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Academias da Terceira Idade: o paliativo perigoso

Sem orientação médica, aparelhos instalados em parques e praças brasileiras além de pouco eficazes, podem comprometer à saúde

Lívia Machado, iG São Paulo | 29/03/2011 09:50

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Foto: David Santos Jr / Fotoarena

Um dos mais concorridos aparelhos, o simulador de caminhada, não é recomendado para qualquer pessoa

Práticos, simples e democráticos. Os aparelhos de ginástica que proliferam pelas praças e parques Brasil são, em grande parte, resultados de iniciativas que aliam o público ao privado na idéia de promover a saúde sem muito esforço.

Na teoria, a proposta de combater o sedentarismo em praça pública é tão boa que algumas fabricantes dos aparelhos bancam o trocadilho “Quem vai para ATI (Academia da Terceira Idade) não vai para UTI (Unidade de Tratamento Intensivo)”.

Menos segmentadas do que pretendiam ser, as ATIs – também chamadas de Academias ao Ar Livre – estão presentes em mais de mil cidades brasileiras e atraem públicos variados e de diferentes classes sociais. De crianças dispostas a fazer do espaço um parque de diversões, a idosos em busca de uma alternativa para combater o sedentarismo tão típico do envelhecimento.

Embora o equipamento não tenha, inicialmente, nenhuma contraindicação, o uso só trará benefícios se a atividade for feita após uma avaliação médica e mediante orientação de um profissional, defendem os especialistas no assunto.

“Implementar aparelhos sem oferecer apoio e orientação à população é um disparate. Não se promove saúde nem se consegue resultados se o exercício não for feito corretamente, seguindo uma série adequada para cada individuo e após avaliação médica”, alerta Flavio Delmanto, presidente do Conselho Regional de Educação Física.

Fila para malhar

Na academia instalada na Praça Irmaõs Karmann, na zona oeste de São Paulo, implementada pelo Hospital Samaritando em parceria com a subprefeitura da cidade, alguns aparelhos, como o simulador de caminhada, são muito cobiçados. Nas manhãs quentes, Ana Claúdia Menezes, 37, revela que a disputa é grande. “É preciso esperar mais de 20 minutos para usar. No verão, a praça fica sempre cheia”.

Embora avalie positivamente o espaço gratuito para se exercitar, a dona de casa admite que elabora um circuito pelos seis aparelhos instalados da forma que julga mais benéfica para si. Como deseja perder peso, Ana acredita que deve ficar bastante tempo nos aparelhos e fazer quantas repetições o corpo permitir para obter os resultados desejados na balança. O autodidatismo, de fato, é imperativo nos frequentadores desses espaços.

“Meu trabalho exige que eu fique muito tempo parado, por isso, comecei a me exercitar. Gasto, em média, 10 minutos em cada aparelho. Acho que é um bom tempo para estimular o corpo e ganhar massa muscular”, explica o vigilante Gilberto, 39 anos, que começou a fazer uso do espaço há 20 dias.

A falta de orientação adequada fará com que a série dele, no mínimo, não dê resultados, explica o professor Delmanto.

Academia ou parquinho?

Helena Chapiz, de sete anos, gosta de usar os aparelhos após a aula de natação. Por sentir-se gorda (a menina é magérrima), acha importante fazer exercícios físicos. “Uso todos que consigo alcançar e faço o numero de repetições que eu aguento.” A brincadeira de exercícios é acompanhada pela babá, que diverte-se assistindo ao 'treino’.

Foto: David Santos Jr / Fotoarena Ampliar

Sem informação sobre o limite de peso, aparelhos são facilmente danificados

Os limites

A democracia do espaço também tem seu preço. Segundo a socióloga Maria do Carmo Machado, 48, alguns aparelhos já foram danificados por excesso de peso dos usuários. Nenhum dos seis equipamentos da Praça Irmãos Karmann tem uma placa informativa sobre a capacidade máxima permitida. Todos, porém, recomendam ao usuário procurar um médico antes de inicar as atividades.

A manuntenção dos equipamentos é bem aquém do esperado. Os usuários revelam que a média de tempo para substituir ou consertar é de aproximadamente dois meses.

O foco na terceira idade não pressupõe que todos os idosos estejam aptos a usar tais equipamentos. Mais consciente das limitações do próprio corpo, Eny Elza Ceotto, 74, sabe que não pode se exercitar em alguns aparelhos. Para ela, que tem a perna direita atrofiada por conta de uma poliomielite, o simulador de caminhada é equipamento proibido.

“Tenho problema com equilíbrio e não consigo forçar minhas pernas. Faço apenas alguns exercícios para fortalecer a musculatura. Costumo fazer duas séries de 50" conta.

O disputado simulador de caminhada é contraindicado para a maioria dos idosos. Dois pedais sustentam as pernas a quase 10 centímetros do chão. Um pequeno desequilíbrio pode resultar em queda, e provocar uma lesão séria na bacia, exemplifica Delmanto.

“Além do risco de queda, qualquer atividade cardiovascular, sem orientação, elava as chances de infarto em pessoas hipertensas”, alerta o presidente do CREF.

Mal não faz?

Isabel Salles, fisiatra e coordenadora do Centro de Reabilitação do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, explica que tais espaços são bons estimulantes da atividade física mas não promovem refinamento do condicionamento físico, apenas colocam o corpo em atividade. Os riscos de lesão na coluna e nas articulações são baixos, mas nem sempre as pessoas sabem reconhecer, sozinhas, os próprios limites.

“Nesses parques, o equipamento não oferece resistência. São propostos apenas exercícios de flexibilidade, equilíbrio, ou aeróbicos. Para obter resultados em termos de saúde, é fundamental aumentar o tempo de uso do aparelho, investir na frequência.”

A utilidade do acesso esbarra na falta de orientação quanto ao uso. Segundo a fisiatra, não existem receitas universais capazes de modelar ou afinar todo e qualquer corpo. O exercício físico é essencialmente especializado, direcionado. Embora os aparelhos sejam interessantes, sem o direcionamento de um treino o indivíduo pode ter resultados iniciais, mas será difícil evoluir.

Arnaldo Hernandes, chefe do departamento de medicina do esporte do Hospital das Clinicas de São Paulo, avalia como positiva as ações que tenham como objetivo combater o sedentarismo da população brasileira, mas rechaça ações limitadas ao acesso.

“É similar a dar um carro a uma pessoa que não sabe dirigir. Fazer o uso de praças para estimular a pratica de exercícios é positivo, mas pode ser uma arma se tal projeto não for feito com, no mínimo, um profissional que faça, uma vez por semana, um questionário prévio para detectar fatores de risco, orientar os usuários.”

Na visão do médico, o ideal seria que um professor de educação física estivesse presente nesses locais ao menos uma vez por semana. Uma saída, aponta Hernandes, seria associar tais iniciativas ao Programa de Saúde da Família.

“Seria interessante incorporar um educador físico a essas equipes. Eles seriam responsáveis por prestar esse atendimento à população”, sugere Hernandes.

Enquanto a promoção da saúde se limitar ao paliativo, Delmanto defende que a prática de atividades físicas por conta própria seja substituída por uma consulta médica.

“Antes de usar tais aparelhos ou simplesmente começar a caminhar em uma avenida, é preciso buscar orientação de um médico ou profissional da área.”

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