Cemitério público de Manaus, Nossa Senhora Aparecida, localizado no bairro Tarumã
Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real
Cemitério público de Manaus, Nossa Senhora Aparecida, localizado no bairro Tarumã

O Brasil ultrapassou nesta quarta-feira (24) as 300 mil mortes por Covid-19 enfrenta o pior momento da pandemia. Enquanto o mundo vê o número de casos e óbitos caírem, o país enfrenta falta de leitos em UTIs, escassez de medicamentos para tratar o novo coronavírus (Sars-CoV-2) e o sistema de saúde que não consegue reagir à velocidade de transmissão da doença.

Com a segunda onda da Covid-19, o Brasil assiste a uma disparada dos óbitos, com uma média de 2.400 mortes por dia, a mais alta do mundo.

O intervalo de tempo das 100 mil mortes até chegar aos 200 mil óbitos durou cinco meses. Com o ritmo da pandemia descontrolado, para alcançar a marca de 300 mil vidas perdidas o tempo também encurtou. Foram apenas dois meses e meio.

Para efeito de comparação, é como se toda a população da cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte, com cerca de 300 mil habitantes, morresse em pouco mais de um ano.

Um levantamento feito pelo jornal O Globo mostra que ao menos três estados brasileiros não têm mais vaga de UTI disponível para pacientes com Covid-19. Acre, Rondônia e Mato Grosso do Sul registram taxas de ocupação dos leitos de terapia intensiva maiores que 100%. Outros 14 estados estão com o índice acima de 90%: Amapá, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.




"Eu carreguei os dois caixões e isso está muito forte na minha memória ainda"

O publicitário Gabriel Serafim, 23, nunca imaginou que um vírus de origem do outro lado do mundo, na China, chegaria ao município de Guzolândia, no interior de São Paulo, com cerca de cinco mil habitantes. Mas, o último boletim epidemiológico da Prefeitura indicou que já são 15 óbitos e 299 casos da doença na cidade.

Entre as estatísticas de mortes em Guzolândia, estão o pai, Antônio Carlos Sena, de 56 anos, e a avó de Gabriel, Clarice Ferreira, de 78 anos. 

Ele perdeu os dois familiares em um intervalo de apenas três dias, a avó no dia 26 de fevereiro deste ano e o pai no dia 1º de março. "Os dois foram infectados juntamente com uma tia e um tio da mesma cidade, mas que agora não estão mais hospitalizados e se recuperam em casa. Nós não fazemos ideia de como os quatro acabaram sendo contaminados, mas infelizmente a Covid-19 bateu na porta de casa", conta o publicitário. 

Gabriel vive hoje em Araçatuba, a cerca de 80 quilômetros de sua cidade natal. Como a mãe era a única saudável, ele lembra que ela precisou levar os familiares nos hospitais por conta do agravamento do quadro clínico deles. "Tudo isso durou cerca de 17 dias e com certeza foram momentos apreensivos e exaustivos. Eu não conseguia dormir direito, tive crises de ansiedade por conta da demora no recebimento de informações por parte das equipes médicas, sei que está tudo um caos, mas as informações eram essenciais para manter a esperança de melhora deles". Por morar longe, ele recebia as notícias da família por ligações da mãe. 

Gabriel ao lado da mãe e do pai
Foto: Arquivo Pessoal
Gabriel ao lado da mãe e do pai

Gabriel conta que quando se recuperava da notícia da morte do pai e da avó, soube que uma tia, Dilma Pereira Leite, moradora de Porto Velho, em Rondônia, também havia falecido por complicações da Covid-19. "Infelizmente o final disso tudo não foi feliz. E foi aí que o baque maior veio. Não é fácil perder um ente querido, ainda por cima perder três dessa forma. Acho que a pior parte nisso é não poder velar os corpos, ter um enterro digno, foi apenas do hospital direto pro cemitério, sem nem vê-los por uma última vez. Eu carreguei os dois caixões e isso está muito forte na minha memória ainda". 

Ao lado da mãe, Gabriel junta forças para continuar a vida, mas é crítico ao cenário do país e acha que os seus familiares poderiam ter sido poupados se a postura do Brasil fosse outra. "Se as ações fossem mais concretas, se realmente existisse uma gestão séria, talvez o vírus não estivesse tão disseminado. É muito estranho pensar que um vírus que surgiu do outro lado do mundo, chegou em uma cidade de cinco mil habitantes e matou meu pai e minha avó. E isso hoje virou só mais um número diante da catástrofe que estamos", lamenta. 


Quais os principais erros do Brasil no combate à Covid-19?

Para entender como o Brasil chegou ao pior cenário da crise sanitária, o iG conversou com especialistas que apontaram os principais erros cometidos, as responsabilidades e as perspectivas para as próximas semanas.

Há um consenso entre epidemiologistas e virologistas de que as medidas de combate à Covid-19 do Brasil nunca foram suficientes.

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A epidemiologista Ethel Maciel, pós-doutora pela Universidade John Hopkins e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), descreve que a crise sanitária no Brasil é uma consequência direta do negacionismo do governo federal. 

"Entre os principais erros estão não considerar utilização de máscaras, o não distanciamento físico, a falta de proposição de medidas de restrição de circulação, a própria descrença na vacina, que fez com que não fizessem acordos com as farmacêuticas o quanto antes. O negacionismo foi o que de fato nos levou aonde estamos", explica a professora.

Maciel lamenta ainda que a ausência da gestão federal obrigou os estados a terem que tomar medidas de forma isolada. "Fora toda a condução desastrosa indicando tratamentos sem comprovação científica e vendendo falsas promessas", pontua. 

Ao menos três estados brasileiros não têm mais vaga de UTI disponível para pacientes com Covid-19
Foto: Tempura/iStock
Ao menos três estados brasileiros não têm mais vaga de UTI disponível para pacientes com Covid-19


Alerta foi feito em novembro

Domingos Alves, pesquisador da faculdade de medicina da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, explica que o momento da pandemia se mede dentro dos hospitais e nas estatísticas e o diagnóstico é o mesmo: "Faltou e falta  controle efetivo da disseminação do vírus no Brasil", destaca.

O professor ressalta ainda que a crescente de casos e óbitos foi alertada por toda a comunidade científica desde o mês de novembro de 2020. "A gente já sabia que chegaríamos a esse cenário, e nada foi feito. Por exemplo, quando tudo piorou no Amazonas, muitos estavam preocupados com as eleições, festas de fim de ano, Carnaval, as férias, sem ser tomada nenhuma medida para conter o vírus", lembra.

Para Domingos, não há monitoramento dos casos e nem testagem em massa no Brasil. O pesquisador diz ainda que ao contrário do que muitos governantes falam, a nova variante brasileira do coronavírus, a P1 (de Manaus) não é a responsável pelo que obversvamos hoje. "Isso é balela. Na verdade, a disseminação das novas variantes é conseuquência da falta de gestão da pandemia no país. Nunca se fez um processo de monitoramento do aparecimento dessas cepas. Se deixou o vírus se expandir livre, leve e solto, nem barreiras sanitárias fizeram", critica.

Lockdown virou "palavrão" e perspectivas de melhora estão distantes


No último dia 17 de março, o presidente do Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass) e secretário de Saúde do Maranhão, Carlos Lula, afirmou que  prevê forte pressão sobre o sistema de saúde do país nas próximas seis semanas. "Com o nível de ocupação dos leitos, que nós estamos tendo no atual momento, a gente começa a perder pacientes na fila. Isso tem acontecido, sobretudo, no sudeste do país, que são os maiores sistemas de saúde do Brasil. Essa situação ainda deve se agravar. A gente continua com o sistemas lotados, com a fila muito grande, eu acredito que nós teremos seis semanas muito difíceis, até meados de abril", disse.

Domingos concorda com o ponto de vista do Conass e é ainda mais criterioso. 
"Nós vamos chegar aos 400 mil óbitos, com o total abandono do sistema de saúde brasileiro. O que vamos colher neste mês de março e no próximo, é um resultado nunca visto no país até o momento. As taxas de mortalidade vão aumentar muito", aponta o professor. 

Com a vacinação no país em ritmo lento, com atrasos no cronograma de produção das doses a serem entregues a perspectiva é de não resolver a crise no curto prazo. O professor Domingos Alves explica que em uma análise mais conservadora, no começo de abril, o Brasil terá 100 mil casos do novo coronavírus por dia.

Para tentar remediar a disseminação do vírus, o pesquisador aposta em um lockdown nacional de no mínimo 15 dias. "Lockdown virou palavrão. Inclusive o governo federal tenta judicializar estados que esta tomando medidas parecidas com o lockdown. Não existe lockdown de final de semana, não existe um lockdown de cinco ou seis dias. Para se ter um efeito concreto, estas medidas restritivas de restrição de mobilidade de pessoas, para conter a transmissão do vírus e para desafogar o sistema de saúde, têm que ser feitas por no mínimo 15 dias", diz o professor.

"Mas, se nada for feito, a mortalidade vai ficar difícil de registrar porque muitas das pessoas que vão começar a morrer por falta de atendimento em casa ou na porta dos hospitais e não vão entrar nas estatísticas", conclui Domingos. 

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