Na avaliação de especialistas, crianças e jovens expostos a uma dura rotina estão mais suscetíveis a contrair enfermidades

O Dia

Aos 10 anos, I. se viu no meio de um arrastão, em Irajá, Zona Norte do Rio, quando voltava de um aniversário no shopping na companhia das amigas da escola. Sua reação, ao ver criminosos armados, foi gritar em desespero. Durante dois anos, o trauma da violência vista da janela do carro acompanhou a pequena estudante.

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"Crianças correm mais risco de adoecer porque sua imunidade fica mais baixa quando há medo", diz especialista

“Ela não podia ouvir barulho que se assustava. Acordava no meio da noite com pesadelos e perdeu semanas de aula”, conta a mãe, a comerciante S., 42. Ainda hoje I. tem dificuldades para dormir quando há tiroteios no bairro onde mora com a família.

Já T., de 12 anos, guarda na memória os gritos de um homem sendo torturado e esquartejado por traficantes na rua em frente a sua casa, numa favela carioca dominada pelo tráfico. Como reféns de uma guerra sem fim, crianças inocentes carregam, junto com os livros e cadernos, uma vivência de dor e sofrimento. Só no mês passado, os confrontos nos complexos de favelas da Maré e de Manguinhos deixaram quase 40 mil estudantes sem aula na cidade. Atualmente, mais de cem mil crianças estudam nas 155 Escolas do Amanhã, localizadas em áreas conflagradas ou recém-pacificadas da cidade.

Na avaliação de especialistas em saúde, crianças e jovens expostos a uma dura rotina de violência estão mais suscetíveis a contrair inúmeras doenças, como dermatites, infecções, depressão, asma, bronquite, estresse pós-traumático, entre outras.

“As crianças correm mais risco de adoecer porque sua imunidade fica mais baixa quando há medo (estresse) crônico, e se tornam mais vulneráveis a transtornos psicológicos e de aprendizagem, porque seu foco atencional (e emocional) fica sempre voltado para um possível evento violento que pode acontecer a qualquer momento”, explica o neurocientista Roberto Lent, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ.

Segundo ele, mais do que impedir que milhares de crianças frequentem a escola, os conflitos armados afetam o funcionamento do cérebro e, se nada for feito, deixarão um rastro de danos físicos e psicológicos por um longo tempo.

Dermatites, infecções, depressão, asma, bronquite, estresse pós-traumático e outras doenças podem ser consequências de traumas por causa da violência
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Dermatites, infecções, depressão, asma, bronquite, estresse pós-traumático e outras doenças podem ser consequências de traumas por causa da violência

“A violência cotidiana é uma fonte permanente de medo. Isso significa que a mobilização corporal que o cérebro proporciona para enfrentar uma situação emergencial eventual se torna crônica”, diz.

Diante de uma ameaça à própria sobrevivência, o cérebro provoca uma aceleração cardíaca e respiratória, que acaba por desequilibrar o provimento de sangue e oxigênio aos órgãos, causando distúrbios permanentes. A interrupção da digestão produz alterações alimentares e metabólicas de longo prazo, revela Roberto Lent. Essas são manifestações corporais, mas há também os distúrbios psicológicos.

“Esse estado permanente de medo causa estado crônico nas reações que normalmente são passageiras: o ataque (agressividade) ou a fuga (depressão)”, constata.

O pesquisador, que há mais de 20 anos estuda o cérebro, chama a atenção para o fato de que as memórias mais duradouras são as que vêm associadas a fortes emoções, para o bem ou para o mal. O resultado é um declínio do desempenho escolar com graves consequências sobre a aprendizagem das crianças.

“Para aprender, é preciso focar a atenção na leitura, no professor, na lousa. Mas quem consegue focar a atenção nessas atividades escolares, quando é forte a expectativa de um tiroteio, um assassinato, uma terrível situação de pânico? A violência, portanto, não é danosa apenas quando ocorre: deixa rastros definitivos”, avalia Lent, que há um ano coordena a Rede Nacional de Ciência para Educação.

Terapia para curar feridas

Especialistas acreditam que a prevenção é o melhor remédio. Para as crianças que já sofreram situações de violência, o tratamento varia segundo o impacto em cada uma delas. Algumas se recuperam com maior facilidade e retomam a vida, o estudo, e o trabalho. Outras podem desenvolver estresse pós-traumático, que requer tratamento neuropsicológico específico. Para a psicanalista Maria Teresa Lopes, uma das coordenadoras do projeto Travessia, realizado pela Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro em favelas cariocas, educadores devem ficar atentos aos sintomas manifestados pelos estudantes.

“As crianças que convivem muito de perto com os confrontos tendem a ser mais dispersas e a não prestar atenção na aula. Na maioria dos casos, essa alienação é um mecanismo de defesa para fugir da realidade que é tão dura”, constata a especialista.

A psicanalista afirma que uma das formas de curar feridas é oferecer às crianças atividades lúdicas, como dança, esporte, música e desenho, através das quais elas possam expressar seus medos. O tratamento, porém, deve ser acompanhado por profissionais da área de saúde. Os pais podem amparar seus filhos falando sobre suas preocupações.

“A criança se sente mais amparada sabendo que o adulto também sente medo”, garante Maria Teresa.

Como mente e corpo reagem

O medo é um mecanismo de defesa dos seres diante de qualquer risco a sua sobrevivência.

Ao se sentir ameaçada, a pessoa tem duas reações: atacar ou fugir. Para que essas reações ocorram, todo o corpo é mobilizado pelo cérebro: o coração e a respiração aceleram, a digestão cessa e os músculos se contraem.

O cérebro, então, dispara um coquetel de hormônios no sangue — adrenalina e corticóides. A prioridade é manter-se vivo. A autoestima e a motivação pelo estudo diminuem. Alguns se fecham e outros ficam agressivos, como uma estratégia de defesa do organismo.

Exposta ao medo, a criança tende a ficar em permanente estado de agitação ou dispersão. O resultado é um declínio do desempenho escolar.

Estado de atenção crônico

A exposição diária à violência faz com que o corpo se mantenha em alerta. A mobilização que o cérebro comanda para enfrentar uma situação emergencial torna-se crônica. O cérebro entra num estado de atenção permanente e de ansiedade elevada.

A aceleração cardíaca e respiratória desequilibra a quantidade de sangue e oxigênio que deveria chegar aos órgãos, causando distúrbios permanentes. O excesso de hormônios de estresse diminui a imunidade, tornando a criança mais suscetível a doenças. As mais comuns são as de pele (dermatites).

Agrava doenças respiratórias como alergias, asma, bronquite e desenvolve transtornos de ansiedade, depressão, déficit de atenção, insônia e síndrome do pânico, o que compromete o aprendizado.

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