Covid-19: Confirmada em alguns países, 3ª dose de ainda é controversa
Agência Brasil
Covid-19: Confirmada em alguns países, 3ª dose de ainda é controversa

Sete meses após a aplicação da primeira dose de vacina contra a  Covid-19 inaugurar o programa de imunização brasileiro contra o coronavírus, a discussão que toma conta do processo no país é a aplicação de uma dose extra, a terceira, em pessoas já duplamente vacinadas.

O tema divide opiniões. Por um lado, alguns países avançam em liberações do tipo, como forma de oferecer proteção extra às pessoas que podem ter resposta imune prejudicada, pela idade avançada ou problemas de saúde. A estratégia, inclusive, já é discutida pelo Ministério da Saúde, afirmou a secretária de Enfrentamento à Covid-19 da pasta, Rosana Leite Melo.

Por outro, a  Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta para o risco de a prática fortalecer ainda mais a distribuição desigual de vacinas ao redor do mundo. Sobretudo porque o avanço da pandemia se dá de forma global, o que transforma a imunização numa tarefa coletiva, necessária para todas as nações — e não só as mais ricas.

Novos estudos dedicados a compreender a necessidade de uma terceira aplicação — e para quais grupos ela ofereceria maior ganho — estão em curso no Brasil. Ontem, foi iniciada uma análise com pessoas acima de 18 anos, previamente imunizadas com as duas etapas da CoronaVac, o imunizante responsável por iniciar o cronograma de vacinação brasileiro e, portanto, aplicado em parcela importante dos grupos prioritários.

Trata-se de avaliação encomendada pelo ministério, sob liderança da pesquisadora Sue Ann Costa Clemens, da Universidade de Oxford. A ideia é recrutar 1.200 voluntários com idade superior a 18 anos.

"O próximo ano de imunização tem que ter uma estratégia desenhada com evidências científicas", explica Clemens, que também comanda o estudo com a terceira dose da AstraZeneca no país.

Ela diz que por meio dessas pesquisas será possível determinar qual subgrupo seria mais beneficiado com a aplicação extra e qual imunizante será o mais adequado para o reforço. Portanto, na pesquisa com a CoronaVac será considerada a aplicação da terceira dose com a mesma vacina ou com a inoculação das outras três aprovadas no Programa Nacional de Imunizações (PNI): Janssen, Pfizer e AstraZeneca.

Alguns estados já se adiantaram. O secretário de Saúde de Mato Grosso do Sul, Geraldo Resende, afirmou ao GLOBO que pediu ao ministério a autorização para aplicar uma dose de reforço em 350.000 pessoas — com idade superior a 60 anos.

O Rio, por sua vez, vai testar o reforço em idosos na Ilha de Paquetá, como parte do estudo PaqueTá Vacinada. Eles receberão doses extras de AstraZeneca e Pfizer. A análise prevê intercâmbio de imunizantes.

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Na semana passada, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) pediu à Pfizer informações sobre estudos que indicariam a importância da terceira dose para pacientes com comprometimento no sistema imune. A mesma agência já aprovou, em julho, um estudo da mesma farmacêutica para avaliar a segurança, produção de anticorpos e eficácia de uma dose de reforço aos que já têm esquema vacinal completo. Outra análise liberada pela agência avalia cenários com terceira dose em indivíduos previamente vacinados com a AstraZeneca, a mais usada no Brasil.

Decisões internacionais

A discussão que ganha espaço no Brasil vem na esteira de recentes decisões internacionais. Uma delas foi anunciada pela Food And Drug Administration (FDA), a agência reguladora de medicamentos dos EUA, que definiu a aplicação de uma terceira dose às pessoas que têm sistema imunológico enfraquecido. No país, foram usadas as vacinas da Pfizer e da Moderna.

Em Israel, pessoas com mais de 50 anos e profissionais da saúde, entre outros, são elegíveis para receber a picada extra, com a vacina da Pfizer, responsável por imunizar com esquema de duas etapas uma taxa correspondente de 67% de todos os moradores do país, de acordo com informações do portal Our World In Data.

Chile e Uruguai também deram sim a um complemento, com outras vacinas, à população anteriormente imunizada com a CoronaVac, da farmacêutica Sinovac — a segunda vacina mais aplicada no Brasil.

Em geral, esses países afirmam que as medidas são uma forma de proteger as pessoas nas quais os imunizantes perdem mais efetividade, com o passar do tempo. A redução é preocupante porque, normalmente, em populações específicas (como os idosos e imunossuprimidos) a resposta gerada pela vacina já é menor, de início. Com a circulação da variante Delta, mais transmissiva, e sobre a qual existem indicativos de que as vacinas são menos potentes, o temor ganha contornos ainda maiores.

"Esse chamado “booster” de vacina é um “empurrão”. Isso só acontece porque o paciente tomou a primeira e a segunda doses. É uma defesa complexa, na qual o corpo se acostuma com a presença do antígeno e vai formando sua proteção", diz o geneticista Salmo Raskin, diretor do laboratório Genetika, em Curitiba.

A perda de força das vacinas entre as pessoas com mais idade está ligada ao funcionamento do corpo. Trata-se de um fenômeno chamado de imunossenescência, o envelhecimento do sistema imunológico, que passa a ter dificuldades em apresentar uma resposta adequada às doenças, sobretudo às novas.

Diante desse fator, o pesquisador Julio Croda, da Fiocruz e da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, ressalta que o Brasil deve, sim, debater a viabilidade da terceira dose para os idosos e outros grupos prioritários. A decisão de aplicar ou não, ele diz, é difícil e técnica e, portanto, deve estar focada em conter o número de casos e mortes, entre os mais vulneráveis, que podem ser causadas pela variante Delta.

Para além das respostas científicas preliminares — especialistas dizem ser necessário avançar mais nos estudos para compreender qual é o momento adequado para a aplicação dessa dose —, o Brasil enfrenta um problema crônico relacionado à imunização “original”, com duas doses. A cobertura da segunda etapa, fundamental para proteger a população de todas as cepas conhecidas, ainda está abaixo de 25%.

"Temos que, primeiro, vacinar toda a população com a segunda dose (antes de partir para a terceira). Precisamos fortalecer a vacinação. Fora do Brasil há incentivo de empresários, com pagamento do transporte de quem vai vacinar, por exemplo. Se quiserem parar a pandemia precisamos imunizar todo mundo", afirma a imunologista Cristina Bonorino, membro dos comitês científico e clínico da Sociedade Brasileira de Imunologia.

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