
O Dia Mundial da Prematuridade é comemorado nesta segunda-feira (17) e a história de superação de Cintia Raquel Mantovani, mãe de primeira viagem aos 34 anos, mostra como a ajuda inesperada de seu cão revelou uma gravidez de 4 meses já avançada e antecedeu a batalha pela vida da bebê que nasceu prematura de 29 semanas, equivalente a 7 meses de gestação.
Segundo a a médica neonatologista da Maternidade de Campinas, Andrea Moretti, um bebê é considerado prematuro antes de 37 semanas de gestação. Quanto mais prematuro, maiores são as dificuldades de nutrir a criança fora do útero, uma vez que, dentro da barriga da mãe, ele recebe o alimento pelo cordão umbilical ligado à placenta. O prematuro perde todo o aconchego do colo que envolve a amamentação e chega ao mundo sendo alimentado por sonda.
“O prematuro só vai estar apto para iniciar a alimentação via oral com mais de 34 semanas e acima de 1,7 kg. Ele será alimentado exclusivamente pela sonda até esse momento. Para que essa mãe consiga amamentar, precisa de muita persistência”, explicou a médica à reportagem do iG.

É possível a mãe de prematuro ter leite para amamentá-lo?
Algumas mães conseguem ordenhar o próprio leite no lactário do hospital onde o bebê está internado e armazená-lo no banco de leite. Foi o caso de Cintia Rachel, que teve a pequena Ana Luz com apenas 27 semanas, após desenvolver pré-eclâmpsia, uma complicação grave da gravidez causada por pressão alta.
Mas quem descobriu a gravidez surpresa de Cintia, que já estava com 4 meses de gestação, foi seu cão Spike, que durante uma brincadeira deitou sobre sua barriga e arregalou os olhos, olhando com surpresa para ela.
“Falei para o meu marido: eu estou grávida! Ele achou impossível. Fiz o teste de farmácia, que confirmou, e o exame de sangue mostrou que eu já estava com 17 semanas”, relembrou.

Cintia não chegou a ver a barriga crescer nem a fazer um ensaio fotográfico, como é o sonho da maioria das mães de primeira viagem. Após um resfriado muito forte no início do terceiro trimestre gestacional e com o agravamento do mal-estar, ela foi diagnosticada com gravidez de alto risco, desenvolvendo pré-eclâmpsia. Foi transferida para a Unicamp, em Campinas, no interior de São Paulo, sem previsão de alta, onde permaneceu internada por 20 dias. Com a queda acentuada das plaquetas, desenvolveu uma condição rara e grave que afeta o sangue e o fígado, conhecida como Síndrome de HELLP.
Ana Luz veio ao mundo com 29 semanas, pesando 944 gramas e medindo 36 centímetros. Cintia relatou que se emocionou ao descobrir que tinha leite para amamentar a filha. Desde que soube da gravidez, amamentar era um grande sonho.
“Eu achava que não teria leite, porque a maioria das mulheres que estavam comigo no quarto não conseguiu amamentar seus bebês. Imaginava que, por ela ser tão prematura, eu também não teria leite para alimentá-la”, contou.
Não apenas Ana Luz recebeu leite materno; após a alta, Cintia também doou leite para o banco da Unicamp. Ela recebeu vários potinhos esterilizados, ordenhava em casa, etiquetava e deixava congelado nas bolsas de gelo. Hoje, a bebê tem 4 meses e é extremamente saudável.

O Brasil não está preparado para atender prematuros
“O Brasil, de forma geral, não está preparado para atender o prematuro no ambiente hospitalar. Muitas cidades não dispõem dos recursos mínimos para mantê-lo vivo. A prematuridade exige um hospital mais especializado, normalmente em centros maiores”, explicou a neonatologista Andrea Moretti.
Ela afirmou que os cuidados especiais envolvem ventilação, nutrição, acesso venoso e profissionais capacitados, como dermatologista, cardiologista para o ecocardiograma, neurologista, fisioterapeuta e fonoaudiólogo. Existe uma carência muito grande de ambulatórios multidisciplinares, que são raros e geralmente vinculados a hospitais-escola.
“Já é difícil conseguir uma nutricionista na rede pública. Não temos preparo para esse paciente depois que sai da UTI. Há mais UTIs especializadas em prematuridade do que ambulatórios de seguimento”, destacou.

Mitos sobre a alimentação
“Existe o mito de que bebê saudável é bebê gordinho. As pessoas querem ver o bebê 'vingar', ver o bebê crescer, e às vezes acham que adicionar uma farinha, um açúcar, alguma coisa no leite vai fazê-lo engordar. Sabemos que bebê gordinho não é sinônimo de bebê saudável”, esclareceu a Dra. Andrea Moretti.
A neonatologista também desmistificou que a comida precisa ser batida na introdução alimentar. Segundo ela, o alimento não precisa ser liquidificado porque o bebê foi prematuro; no momento em que estiver apto à introdução alimentar, a consistência deve ser amassada.
Outro mito é trocar a fórmula indicada para o bebê que não conseguiu sair em aleitamento materno por leite de vaca, pensando ser mais gordo e capaz de fazê-lo crescer. É fundamental entender a importância do aleitamento materno e, quando não for possível, utilizar a fórmula mais adequada.
O suco, que até alguns anos era recomendado na introdução alimentar, intercalando suco em um horário e fruta amassada em outro, não é mais indicado, nem entre refeições nem junto delas. O volume de suco oferece alta carga de glicose e ocupa o estômago, fazendo com que a criança não consiga comer depois, prática que era muito comum até pouco tempo.