Paciente chegando de ambulância em hospital de Manaus
Vinícius Lemos, BBC News Brasil em São Paulo
Manaus está em situação de colapso, com insuficiência de respiradores e cilindros de oxigênio para o tratamento de pacientes graves da Covid-19

"A forma como os sintomas avançam, a velocidade com a qual os pacientes pioram, entram em sepse e morrem, só acontece aqui". O relato é do médico intensivista Luan Menezes, que atua na linha de frente do combate à Covid-19 em Manaus.

A capital amazonense, que já havia batido o recorde de sepultamentos no início da pandemia, enfrenta nova situação crítica nesta segunda. Com déficit de leitos e de oxigênio nos hospitais públicos  — e se aproximando do mesmo cenário nas unidades privadas  —, a cidade tem transportado pacientes para outros estados e tem  dependido de doações e de importação de oxigênio do seu  país vizinho, a Venezuela.

Com a escassez dos equipamentos necessários para a ventilação dos pacientes, profissionais da saúde se desdobram para salvar os internados, recorrendo inclusive à ventilação manual, prática conhecida popularmente como "ambuzar paciente" — técnica extremamente exaustiva para o operador.

Segundo o médico Luan Menezes, que atua no hospital Delphina Rinaldi Abdel Aziz, em Manaus, a variante do Sars-Cov-2 que acomete os doentes da cidade causa quadros com agressividade não vista "em nenhum outro lugar do mundo".

"São pacientes muito graves. Eu tenho tido contato com médico de outros estados, e a forma como os sintomas avançam, a velocidade com a qual os pacientes pioram, entram em sepse e morrem, só tem aqui. É uma situação apocalítica, as pessoas estão morrendo a rodo", diz.

"Os doentes pioram muito rápido, intubam muito rápido, chocam muito rápido... falência pulmonar muito rápido, falência renal muito rápido. Não tem doente grave como tem aqui em nenhum lugar do mundo A gente está levando a medicina intensiva para outro nível."

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O médico relata, ainda, que, diferentemente do que era observado no início da pandemia, há cada vez mais pacientes jovens com quadros graves da doença.

"Noticiamos a pais de que terão de enterrar seus filhos. Na UTI que eu estou, nós perdemos um rapaz de 27 anos. Tem outros dois de 24 anos que também estão muito graves e provavelmente não vão sair da intubação. Isso de idade [que o vírus só é perigoso para idosos] já caiu por terra."

Além do desgaste tanto emocional quanto físico — Luan está de plantão há três dias, sem voltar para casa — existe também o medo de adoecer e levar a doença aos familiares. O médico conta que muitos de seus colegas de equipe contraíram o vírus ou tiveram de largar a escala para cuidar de seus pacientes adoecidos. 

"É muito complicado trabalhar nesse contexto, porque nossos familiares estão doentes. A esposa do meu coordenador ficou doente, teve de ser intubada e ele largou a escala; a mãe da pessoa que assumiu, dias depois foi internada. A escala de médicos está bem difícil de preencher em todos os setores", conta.

Na concepção do médico, as  medidas adotadas pelo governo, tanto estadual quanto federal, não são acertadas. 

"É muito triste ver ações do Ministério da Saúde do Governo Federal indicando situações como tratamento precoce, com medicações que realmente não têm efetividade, porque aqui, na minha cidade, esse negócio de tomar  cloroquina e ivermectina é prescrita a rodo. E as pessoas estão morrendo demais."

Ele diz que só vê a possibilidade de aferrecimento da situação quando a campanha e vacinação estiver em curso. "Não consigo ver outra esperança", finaliza.

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