Como surgem as variantes da Covid-19? Especialistas explicam
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Como surgem as variantes da Covid-19? Especialistas explicam

As vacinas contra a Covid-19 chegaram, mas junto com elas também as  variantes do coronavírus, que geram muitas dúvidas em algumas pessoas. Como elas se formam? Elas são mais perigosas que o vírus original? As variantes vão acabar com a proteção das vacinas? O iG conversou com especialistas e te explica agora sobre o assunto.

Um vírus, como é o caso da Covid-19, sofre processos de transformação de maneira recorrente. Segundo especialistas, as mutações são normais e acontecem com todos, não apenas com o coronavírus. "Vírus são organismos muito simples, composto por um material genético muito pequeno que utilizam o sistema celular do hospedeiro para se replicar", explica o imunologista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Ricardo Khouri.

"O SARS-CoV-2 (vírus da Covid-19) possui um genoma que armazena as informações de suas características moleculares e biológicas. Durante o processo de replicação viral dentro da célula, o vírus sofre diversas mutações, a grande maioria deletéria, que poderão ser mantidas nas próximas gerações virais por favorecer ou simplesmente não prejudicar o processo replicativo do vírus", complementa o pesquisador.

O diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Renato Kfouri, completa dizendo que “as variantes aparecem normalmente”, inclusive em um número muito grande, mas poucas de fato se tornam realmente preocupantes.

"Cada vez que os vírus se copiam, eles sofrem mutações e essas mutações acontecem milhares de vezes. Quando uma mutação modifica uma proteína chamada de S, ela começa a ser uma mutação que desperta um interesse e aí a gente cria o que é chamado de ‘variantes de interesse’, porque essa proteína S com a configuração diferente pode ganhar mais transmissibilidade e ser mais perigosa".

E completa: "Quando uma variante de interesse acaba ganhando uma capacidade de transmissão muito grande, ela predomina e acaba virando uma variante de preocupação (...) Até agora quatro variantes de proocupação já foram identificadas pela OMS, a Alpha (Reino Unido), Beta (África do Sul), Gama (Brasil) e Delta (Índia)".

Em resumo, uma variante é uma cepa do vírus que tem algum tipo de mutação e que, normalmente, dá a ela maior chance de ser transmissível e perigosa. "A variante acontece dentro de nós mesmos. Dentro do meu corpo tem vírus diferentes cada vez que ele se multiplica. Quanto mais ele circula e se multiplica maior a chance de surgir mais variantes", completa Kfouri.

Todas as mutações transformam o vírus em uma versão mais perigosa? Não necessariamente. A maioria das mutações não trazem vantagens adaptativas para o vírus, dizem os especialistas ouvidos pelo iG.

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O que favorece o surgimento dessas variantes?

Para os especialistas ouvidos, o descontrole da doença e a alta circulação de pessoas ajuda o vírus a se replicar mais e, consequentemente, a poder criar novas cepas. O médico e epidemiologista José Geraldo diz que o "descontrole da doença" é o problema. "Por isso as medidas de contenção, principalmente a vacinação com as duas doses, o afastamento social, o uso de máscaras, impactam diretamente o surgimento de variantes".

"Nós temos que lembrar que essa é uma pandemia global, e que até o momento só os países com mais recursos e países médios financeiramente estão conseguindo vacinar sua população", completa.

A OMS já declarou preocupação quanto ao nível de distribuição das doses de vacinas pelo mundo. Segundo reportagem publicada, 75% das vacinas foram para apenas 10 países.

O diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, fez um alerta em relação ao rumo que a distribuição de vacinas contra a Covid-19 tomou. Segundo o diretor, "mais de 3,5 bilhões de vacinas foram distribuídas globalmente. Porém, mais de 75% delas foram para apenas dez países", alertou Tedros.

Segundo a diretora-geral da OMC, 1,1 bilhão de doses foram produzidas no mundo no mês de junho, mas apenas 1,4% foram destinadas para países africanos, que representam 17% da população mundial. Já os países mais pobres do mundo receberam apenas 0,2% das vacinas produzidas no último mês.

"Nos países ricos, 94 doses foram administradas para cada cem pessoas. Na África, são apenas 4,5 por 100 pessoas e, nos países mais pobres, apenas 1,6 por cada cem habitantes", afirmou a diretora.

José Geraldo completa dizendo que "se grande parte do mundo, que é constituído de países de baixo rendimento, não for vacinada, esse risco de surgimento de variantes e a sua disseminação pela população mundial vai continuar".

Essas variantes podem tornar as vacinas ineficazes?

Sim, as variantes podem tornar alguma vacina ineficaz, mas, para isso acontecer, o vírus precisa sofrer mutações que aumentem sua capacidade de transmissibilidade. "Variantes surgem espontaneamente durante o processo replicativo viral. Num contexto de alta transmissibilidade e infecção entre indivíduos já recuperados ou vacinados, é possível que algumas dessas variantes possam ser selecionadas com capacidade de escapar da resposta imunológica montada pela vacina, levando a falha vacinal", afirma Ricardo Khouri.

Mas vale lembrar, não temos nenhuma variante em circulação que torne uma vacina ineficaz. Todos os imunizantes ofertados hoje no Brasil protegem contra as cepas, portanto, a vacinação continua como sendo a melhor maneira de conter a curva de contágios e mortes pela Covid-19.

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