A enfermeira do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, foi a primeira a ser vacinada contra o novo coronavírus no Brasil
Foto: Divulgação/Governo de São Paulo
A enfermeira do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, foi a primeira a ser vacinada contra o novo coronavírus no Brasil

No último dia 17 de janeiro, a enfermeira Mônica Calazans, 55, saiu de sua casa por volta das 5h30, no bairro do Itaquera, na zona leste de São Paulo, como sempre faz. Ia para mais um dia de trabalho na UTI do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, no bairro do Pacaembu. Como de costume, fez uso do transporte público e chegou pontualmente ao hospital para iniciar o plantão. Naquele mesmo dia, em Brasília, a Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) votava a autorização do uso emergencial da vacina de Oxford e da CoronaVac.

Sem televisão para acompanhar a votação - e sem tempo, devido às demandas do serviço - Mônica estava focada em seu trabalho. Quando o relógio se aproximava do meio-dia, uma diretora telefonou informando que a enfermeira foi escolhida para ir ao Centro de Convenções Rebouças do Hospital das Clínicas. E lá entrou para a história: foi a primeira brasileira vacinada contra a Covid-19.

Neste dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o iG traz uma entrevista exclusiva com Mônica, para contar mais sobre a mulher que emocionou o país e encheu de esperança milhões de brasileiros que sonham com o fim da pandemia provocada pelo novo coronavírus.

"Eu já tinha feito evolução de pacientes, cuidado dos internados da minha escala, quando ela me ligou e falou sobre a primeira dose. Até então, eu achava que seria vacinada junto com os outros profissionais de saúde", relembra Mônica. 

Ao chegar no auditório, ela sentou ao lado de outros colegas e aguardou a sua vez. Eram muitas câmeras, muitos jornalistas e equipes do governo estadual no local. Mônica ainda não sabia, mas sua foto já circulava em alguns portais de notíciais. Ela seria a escolhida para tomar a primeira vacina aplicada no Brasil. "Uma médica do meu lado tirou o celular da bolsa e me falou que eu seria a primeira porque uma jornalista já tinha recebido a informação de que era eu, foi uma surpresa maravilhosa, eu não esperava", conta a enfermeira, que logo após a decisão favorável da Anvisa, subiu no auditório e entrou para a história.

Veja o momento:


A enfermeira Mônica Calazans recebe a segunda dose da vacina contra Covid-19
Foto: Divulgação/Governo de São Paulo

A enfermeira Mônica Calazans recebe a segunda dose da vacina contra Covid-19

Seguindo o  protocolo do intervalo entre as doses, no dia 12 de fevereiro, Mônica recebeu a segunda dose da CoronaVac durante entrevista coletiva do governo de São Paulo. "É um prazer estar aqui mais uma vez, sabendo que tenho uma representatividade muito grande", disse na ocasião. "Vou continuar, junto com todos os brasileiros, usando máscara até que todos estejamos vacinados". 

Quase dois meses depois da primeira dose, a enfermeira ainda recebe muitos ataques, inclusive racistas. Mas ela prefere não dar ênfase aos xingamentos. "Não vou alimentar esse tipo de atitude. As pessoas têm opiniões formadas e não posso mudar isso. Ninguém é obrigado a gostar de mim, ninguém é obrigado a gostar da minha cor ou do que eu faço. Mas eles precisam me respeitar. Antes de falar qualquer coisa da minha pessoa, conheça a minha história. Eu fiz uma coisa de cunho de saúde pública, isso que importa. Dei o pontapé inicial, a vacina está aí e a ciência venceu", afirma Mônica. 

Em dezembro de 2020, a enfermeira foi homenageada pelo prêmio Notáveis CNN, por sua luta contra o novo coronavírus.

Mônica se formou em enfermagem aos 47 anos

Mulher, negra e peça fundamental na linha de frente no  combate à Covid-19 no Brasil, Mônica é inspiração tem uma história longa com a saúde pública do país.

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A enfermeira atua no Hospital Emílio Ribas, na linha de frente contra a Covid-19
Foto: Arquivo Pessoal
A enfermeira atua no Hospital Emílio Ribas, na linha de frente contra a Covid-19

Em 1985, ela iniciou sua carreira profissional no Hospital das Clínicas (HC), em São Paulo, e trabalhava como escriturária. Dentro das enfermarias, Mônica tinha acesso aos pacientes, mas apenas com questões burocráticas, como prontuário e medicação.

"Um dia, um paciente me pediu água e eu não pude dar porque eu não tinha acesso aos cuidados dele. Eu lembro que ele não entendeu a minha posição e pensou que eu não queria fazer por preguiça. Acho que nesse momento eu pensei que o meu papel estava muito limitado dentro do hospital", afirma Mônica. 

Por isso, resolveu fazer um curso para ser auxiliar de enfermagem e passou em 1998 no concurso público do HC. Depois de trabalhar por 26 anos como auxiliar, voltou a estudar e se formou na faculdade de enfermagem aos 47 anos. Em 2018, já formada em enfermagem, ingressou no Pronto Atendimento (PA) São Mateus, contratada pela Fundação ABC.

A força da mulher na linha de frente 

Defensora da ciência e da vacina, Mônica foi voluntária na terceira fase de testes da CoronaVac
Foto: Arquivo Pessoal
Defensora da ciência e da vacina, Mônica foi voluntária na terceira fase de testes da CoronaVac

Mônica também é do grupo de risco, obesa, hipertensa e diabética. Apesar disso, em maio de 2020, a enfermeira se inscreveu para trabalhar no Emílio Ribas, que havia abertos vagas no regime de CTD (Contrato por Tempo Determinado). No hospital, ela foi voluntária na terceira fase de testes da CoronaVac.

"Eu trabalho de domingo a domingo, com algumas folgas, tenho dois empregos. Um dia em cada local. São 12 horas de plantão todos os dias", conta a enfermeira, que se considera uma mulher forte e de muita fé. "Não é fácil lidar com morte o dia inteiro. Perder pessoas, mesmo que não seja próxima, machuca muito porque aquela pessoa é querida por outras. Mas, eu preciso manter o meu equilíbrio e sair de casa todos os dias para trabalhar", acrescenta.

Conforme dado divulgado pela ONU Mulheres, as mulheres, em seu conjunto, correspondem a 70% do total de profissionais que atuam na linha de frente no combate à Covid-19.

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Mônica diz que a grande maioria na área de saúde no combate à pandemia são mulheres. "Dá para contar nos dedos quantos homens têm. A mulher tem mais cuidado, a dedicação é maior, é da mulher essa questão. Eu sou feliz porque conquistei o respeito na minha profissão", diz. 

Uma mulher de fé

Mônica com o filho Felipe e a sobrinha Ana
Foto: Arquivo Pessoal
Mônica com o filho Felipe e a sobrinha Ana

Defensora da ciência e com muita fé de que o mundo vai vencer a Covid-19, Mônica busca nas orações a força para continuar trabalhando todos os dias. "A minha rotina está cansada. A gente está trabalhando muito, não só eu como todos os profissionais da saúde. O número de casos está aumentando, infelizmente, e o perfil dos pacientes está mudando. Há um ano, a gente recebia mais idosos, pessoas com comorbidades. Hoje não mais. Esse perfil mudou e recebemos muitos jovens saudáveis", conta. 

"Eu agradeço a Deus por ter essa força, por conseguir me deitar e levantar todos os dias, para ajudar os meus colegas que estão trabalhando. Eu tenho muita fé, o suficiente para acreditar que a gente vai passar por isso", analisa a enfermeira. 

Nas poucas folgas que ela tem, prefere limpar a casa, cuidar do filho e visitar a mãe, de 72 anos. Apaixonada por samba, Mônica sente falta de frequentar barzinhos e ouvir um pagode. Outro amor é o Carnaval. Ela conta que desfilou algumas vezes em escolas de samba e que é fã da Vai-Vai. "Sinto falta, mas não é o momento agora", diz. Em casa, ela prefere maratonar séries e filmes. 

Sem o lazer que mais gosta, Mônica Calazans prefere focar no seu trabalho e não pensa em parar tão cedo. "Eu sou muito bem resolvida com relação a minha profissão, pretendo continuar por muito anos ainda. Enquanto as unidades deixarem eu trabalhar, vou continuar trabalhando, me acho nova. Não sei fazer tricô, não sei fazer crochê, só sei trabalhar". 

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