Aposentada leva terapia do abraço à Cracolândia

Por Fernanda Aranda , fotos Edu César |

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Albertina França, 70 anos, caminha uma vez por semana à noite pelo Centro para levar afeto aos usuários de crack e incentivá-los a buscar tratamento

Os passos curtos conduzem Maria Albertina França, 70 anos, pela rua Gusmões, um dos epicentros da zona paulistana conhecida como Cracolândia. O caminhar lento da senhora pela via coincide com o apagar dos cachimbos recheados com crack, em sinal de respeito. A área que o governo municipal quer chamar de Nova Luz fica em plena escuridão.

“Dona Tina vem aí”, anuncia um dos meninos sentado na calçada, droga recém-apagada em punho e cobertor enrolado no pescoço. Alguns levantam e cercam a mulher, prontos para receber a terapia idealizada pela assistente social aposentada.

“Uma vez por semana, venho até aqui (sozinha e à noite) trazer abraços”, explica sobre o método, empregado há um mês e de forma voluntária, para contribuir com o resgate da dependência química no local.

Maria Albertina França, 70 anos, é a Dona Tina. Ela resolveu levar abraços a região de São Paulo mais endêmica no uso do crack. Foto: Edu CesarUma vez por semana, ela caminha sozinha à noite pela Cracolândia para abraçar e ouvir as demandas dos usuários: 'quem pita é quem apita', acredita. Foto: Edu CesarEla aborda os usuários do local e oferece um pouco de afeto. Quem aceita a receber, em geral, chora compulsivamente. Foto: Edu Cesar"Aprendi a força de um abraço com eles", diz a Dona Tina. Foto: Edu CesarDona Tina acredita que a política pública efetiva para os usuários do crack precisa de afeto e das vozes deles. Foto: Edu CesarTina não nega abraços por onde passa e os oferece para pessoas em situação de rua, donos de bar, comerciantes e estudantes do Centro. Foto: Edu Cesar"Ganhei meu ano", foi uma das frases dita em retribuição ao abraço da assistente social aposentada. Foto: Edu CesarNão raro, Tina ganha presentes dos moradores da cracolândia e leva todos os enfeites para a casa. Foto: Edu CesarEla também mora no centro paulistano e um dos últimos presentes que ganhou foi um cachorro de pelúcia. Foto: Edu CesarDona Tina diz que vai levar as demandas dos usuários de crack ao poder público. Foto: Edu CesarEla termina o "abraçasso" da Cracolândia em uma roda de samba no centro e lá continua a terapia com todos que se aproximam. Foto: Edu Cesar

A terapia do afeto de dona Tina compõe – e contrasta – com o mosaico de iniciativas governamentais e de entidades do terceiro setor para brigar contra o uso compulsivo de crack em uma das regiões mais endêmicas do País.

O primeiro censo realizado pela Universidade Federal de São Paulo, divulgado este ano, apontou 1 milhão de usuários da droga no Brasil. A Cracolândia paulistana reúne parte deles, a céu aberto, em uma mistura de sotaques nacionais e até internacionais.

“Me faz lembrar da minha ‘abuela’ (avó em espanhol)”, diz Cristina Isabel, argentina, trinta e “alguns” anos de idade, em referência à dona Tina. São dez anos em São Paulo, cinco anos de crack e “cinco anos sem abraçar ninguém, trocando qualquer gesto por pedra, vivendo sozinha e cercada por interesseiros”, contabiliza Cristina, em um choro compulsivo, ao soltar o abraço e partir pela Gusmões dizendo que o encontro com a aposentada a fez “ganhar a noite, ganhar o mês, na verdade, ganhar o ano”.

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Quem apita?

A atuação ao estilo ‘carinho de vó’ foi desenhada com base em dois ingredientes nas políticas públicas contra o crack que a aposentada considera fundamentais, porém inexistentes “em tudo que já viu”.

“Em tudo que li, ouvi e participei sempre senti falta de duas coisas: afeto e a voz dos próprios usuários de droga”, avalia Dona Tina, enquanto caminha com os dois braços para trás, do alto de seus 1,50 metro, batom nos lábios e casaco de lã para proteger do frio de 16 graus que marcava a sexta-feira em que a reportagem caminhou com a aposentada pelas ruas do crack.

“Acompanho de perto tudo que já foi pensado para a cracolândia paulistana, desde a revitalização imobiliária, o uso da força policial, a internação à força (chamada de internação involuntária), além da idealização de tratamentos médicos”, afirma.

“Nada funcionou, as coisas só pioraram. Então resolvi botar o meu bloco na rua”, diz ela, que se aposentou do serviço social, mas não “das causas sociais”.

Contraponto: São Paulo usa dor e sofrimento para tratar o crack

Dona Tina, então, vai às ruas semanalmente, abraça os usuários de crack e aproveita o ensejo para ouvir o que eles acreditam ser importante para a área e para a recuperação.

“Quem pita é quem apita” diz ela sobre o slogan do projeto “Aquele Abraço”, idealizado em parceria com o amigo e militante das ruas, o arquiteto Arnaldo de Melo.

“Já marcamos reuniões e a proposta é levar as contribuições dos moradores da cracolândia à Secretaria Municipal de Saúde e à Defensoria Pública.”

Banhos

A oferta de um espaço com chuveiros para uso gratuito dos usuários de droga estampa uma das primeiras anotações de Maria Albertina sobre as demandas locais. Um banho chega a custar até R$ 10 nas pensões que enquadram a cracolândia. O preço pode ser dobro para as mulheres, não raro aliciadas a trocar o corpo por uma chuveirada.

Por vezes, estar limpo é o passaporte para um prato de comida e para a proteção. As mais jovens e mais bonitas, conforme atestado pelo iG, ocupam o posto de vendedoras de pequenas quantidades de crack no local. Acabam protegidas pelo status, em uma condição instável e perigosa, mostrou o relato de uma garota com aparência de 15 anos, em meio ao abraço em Dona Tina.

Na última sexta-feira friorenta, a menina vestindo blusa com o umbigo à mostra, cabelos encaracolados até a cintura e piercing no nariz, confessou estar "cabreira" por ter tomado calote e não saber como prestar contas sobre a dívida.

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Oferecer o banho, acredita dona Tina, pode ser uma maneira de deixá-los menos vulneráveis ao escambo típico do local, que troca pedras por qualquer coisa, até por uma rápida passagem pelo chuveiro.

Edu Cesar
"Descobri com eles a mágica de um abraço", diz Dona Tina

“As pessoas pensam que quem usa crack não tem dignidade, não quer estar limpo, cheiroso, como se isso não fosse importante”, diz.

“Todo mundo gosta também de falar que eles não passam fome aqui no Centro, por receberem comida toda hora. Eu me pergunto: imagina o que é passar a vida sem nunca escolher o que vai comer. Quem se satisfaz com restos?”

Na roda de samba

Foi este questionamento que fez Maria Albertina França deixar a casa em Jaú, interior paulista, onde nasceu e viveu confortavelmente até os 20 anos.

“Escolhi o serviço social como carreira pois sabia que a vida era mais complexa do que a fazenda do meu pai”, diz ela, que logo se instalou no centro paulistano, local da residência e do trabalho.

Ela já atuou com todas as populações consideradas excluídas: menores em conflito com a lei, prostitutas, travestis e moradores de rua. Uma jornada que não deixou tempo para filhos, apesar dos amores vivenciados.

Toda experiência profissional serviu de base para o “Aquele Abraço”, em curso agora. Mas é na roda de samba, no Largo Santa Cecília – onde Dona Tina termina o dia de ‘abraçasso’ na Cracolândia, às 22h – que ela confessa o gatilho da inspiração.

“Sou de uma geração em que a demonstração do afeto pelos pais era rara. Aprendi a abraçar com a população com que atuei. Tinha dificuldade de entrega no início e só então percebi como é mágico abraçar”, lembra, cantarolando as músicas, bebericando o suco de maracujá e comendo a porção de frango à passarinho, dividida com todos que passam pelo local.

São estudantes, donos do comércio, moradores de rua, usuários de droga, policiais, camelôs, taxistas. Ninguém perde a oportunidade de dar um abraço em Dona Tina.

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