vacina
shutterstock
Brasileiros superam o México, segundo país mais afetado pelo novo coronavírus na América Latina


O Brasil é o país que mais deixou de aplicar  vacinas no mundo durante a pandemia de Covid-19, aponta um levantamento internacional do Instituto de Inovação da Saúde Global do Imperial College de Londres em parceria com o instituto britânico de pesquisas YouGov.


Foram entrevistados indivíduos de 23 países. No ranking, os brasileiros superam o México, segundo país mais afetado pelo novo coronavírus na América Latina, em sete pontos percentuais.

A principal razão apontada pelos brasileiros e cidadãos de outras 22 nações avaliadas no estudo é o medo de contrair o novo coronavírus nos postos de saúde ou clínicas, embora a suspensão do atendimento durante a quarentena em diferentes partes do mundo como forma de precaução e até mesmo recomendações médicas também se destaquem entre as motivações relatadas.

No levantamento do Imperial College, foram ouvidas cerca de mil pessoas em cada um dos 23 países entre 14 de maio e 6 de julho. No Brasil , o levantamento foi feito entre os dias 25 de junho e 6 de julho e ouviu 1.006 indivíduos. A iniciativa faz parte de um estudo mais amplo da universidade britânica que tem monitorado comportamento da população de 29 países desde 2020 em diferentes situações durante a quarentena.

No último dia 15, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já havia alertado para a queda "alarmante" dos níveis de vacinação durante a crise pandêmica, em especial na América Latina e no Caribe. A imunização contra sarampo, tétano e difteria, por exemplo, caiu pelo menos 14% no Brasil, Bolívia, Haiti e Venezuela em comparação aos níveis observados em 2010, segundo a entidade.

O estudo do Imperial College sobre a queda na rotina de vacinação foi conduzido também na Austrália, Canadá, China, Dinamarca, França, Alemanha, Índia, Indonésia, Itália, Malásia, México, Noruega, Filipinas, Arábia Saudita, Cingapura, Espanha, Suécia, Tailândia, Emirados Árabes Unidos, Reino Unido, Estados Unidos e Vietnã.

De acordo com a iniciativa, 18% dos entrevistados brasileiros alegaram ter adiado ou cancelado a aplicação de imunizantes desde o início da pandemia ou vivem com alguém nessa situação. É o maior índice do ranking do Imperial College, o mesmo do Vietnã (que teve maior índice de respostas indecisas), e é seguido de Filipinas (14%), Índia, Arábia Saudita e Tailândia (13% cada) e Estados Unidos, China, México e Indonéisa (10% cada).

Entre os brasileiros, 44% das pessoas ouvidas disseram ter postergado o próprio cronograma de vacinação , 15% relataram viver com crianças entre 5 e 17 anos nesta condição, 10% com crianças entre 2 e 4 anos e 9% com bebês de até 2 anos. Assim, 34% deles se referem a menores de idade que deixaram de ser imunizados desde o início do isolamento social.

Procurado pelo GLOBO, o Ministério da Saúde informou que os índices de vacinação são computados anualmente. Mesmo os números de 2019 ainda não foram fechados — o prazo final para os estados inserirem os dados no Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI) terminaria em 31 de março, mas foi estendido para o fim deste mês em decorrência da pandemia.


Efeitos 'a longo prazo'

Ao todo, 9% das 23.184 pessoas ouvidas pela pesquisa afirmaram ter postergado ou perdido a aplicação de imunizantes desde o início da pandemia ou morarem com alguém nestas condições. Destes, 32% dos entrevistados disseram se enquadrar nessa situação, 25% afirmaram ser outra pessoa eram responsáveis pela própria rotina de vacinação, 19% se referiam a bebês de até 2 anos, 16% a crianças entre 7 e 15 anos e 14% crianças entre 2 e 4 anos. Outros entrevistados (12%) preferiram não responder.

Ou seja, cerca de metade dos indivíduos que deixaram de ser vacinados nesse período se encontram entre a fase recém-nascida e o fim da adolescência. No Brasil, o medo de contrair a Covid-19 nos postos motivou 19% dos brasileiros que adiaram a vacinação, seguido de 18% dos que temeram a infecção pelo novo coronavírus ao sair de casa. Na sequência vêm aqueles que disseram ter seguido recomendações médicas: 10%.

Para Sarah P. Jones, pesquisadora de comportamento em saúde da universidade britânica, os números se juntam a outras evidências de que haverá um aumento na incidência de doenças passíveis de imunização após a pandemia por conta da queda nos índices de vacinação. Os efeitos, pontua a Imperial College London, poderão ser de longo prazo. Por isso, a pesquisadora defende que sejam elaborados programas de vacinação que garantam a segurança e a eficácia de uma imunização abrangente da população enquanto durar a crise do novo coronavírus.

O estudo, por exemplo, questionou quais medidas poderiam melhorar a sensação de segurança e convencer os entrevistados de comparecer a um posto para se vacinar. Entre as condições estão o uso obrigatório de máscaras por funcionários e disponibilização de equipamentos de proteção individual para as equipes médicas (55%) e abrir dias específicos de atendimento para pessoas saudáveis (49%).

O Brasil também lidera entre os entrevistados que se sentiriam mais seguros na hipótese de máscaras se tornarem obrigatórias em clínicas e postos, bem como a oferta de EPIs para as equipes médicas: 75% e 68%, respectivamente. As propostas de drive-thru de vacinação (65%), dias específicos para pessoas saudáveis (60%) e não incluir pessoas com sintomas da Covid-19 (35%) completam as preferências dos brasileiros.

    Veja Também

      Mostrar mais