Especialistas defendem que CoronaVac seja última opção para 3ª dose
Divulgação/Governo do Estado de São Paulo
Especialistas defendem que CoronaVac seja última opção para 3ª dose

A recente decisão do estado de  São Paulo de incluir a vacina CoronaVac como fármaco a ser usado para doses adicionais ou de reforço (além de Pfizer, Janssen e AstraZeneca) em idosos não está de acordo com os principais indicativos científicos sobre o tema, dizem especialistas em saúde e entidades médicas que  aconselham o Ministério da Saúde. No estado, a aplicação de doses adicionais será iniciada no próximo dia 6 de setembro.

A CoronaVac — responsável por iniciar a vacinação contra Covid-19 no Brasil  e que protegeu os grupos mais vulneráveis do país contra a infecção ao longo dos meses iniciais do ano — não faz parte da lista de imunizantes elencados pelo Ministério da Saúde para esse uso adicional. No resto do país, as aplicações desse gênero serão iniciadas no dia 15 de setembro, preferencialmente com a vacina da Pfizer.

Na falta desta, poderão ser utilizados os outros dois imunizantes do Programa Nacional de Imunizações (PNI), AstraZeneca e Janssen. Na coletiva de imprensa realizada na terça-feira, a decisão federal foi classificada como “preferência do ministro” pelo diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, responsável pela operacionalização da  CoronaVac no Brasil.

A decisão do governo federal — de dar reforço aos maiores de 70 anos e aumentar o esquema vacinal dos imunossuprimidos — foi anteriormente discutida por um comitê técnico do qual participam entidades médicas, conselhos de secretários de saúde, além de médicos convidados. As orientações dos especialistas foram acatadas em sua totalidade, afirmou Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e um dos participantes do grupo.

"A nossa decisão da câmara técnica foi preferencialmente por Pfizer e, em locais onde não tiver, utilizam-se as vacinas de vetor viral, AstraZeneca ou Janssen. Hoje as evidências, em termos de resposta imune nessas populações, mais vulneráveis, mostram que as vacinas de RNA mensageiro (caso da Pfizer), são mais robustas e mais intensas. Induzem níveis de anticorpos maiores", afirma o especialista.

A chave para compreender a opção pela Pfizer, neste caso e para esse grupo, está em sua capacidade de induzir à resposta imune. Um estudo preliminar que dá um indicativo sobre o tema foi publicado na revista Lancet e compara a produção de anticorpos em 93 pessoas vacinadas com a CoronaVac ou Pfizer. Os que receberam a segunda tiveram dez vezes mais anticorpos neutralizantes que a primeira. A análise está ligada à Universidade de Hong Kong, na China.

"O Ministério da Saúde acertou justamente porque seguiu a câmara técnica", afirmou o infectologista Julio Croda, pesquisador da Fiocruz e da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. "Todos os países que usaram vacinas de vírus inativado realizaram esquema heterólogo (com combinação de diferentes plataformas).  A exceção foi a Turquia, que está na quarta dose".

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Outro estudo de relevância nesse sentido, ainda não revisado por outros cientistas, foi realizado pela Faculdade de Medicina da USP e pelo Instituto do Coração (InCor) e lança mão de uma análise sobre a imunogenicidade da vacina CoronaVac. Na pesquisa, foi descoberto que — entre alguns pacientes com mais de 55 anos — a vacina induziu à resposta imune menos intensa do que pessoas naturalmente infectadas. É importante ressaltar que os resultados estão atrelados a essa faixa etária.

"A CoronaVac foi efetiva ao diminuir a mortalidade dos idosos. Foi uma observação muito nítida entre maio e julho, quando saíram resultados mostrando que ela havia caído drasticamente em vacinados. Agora, que temos várias vacinas para optar, seria mais inteligente escolher a de RNA", afirma o imunologista Edecio Cunha-Neto, professor da Faculdade de Medicina da USP.

O uso de uma terceira dose da CoronaVac, porém, não é totalmente desconhecido. Um estudo recente, conduzido pela própria Sinovac — desenvolvedora do fármaco — mostra que a aplicação da terceira dose após seis meses da segunda aumenta o número de anticorpos neutralizantes em até sete vezes. A pesquisa, no entanto, não avalia a proteção diante das duas principais variantes em circulação no Brasil. A Gama, de Manaus, e Delta, identificada na Índia.

Estudo brasileiro

Uma resposta importante para a questão será conhecida mais a frente, com a chegada dos primeiros resultados do estudo encomendado pelo Ministério da Saúde para compreender a aplicação de terceira dose em pessoas vacinadas com a CoronaVac. O grupo de 1,2 mil pessoas será dividido em quatro.

Cada um dos times receberá as doses adicionais de uma das vacinas aprovadas para uso no Brasil: Janssen, Pfizer, CoronaVac e AstaZeneca. As respostas da análise, conduzida pela pesquisadora Sue Ann Costa Clemens, da Universidade de Oxford, saem ainda neste ano.

Com o que se sabe até agora, contudo, os especialistas afirmam que há indicativos suficientes para priorizar a Pfizer, frente à CoronaVac, para essa nova aplicação em grupos vulneráveis. Seja ela um reforço (para prolongar a proteção da vacina) ou caracterizada com uma terceira dose — necessária para populações que não atingem o mínimo desejado para proteção. Nesse caso, o esquema vacinal seria composto por três doses.

"Nas pessoas idosas, que o sistema imune vai envelhecendo, você tem que dar a vacina mais produtora de anticorpos que você tenha. De todas que temos, a CoronaVac não é uma delas", pontua o geneticista Salmo Raskin, médico geneticista e diretor do Laboratório Genetika, de Curitiba.

O atual indicativo, porém, diz respeito ao uso da vacina em grupos vulneráveis que precisam se servir da resposta imune mais robusta possível para combater a infecção. Há diversos outros estudos, por exemplo, que indicam que a CoronaVac foi fundamental para que o Brasil conseguisse reduzir casos e óbitos de idosos e profissionais da saúde. Além disso, os especialistas classificam a vacina da Sinovac como uma boa opção para grupos mais jovens.

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