De acordo com o coordenador do comitê contra coronavírus em São Paulo, o infectologista David Uip, a falta de sintomas é a principal peculiaridade do novo coronavírus, o que não deve ser esquecido no momento de calcular a sua dimensão. “A maioria dos casos é assintomático. Isso é curiosíssimo”, reitera o profissional em entrevista exclusiva ao iG. 

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Rprodução/Governo do Estado de Sâo Paulo
David Uip em coletiva de imprensa sobre coronavírus em São Paulo

“Se o vírus já está circulando com casos autóctones, só o tempo vai dizer”, completa. Isso alerta para a importância dos  procedimentos de higiene divulgados pela OMS em relação ao novo coronavírus . Você pode não estar tossindo e estar transmitindo o vírus para grupos de maior risco.

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“Em uma pessoa saudável e jovem, fora do grupo de risco, o vírus pode trazer sintomas respiratórios - como no caso da gripe - ou pode não causar nada”, explica.

Uip assumiu a comissão com a postura clara de aplacar o pânico da população sobre a epidemia . Ele reitera que, em caso de confirmação,  90% dos pacientes deverão ficar em casa. Apenas e não mais que 10%, pelo que se sabe até agora, receberão cuidados hospitalares "e, destes, uma parcela muito pequena em terapia intensiva”. 

O risco de uma epidemia de Covid-19, a doença do novo coronavírus, no Brasil


O caráter de urgência da epidemia é incontestável para a saúde mundial, que precisa lidar com um patógeno desconhecido e ainda sem “soluções” na indústria farmacêutica ou vacinas. Mas o renomado profissional de saúde reforça que não se trata do “final dos tempos”. “Para nós, é mais um processo viral causando infecção respiratória”.

Quatro anos anos após o surto de zika no Brasil, porém, é natural que a população se preocupe com os efeitos de uma doença desconhecida . Todavia, o infectologista deixa claro que as dimensões da doença transmitida pelo aedes aegypti - cujos efeitos posteriores ainda são investigados - são muito mais preocupantes.

“O vírus da zika é muito mais complexo. Também é importante lembrar que se trata de doença com vetor intermediário e muitos agravantes. Eu mesmo, na época, alertei que o zika seria um temporal”, compara. 

Estado diz estar preparado para demanda

No início da semana passada, após a confirmação do vírus no Estado, a Secretaria de Saúde de São Paulo anunciou o investimento de R$30 milhões na prevenção da doença. A verba, afirma Uip, será dividida entre pesquisas e ações didáticas. “Foram R$ 14 milhões destinados às ações de conscientização da população, que são a medida mais importante no combate de qualquer doença. Os outros R$16 milhões serão aplicados na pesquisa e atendimento aos pacientes”, explica ele.

Por tratar-se de uma emergência mundial, as ações contra o coronavírus demandam algumas quebras de protocolo. Entre os procedimentos atípicos do Estado para lidar com o assunto, o médico destaca e elogia a antecipação da vacina contra a gripe , que deve começar já este mês e não em maio, como é comum.

Para a campanha, o Instituto Butantan produziu 75 milhões de doses que previne contra os três tipos de vírus de influenza (gripes) que mais circularam no ano anterior. Embora a vacina não surta efeito direto contra o coronavírus , a ideia é facilitar diagnósticos da nova doença a partir da imunização contra a gripe, o que elimina uma possibilidade com sintomas parecidos.

Quarentena e até isolamento para casos de contaminação pelo novo coronavírus são medidas exageradas, na opinião do infectologista


Opção que chama atenção por diferir das ações adotada por outros países é a de manter os casos confirmados apenas em isolamento domiciliar, sem internação. O médico, porém, diz que a postura é natural. “Antigamente nós precisávamos esperar o que poderia acontecer. Hoje fazemos o mapeamento do genoma e partimos para as soluções”, diz.

“A experiência nos mostrou quais são os caminhos do atendimento. Nós já sabemos que a grande maioria dos pacientes precisará apenas de atendimento domiciliar ”, reforça ele, que é crítico às ações de quarentana adotadas por muitos países e descreve como “exagero” algumas medidas de prevenção em instituições privadas que prezam pelo isolamento. 

“Alguns bancos, escolas, empresas estão orientando que as pessoas que viajaram para países com casos confirmados não compareçam aos compromissos. Imagine se todo mundo que viajar deixar de trabalhar no dia seguinte. É um exagero enorme”, comenta.

Próximos passos:  quais os obstáculos para lidar com a doença no Brasil? 

Apesar da postura tranquilizadora para tratar do assunto, o infectologista David Uip é direto sobre o próximo desafio a ser enfrentado para combater o coronavírus no Brasil: “Agora, resta saber como o vírus vai se comportar em um ambiente tropical”, diz.

As variáveis climáticas e a qualidade do ar estão diretamente relacionadas às doenças respiratórias. No Brasil, sabe-se que o período entre maio e agosto é mais propenso às infecções dessa natureza devido à combinação entre temperaturas baixas e ar seco, que propiciam uma maior sobrevida aos vírus. Esse é um dos motivos que influencia a data padrão da vacinação contra a gripe, por exemplo. 

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Outra análise menos otimista é sobre as etapas que ainda precisam ser concluídas até a chegada das vacinas contra o coronavírus à população. De acordo com o profissional, “os ensaios clínicos começam entre o final de abril e maio: primeiro começa com a fase um, que já é ultrapassada pela engenharia genética”, afirma o profissional, que defende que, pelo caráter de emergência mundial, o processo deveria ser abreviado.  

“Essa primeira fase envolve testes em voluntários, cerca de 25 pessoas. A partir disso, vê se a vacina provoca os anticorpos específicos e se há reações. Se foi bem, você amplia o quantidade de voluntários” . O processo , porém, leva tempo. “Eu não acredito que chegue em menos de um ano”, diz Uip.

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