Mosquito mutante é testado no Rio de Janeiro para combater a dengue

Por iG São Paulo | - Atualizada às

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Insetos infectados por bactéria foram liberados em bairro na Ilha do Governador, onde moram 3 mil pessoas. Estratégia consiste em eliminar vírus da dengue na região

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) começou a testar nesta quarta-feira (24) uma forma inovadora de combater a dengue no Rio de Janeiro. Nos próximos quatro meses o bairro carioca de Tubiacanga, na Ilha do Governador, vai receber semanalmente de oito a 10 mil mosquitos Aedes aegypti infectados por uma bactéria, como forma de eliminar o vírus da dengue no bairro com três mil moradores.

Agência Brasil
Em 2014, casos de dengue na capital paulista mais que triplicaram em relação ao registrado no mesmo período do ano passado

A medida faz parte do projeto ‘Eliminate Dengue: Our Challenge’ (Eliminar a Dengue: Nosso Desafio), que estuda uma nova abordagem para reduzir a transmissão do vírus da dengue pelo mosquito Aedes aegypti de forma natural e autossustentável. O método foi testado na Austrália, Vietnã e Indonésia.

De acordo com o coordenador da pesquisa no Brasil, Luciano Moreira, diferente de outras iniciativas, que liberam mosquitos estéreis, por exemplo, em determinadas áreas para assim reduzir a população de insetos, o projeto é considerado natural e autossustentável pois combate o vírus e não o vetor da dengue. A dengue é transmitida para humanos a partir da picada de mosquitos Aedes infectados com o vírus . 

“Há diversas abordagens em andamento no mundo para controlar a dengue. O nosso projeto se baseia numa bactéria encontrada na natureza. O método é seguro, pois não apresenta risco aos seres humanos, já que a bactéria só infecta invertebrados. Também é autossustentável, pois a partir do momento que a bactéria se estabelece na natureza não é preciso que mais mosquitos sejam liberados naquela localidade”, disse Moreira ao iG.

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Como funciona isso
A estratégia da equipe de pesquisadores consiste em infectar os mosquitos Aedes aegypti com a bactéria Wolbachia. Ela reduz a quantidade de vírus no mosquito e consequentemente ocorre uma diminuição nos casos de dengue na área. A bactéria tem a capacidade também de manipular a reprodução do inseto e rapidamente se estabelece na natureza (com o cruzamento com mosquitos que não tenham a bactéria). A expectativa da equipe é que até o final do ano, toda população de Aedes aegypti  do bairro seja infectada pela  bactéria e esteja livre do vírus da dengue em Tubiacanga.

“A bactéria serve como uma vacina para o mosquito. Como ela é um organismo intracelular e o vírus também precisa entrar nas células para se reproduzir, deve haver uma competição por fatores que ambos precisam”, explica Moreira. A vencedora da disputa é a bactéria.

A Wolbachia está presente em cerca de 60% dos insetos no mundo, incluindo diversas espécies de mosquitos, como o pernilongo, sem risco para a saúde humana ou o ambiente. É uma bactéria intracelular, transmitida de mãe para filho no processo de reprodução dos mosquitos e não durante a picada do Aedes em um ser humano.

Dois anos de preparação
Desde 2012 a Fiocruz trabalha no bairro para mapear os mosquitos. Neste processo, são realizados contatos regulares com moradores, lideranças e associações. “Os dados coletados foram fundamentais para planejar os estudos de campo”, explica Moreira.

Durante o mapeamento, armadilhas para capturar e estudar os mosquitos da região foram instaladas na casa de dezenas de moradores – são os chamados ‘anfitriões’ do projeto. “Somos extremamente gratos a essas pessoas que recebem toda semana nossas equipes em suas casas, contribuindo para um projeto que busca o benefício coletivo”, afirma.

Para reduzir o incômodo dos moradores do bairro e não alterar o número de mosquitos no bairro após a liberação dos mutantes, os criadouros de Aedes aegypti no local foram destruídos.

Outras três localidades estão sendo monitoradas para futuras liberações de mosquitos: Urca, na zona sul; Vila Valqueire, na zona norte e Jurujuba, em Niterói, região metropolitana.

“São áreas que têm a presença do mosquito o ano todo, casos de dengue: umas muito populosas, outras pouco, umas com muita vegetação e outras com pouca vegetação. Estamos trabalhando com as pessoas que vivem nessas localidades, respondendo às perguntas, explicando sobre o projeto para termos apoio”, disse o pesquisador da Fiocruz. Durante o mapeamento da população de mosquitos, foram instaladas armadilhas para capturar e estudar os insetos na casa de dezenas de moradores.

Estudos de larga escala previstos para 2016 em outras localidades do Rio de Janeiro poderão avaliar o efeito desta estratégia em reduzir a incidência de dengue. Se os resultados forem positivos, o Ministério da Saúde pretende expandir o projeto para outras áreas do Brasil, explicou.

Moreira participou do início do projeto na Austrália em 2009, quando descobriu com outros pesquisadores a capacidade da Wolbachia de reduzir a transmissão do vírus da dengue pelo mosquito. Durante cinco anos, membros da equipe do programa de lá alimentaram uma colônia de mosquitos com Wolbachia usando, voluntariamente, os próprios braços. Isso resultou em centenas de milhares de picadas de mosquitos sem que reações à bactéria fossem detectadas.

Os testes de campo no Brasil foram aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) após rigorosa avaliação sobre a segurança para a saúde e para o meio ambiente.

Além do financiamento da Fiocruz, pelo Ministério da Saúde, o projeto brasileiro também recebe verbas do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e do CNPq. As secretarias municipais de Saúde de Niterói e do Rio atuam como parceiras locais na implantação do projeto.

*Com informações da Agência Brasil

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