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Um grupo analisou células do cérebro de doentes que morreram de Covid-19 enquanto outra equipe atuou na observação do córtex cerebral de pacientes que tiveram a doença com sintomas leves
Foto: Shutterstock/Divulgação
Um grupo analisou células do cérebro de doentes que morreram de Covid-19 enquanto outra equipe atuou na observação do córtex cerebral de pacientes que tiveram a doença com sintomas leves

Dores de cabeça, perda de olfato, alterações no paladar, tontura, sonolência, confusão mental… Todos esses sintomas neurológicos são associados à Covid-19. Para os cientistas, isso sugere que o novo coronavírus afeta o cérebro.

Para confirmar a hipótese, pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, decidiram investigar. E a descoberta foi que o novo coronavírus infecta células cerebrais e afeta suas funções. O Olhar Digital conversou com a pesquisadora Fernanda Crunfli, uma das autoras do estudo, que é pós-doutoranda do laboratório de neuroproteômica da Unicamp.

A pesquisa foi feita em duas frentes. Um grupo analisou células do cérebro de doentes que morreram de Covid-19 enquanto outra equipe atuou na observação do córtex cerebral de pacientes que tiveram a doença com sintomas leves e se recuperaram sem precisar de internação. Em ambos os casos, foram encontradas alterações.

Como a obtenção de células cerebrais de pacientes vivos requer o uso de técnicas invasivas, a análise delas só é viável na autópsia dos indivíduos mortos. Nos pacientes que se recuperaram, o exame do córtex cerebral foi feito a partir de uma ressonância magnética funcional.

As variações na espessura dessa membrana mais externa do cérebro preocupam os pesquisadores. Eles esperam que, com o tempo, o próprio organismo trate de regenerar essas lesões, mas o que se sabe, por enquanto, é que pacientes com doenças neurodegenerativas, como os males de Alzheimer e Parkinson, apresentam alterações semelhantes.

Em outras palavras, os resultados encontrados até agora pelo estudo servem como alerta, já que não se sabe ainda o que essas complicações neurológicas podem representar no futuro. Entre os pacientes vivos avaliados, foram encontrados sintomas de depressão, ansiedade e distúrbios cognitivos.

Segundo Fernanda, o vírus mexe com a maneira como o cérebro produz energia. Isso porque ele infecta e se multiplica nos astrócitos, as células mais numerosas do sistema nervoso central, que servem para nutrir os neurônios.

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Os pesquisadores ainda não sabem como o vírus chega ao cérebro, já que existe uma barreira natural para proteger o órgão – a barreira hematoencefálica. Esse é o próximo passo da pesquisa em andamento na Unicamp.

Além disso, os pacientes que se recuperaram da doença serão acompanhados por três anos pela equipe para determinar quais serão as sequelas deixadas pela passagem do novo coronavírus no corpo. Isso quer dizer que pegar a doença, mesmo que em sua forma leve, pode ter consequências desagradáveis no futuro.

Outra dúvida dos cientistas é se os efeitos identificados no cérebro estão ligados à chegada do novo coronavírus ao órgão ou se são algo secundário, decorrente da inflamação generalizada do organismo. Enquanto não se sabe tudo o que a Covid-19 pode causar no cérebro, é melhor não ter a doença.

Com a chegada das vacinas, espera-se que o controle da doença seja possível. Mesmo assim, ainda vai demorar para que um percentual grande da população esteja imune. Por enquanto, então, só temos mesmo as medidas de prevenção: distanciamento social, uso de máscara e higienização das mãos são ainda a melhor forma de se manter livre da Covid-19.

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