Como as vacinas funcionam contra a variante Delta da Covid-19
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Como as vacinas funcionam contra a variante Delta da Covid-19


Enquanto a  variante Delta do coronavírus se espalha pelo mundo, pesquisadores estão monitorando quão bem as vacinas protegem contra ela — e obtendo respostas diferentes. Mas os estudos realizados até agora indicam que a maioria dos imunizantes contra a Covid-19 são muito efetivos em evitar hospitalizações e têm geralmente protegido contra a variante identificada pela primeira vez na Índia.

Os primeiros casos da cepa no Brasil foram registrados em maio, em  tripulantes de um navio em São Luís, no Maranhão. Na terça-feira, a prefeitura de São Paulo informou que  investiga a possibilidade de transmissão comunitária da variante na cidade, quando não é possível identificar a origem da infecção. Casos na Baixada Fluminense também indicam que há possibilidade de transmissão comunitária no Rio de Janeiro.

Estudos sobre a vacina da Pfizer/BioNTech mostraram diferentes resultados sobre a proteção contra a variante. Na Grã-Bretanha, pesquisadores relataram em maio que duas doses do imunizante tiveram uma efetividade de 88% na proteção contra a Covid-19 sintomática provocada pela Delta. Um estudo realizado em junho na Escócia concluiu que a vacina foi 79% efetiva contra a variante. No sábado, uma equipe de pesquisadores do Canadá calculou sua efetividade em 87%.

E na segunda-feira, o Ministério da Saúde de Israel anunciou que a efetividade da vacina da Pfizer foi de 64% contra todas as infecções por coronavírus, abaixo de cerca de 95% em maio, antes da variante Delta começar sua escalada para o domínio quase total no país.

Embora a variação desses números possa parecer confusa, especialistas dizem que isso é esperado porque é difícil para um único estudo apontar com precisão a efetividade de uma vacina.

"Nós apenas temos que juntar tudo como pequenas peças de um quebra-cabeça, e não colocar muito peso em nenhum número", disse Natalie Dean, bioestatística da Universidade de Emory.

Dificuldade para medir efetividade no mundo real

Em ensaios clínicos, é relativamente fácil medir o quão bem as vacinas funcionam. Os pesquisadores designam aleatoriamente milhares de voluntários para receber um imunizante ou um placebo. Se o grupo vacinado tem menor risco de adoecer, os cientistas podem ter certeza de que foi a vacina que os protegeu.

Mas, uma vez que os imunizantes chegam ao mundo real, fica muito mais difícil medir sua efetividade. Os cientistas não podem mais controlar quem recebe a vacina e quem não recebe. Se eles compararem um grupo de pessoas vacinadas a um grupo de pessoas não vacinadas, pode haver outras diferenças entre os dois grupos que influenciam seus riscos de adoecer.

É possível, por exemplo, que as pessoas que optam por não ser vacinadas tenham maior probabilidade de se colocar em situações em que podem ser expostas ao vírus. Por outro lado, os idosos podem ser mais propensos a serem vacinados, mas também têm mais dificuldade em se defender de uma variante agressiva. Ou um surto pode atingir parte de um país onde a maioria das pessoas foi vacinada, deixando as regiões com pouca vacinação ilesas.

Uma maneira de descartar essas explicações alternativas é comparar cada pessoa vacinada em um estudo com uma contraparte que não recebeu a vacina. Os pesquisadores muitas vezes não medem esforços para encontrar um parceiro não vacinado, procurando pessoas da mesma idade e condições de saúde. Eles podem até mesmo combinar pessoas na mesma vizinhança.

"É preciso um grande esforço", disse Marc Lipsitch, pesquisador de saúde pública da Escola de Saúde T.H. Chan de Harvard.

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Para o novo estudo, o Ministério da Saúde de Israel não se esforçou tanto para descartar outros fatores:

"Temo que a atual análise do Ministério da Saúde israelense não possa ser usada para avaliá-la com segurança, de uma forma ou de outra", escreveu no Twitter Uri Shalit, conferencista sênior do Technion — Instituto de Tecnologia de Israel.

Os números de Israel também podem ser diferentes devido a quem está sendo testado. Grande parte do país está vacinada. Durante surtos locais de novas infecções, o governo exige testes para qualquer pessoa — com ou sem sintomas — que entrou em contato com uma pessoa com diagnóstico de Covid-19.

Em outros países, é mais comum que as pessoas façam o teste porque já estão se sentindo mal. Isso pode significar que Israel está detectando mais casos assintomáticos em pessoas vacinadas do que em outros lugares, reduzindo a taxa de efetividade relatada.

Vacinas são muito efetivas em evitar hospitalizações

Felizmente, os estudos disponíveis até agora concordam que a maioria dos imunizantes são muito efetivos em manter as pessoas fora dos hospitais, inclusive no caso da variante Delta. O Ministério da Saúde de Israel estimou que a vacina da Pfizer é cerca de 93% efetiva na prevenção de doenças graves e hospitalização.

"Suas implicações gerais são consistentes: a proteção contra doenças graves permanece muito alta", disse Naor Bar-Zeev, professor associado da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg.

Como os estudos de efetividade são tão complicados, será preciso mais trabalho para determinar o tamanho da ameaça que a Delta representa para as vacinas. Lipsitch disse que estudos em mais países seriam necessários.

Na quinta-feira, a Johnson & Johnson anunciou em comunicado que sua vacina, também em uso no Brasil, é eficaz contra variante Delta, sem informar detalhes sobre os níveis de proteção.

A análise da agência de saúde pública do governo britânico sobre a Pfizer, divulgada em maio, também avaliou a vacina de Oxford/AstraZeneca e mostrou que a efetividade contra a doença sintomática causada pela variante foi de 60%, com duas doses. Após apenas a primeira dose, os dois imunizantes foram 33% efetivos contra a cepa.

Dados divulgados em junho pela agência apontam que a vacina da Pfizer se mostrou 96% efetiva contra a hospitalizações causadas pela variante, e a da AstraZeneca 92%, também após as duas doses..

O relatório de pesquisadores da Escócia, divulgado em junho, também mostrou que no caso da vacina da AstraZeneca a proteção observada foi de 60% contra a Delta. Os autores analisaram dados da população do país e alertaram que as comparações devem ser interpretadas com cautela, por serem dados observacionais.

Ainda não foram divulgados dados sobre a proteção oferecida pela CoronaVac contra a Delta. O Instituto Butantan, que produz o imunizante no Brasil, informou na sexta-feira que a Sinovac está realizando estudos sobre o uso da vacina contra a variante.

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