com as pesquisas que levaram ao desenvolvimento delas. — explica Del Pilar. —Todos nossos pacientes são atendidos no sistema SUS e essas drogas não estão disponíveis no SUS. O que temos, nos últimos anos, é a participação dos pacientes em um grande número de pesquisas para o desenvolvimento dessas drogas ou confirmação de seus resultados. Por isso, nós temos conseguido oferecer a imunoterapia para um número bastante grande de pacientes. Mas sempre dentro do contexto da pesquisa clínica, que é nossa limitação.

Para participar de uma das pesquisa, feitas para responder perguntas científica específicas, os pacientes candidatos têm que preencher os requisitos particulares de cada estudo.

Luiz Carlos da Costa, de 66 anos, foi um destes pacientes. Descobriu um câncer na garganta em 2016. Agressivo, o tumor não poderia ser operado. No ICESP, Costa realizou quimioterapia e radioterapia.

— A radio estava acabando comigo. Não conseguia trabalhar, não tinha paladar, andava fraco. — relembra o mecânico. — Então, uma das médicas perguntou se eu queria entrar protocolo de pesquisa com imunoterapia. Quando ela me disse que consegui a vaga, chorei de alegria.

Costa realizou o tratamento imunoterápico gratuito no ICESP e está em acompanhamento há dois anos. Considera-se “maravilhosamente bem”. As equipes do Hospital de Ribeirão Preto e do Instituto do Câncer de São Paulo continuam pesquisando alternativas para baratear o acesso ao tratamento.

— O grande objetivo é caminhar para uma equação em que tenhamos um produto de alta qualidade e seguro, o que é fundamental, e ao mesmo tempo acessível à população brasileira. — afirma Cunha. (*Estagiária, sob supervisão de Flávio Freire).

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