Vírus da 'varíola dos macacos'
Foto: Centro de Controle de Doenças/Divulgação - 20/05/2022
Vírus da 'varíola dos macacos'

As crianças estarão em risco enquanto o vírus monkeypox estiver em circulação. Considerado um dos virologistas mais experientes do Brasil, Amílcar Tanuri adverte que elas são o grupo mais vulnerável à varíola dos macacos e destaca que ninguém sabe quais serão os efeitos da doença entre elas.

O país tem condição de erradicar o vírus, mas precisamos intensificar a identificação de possíveis casos e a testagem, fazendo o controle adequado, afirma Tanuri, coordenador do Laboratório de Virologia Molecular da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Havia necessidade de a OMS declarar emergência de saúde pública internacional?

Sim. Ela precisava mobilizar esforços, pois pessoas e governos não estão dando a devida importância a um vírus que se espalha depressa e tem potencial de causar problemas graves nos mais vulneráveis, sobretudo crianças. A variante que se propagou a partir da Bacia do Congo se diferenciou tanto que, a meu ver, deveria ser considerada uma nova linhagem.

Qual é a maior preocupação neste momento?

É com as crianças e as gestantes, que são as mais vulneráveis. A varíola dos macacos começou em janeiro e chegou ao Brasil em junho. Hoje há pouco mais de mil casos em adultos no Brasil, um aumento substancial em pouco tempo. Mas não temos a menor ideia de quantos realmente existem. E não sabemos porque não testamos.

Por que as crianças merecem mais atenção se não estão sendo afetadas agora?

Pelo histórico de casos na África, onde são as maiores vítimas. O vírus se aproveita do sistema imunológico imaturo e provoca casos mais graves. Não sabemos como a nova variante vai se comportar com elas.

Há casos em crianças aqui?

Sim. Na UFRJ identificamos o caso de uma paciente de 13 anos (depois da entrevista, São Paulo confirmou três registros em crianças). Nos EUA há ao menos dois registros.

E as grávidas?

Preocupam pelo mesmo motivo. A entrada de um vírus novo em grupos vulneráveis é algo para se encarar com extrema seriedade, e não é o que estamos vendo.

Por que o vírus que se espalha agora é tão diferente?

Isso não sabemos. Mas ele provoca um quadro diferente em adultos, com lesões mais localizadas e quase sempre mais brandas, com baixa patogenicidade. O tempo de transmissão, porém, praticamente dobrou, chega a 21 dias. E ele é altamente resistente a sobreviver no ambiente, em roupas, por exemplo. Para piorar, sem diagnóstico laboratorial é muito difícil identificá-lo, pode ser facilmente confundido com a catapora.

Para os adultos então, quase sempre não é grave, certo?

Sim. Em termos individuais, isso é ótimo. Mas para o combate é péssimo. Quando se trata de vírus pox, não se deve falar de controle, mas de erradicação. E ela é plenamente possível com os meios que temos, isto é, vacina, antivirais e testes eficazes.

Só que no Brasil, por exemplo, perdemos até o controle porque não testamos suficientemente, não informamos. Não é admissível deixar um vírus se espalhar e criar risco quando ele poderia ter sido totalmente banido. É um problema que podemos eliminar. Mas é preciso querer.

Então o que falta?

A receita é conhecida: vigilância, teste e vacina.

Há receio de medo de estigmatização porque os casos da doença em vários países estão concentrados em homens que fazem sexo com homens. O que se sabe sobre o início deste surto?

Está claro que o vírus se espalhou com mais velocidade a partir de algumas festas gays na Europa, mas isso foi apenas como ele iniciou sua jornada pelo mundo. E essa situação não se sustenta, pois os vírus logo começam a se disseminar para a população como um todo. Então, todos precisam se precaver e o vírus tem que ser erradicado.

Se fala em transmissão sexual. Ela é possível?

O vírus nunca foi encontrado em concentração significativa no sêmen e nos líquidos vaginais. O risco maior é pela pele e mucosas.

O que precisamos aprender sobre o monkeypox?

Muito. A Rede Vírus do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações criou uma linha de pesquisa para sequenciar e estudar sua sensibilidade a antivirais e a resposta a vacinas. Também é preciso descobrir se há interação com o HIV, agravando a varíola de macacos e/ou a Aids. E ainda o risco de ele criar reservatórios em animais.

O senhor tem participado desde o início do combate da pandemia de Covid-19 no Brasil. Em que ponto estamos?

De otimizar a vacinação. Precisa haver planejamento e coordenação nacional. As vacinas têm feito o prometido e segurado os casos graves e as mortes. Mas há muitas questões fundamentais em aberto.

Quais?

Até quando vamos aplicar doses de reforço e para que grupos? E qual será a periodicidade e com quais vacinas? Há mesmo necessidade uma vacina específica para Ômicron e suas subvariantes? Qual a eficácia dessa vacina para as novas variantes do Sars-CoV-2 que certamente emergirão. Isso precisa ser avaliado, definido e a população muito bem informada. Mas isso não acontece no país.

Muitas pessoas têm se reinfectado. Essa é a regra da Covid-19?

A periodicidade de reinfecção é de cerca de um ano para a maioria das pessoas, independentemente da vacina que tomaram. E algumas pessoas se reinfectam até antes disso.

Isso leva a crer que o reforço continuará a ser necessário, não?

Ao que tudo indica, sim. Mas para a maioria das pessoas talvez a periodicidade deva ser de um ano. Um estudo nosso em Maricá mostrou que 80% da população têm alto nível de anticorpos, com boa neutralização.

Então quem são os grupos que precisarão de reforços mais regulares?

Para isso é preciso investigar o excesso de mortalidade no país. Um estudo americano sobre dados mundiais analisou as mortes de março de 2020 até este ano e viu que, se no início da pandemia, morriam pessoas de todas as idades, com a vacinação o cenário mudou drasticamente.

No primeiro momento, ficou mais restrito aos idosos e agora, com a Ômicron, as mortes ocorrem, sobretudo, em pessoas acima de 65 anos e com problemas de saúde prévios, como diabetes. Ao que tudo indica, essa parte da população deve ser prioritária e receber doses de reforço em esquema diferenciado.

Temos duas emergências de saúde pública internacional em vigor (a pandemia de Covid-19 e a varíola de macacos), baixa cobertura vacinal para todas as doenças, casos de poliomielite na Ásia e na África e a detecção do vírus da pólio no esgoto nos EUA e no Reino Unido. Em que momento estamos?

Num péssimo, de perigo de emergência de novas e velhas doenças. É a primeira vez que temos duas emergências internacionais simultâneas. E não há justificativa para a volta do sarampo e da pólio. É como se a Humanidade convidasse os vírus a se espalharem por sua própria negligência. A pandemia deveria ter servido como lição. A varíola de macacos mostra que não foi aprendida.

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