Suspensão da vacinação pegou a todos de surpresa
Reprodução: ACidade ON
Suspensão da vacinação pegou a todos de surpresa

Infectologistas criticaram a decisão do Ministério da Saúde de suspender a vacinação de crianças de adolescentes sem comorbidades de 12 a 17 anos contra covid-19, anunciada em uma nota técnica hoje. Em entrevista coletiva, o ministro Marcelo Queiroga afirmou que faltavam evidências científicas de que o imunizante era eficaz para a faixa etária , fato rechaçado pelos especialistas no combate à doença.

O Dr. Francisco Ivanildo de Oliveira Júnior, médico infectologista do Hospital Emílio Ribas, esclareceu que a decisão de estender a vacinação para esse público começou nos Estados Unidos e em Israel, após estudos de eficácia e segurança, ao contrário do que afirmou Queiroga.

"Temos estudos que embasaram a liberação dessa vacina não só no Brasil, mas em outros países, inicialmente a partir de 16 anos, e depois de 12 a 15 anos. Foram estudos que chamamos fase 3, de eficácia e de segurança. Posteriormente, a partir de maio, essas vacinas passaram a ser aplicadas na prática, na vida real, inicialmente em Israel, nos EUA, em outros países também, agora mais recentemente aqui no Brasil", diz, em entrevista exclusiva concedida ao iG Saúde.

Para o especialista, a decisão de suspender a imunização é ruim também do ponto de vista epidemiológico, já que posterga a cobertura vacinal no Brasil.

"É absolutamente equivocada. É importante diferenciar e entender que sem dúvida a população de crianças e adolescentes não é prioritária. Mas no estágio de vacinação que estamos no Brasil, onde a maior parte da população de alto risco está imunizada, é imprescindível ampliar a faixa de imunização", avalia.

"Se essa medida tivesse acontecido há seis meses atrás, eu seria contra vacinar crianças e adolescentes com aquele contingente grande de adultos, pessoas com comorbidades e gestantes que precisavam ser vacinadas prioritariamente. Mas a partir do momento que passamos a proteger essa população é obvio que dentro de uma escala, os adolescentes terão que ser vacinados, por menor que seja o risco de evoluir para uma forma grave. O fato de ter um baixo risco não quer dizer que não existe risco nenhum", completa.

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A Dra. Mirian Dal Ben, infectologista do Hospital Sírio Libanês, faz a mesma avaliação.

"[O ministro] Muito provavelmente não foi transparente ao mencionar os reais motivos de preterir os adolescentes nesse momento. Já temos crianças e adolescentes nessa faixa etária no mundo inteiro vacinados com bons resultados, a discussão que se tem hoje não é em relação à segurança da vacinação, mas sim em relação à priorização frente a escassez de doses. Acho que a colocação dele [Queiroga] teria sido correta se tivesse dito que frente a disponibilidade, optou-se por priorizar a 3ª dose dos idosos. Mas não afirmar que essa decisão foi tomada por eventos adversos, pois isso não é verdade", completa.

O representante do Emílio Ribas aponta que o problema é um reflexo da falta de coordenação nacional no Ministério da Saúde desde o início da pandemia.

"O Ministério da Saúde teria que ser mais honesto e reconhecer que não nos preparamos de forma adequada, não compramos vacinas de forma eficiente e temos que priorizar, mas não criar uma preocupação nas famílias, criando uma guerra de informação que vai favorecer o medo, o preconceito, uma série de questões que podem prejudicar não só essa vacina, como outras. Temos que olhar mais longe. Quando o ministro da Saúde diz que não existe segurança para vacinar, se daqui a um mês recebe 100 milhões de doses, e a vacina fica disponível, como em um mês, antes não tinha e agora eu tenho?", indaga. "Justifique-se, não tenho vacina para mandar para os estados."

A decisão, que pegou estados, municípios, conselhos e secretários de saúde de surpresa, causa uma guerra de narrativas que prejudica o Plano Nacional de Imunização (PNI) na avaliação da Dra. Mirian.

"Toda vacinação tem prós e contras. Qualquer decisão vacinal tem prós e contras, vacinar adolescentes, priorizar adultos com essas doses. Não existe certo e errado, mas com certeza existe certo e errado na decisão de ficar indo e voltando com as informações prestadas à população. Esse vai e volta acaba dando espaço para fake news, com interpretações errôneas."

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