70% dos idosos estão insatisfeitos com próprio corpo; autoimagem influi na saúde

Por Maria Fernanda Ziegler - iG São Paulo | - Atualizada às

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Quanto pior a pessoa se enxerga, menos se cuida; autoimagem ruim está ligada a estereótipos negativos ligados à velhice

É tudo uma questão de como a pessoa se vê. O tempo passa, a idade avança, o corpo muda e as rugas aparecem. A noção de ancião com muita experiência passa longe do contexto e logo aquele jovem independente se torna um idoso que morre de medo de dar trabalho para os outros. Não se trata apenas de vaidade, estudos mostram que quanto pior a percepção da autoimagem, pior é o cuidado do idoso com saúde, alimentação, socialização e atividade física. Basicamente, menos longeva a pessoa será.

Thinkstock/Getty Images
Insatisfação com a imagem tem relação com a falta de cuidado com a saúde

Um estudo realizado nos Estados Unidos com 338 homens e 322 mulheres mostrou que aqueles que tinham autopercepção mais positiva do envelhecimento, sem ligar a velhice à decadência física, por exemplo, tiveram maior sobrevida ao longo de 23 anos de observação.

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No Brasil, a geriatra Laura Mariano da Rocha analisou a autoimagem e a autoestima de pessoas com mais de 60 anos em Porto Alegre e constatou que 70% dos pesquisados tinham alguma insatisfação corporal. Os homens queriam estar mais fortes e as mulheres, mais magras. Mais do que isso, ela concluiu que aqueles que se compreendiam como envelhecendo mal, tinham uma percepção ruim da saúde e da imagem corporal.

Teste: Você sabe o que fazer para envelhecer com saúde?

“A questão é que, quanto pior esta percepção, pior é o cuidado com a saúde, com o uso das medicações, com a atividade física. Pior é o envelhecimento”, diz. Para a geriatra, é preciso que os próprios idosos entendam que envelhecer é um processo que faz parte da vida. “Você sabia que a maioria dos idosos de Porto Alegre faz apenas uma refeição por dia? Seja porque não tem companhia, seja porque não tem autonomia para cozinhar.”

Utopia: Por que é tão difícil chegar aos 100 anos?

Veja galeria de famosos que viveram mais de 100 anos:

Niemeyer  - Figura chave da arquitetura moderna brasileira, ele morreu a 10 dias de completar 105 anos. Lúcido, trabalhou até o fim da vida. Foto: ReproduçãoDona Canô  - Mãe de oito filhos, entre eles os músicos Caetano Veloso e Maria Bethânia, ela morreu aos 105 anos, no dia de Natal de 2012, em casa . Foto: ResproduçãoDercy Gonçalves – Reconhecida pelo Guinness Book como a atriz com maior tempo de carreira no mundo, ela morreu em 2008, aos 101 anos. Foto: ReproduçãoJean Delannoy- cineasta francês, autor de filmes com artistas e intelectuais como Jean Cocteau, Anthony Quinne, Jean-Paul Sartre morreu aos cem, em 2008. Foto: DivulgaçãoLeni Riefenstahl - defensora do Hitler, a cineasta alemã dirigiu o Triunfo da Vontade, um dos maiores documentários e peças de propaganda. Ela morreu aos 101, em 2003. Foto: DivulgaçãoJeanne Calment – A francesa, que fez esgrima até os 85 anos e fumou até os 117, morreu aos 122, em 1997. Ela conheceu Vincent Van Gogh e, aos 114, atuou em Vincent and Me. Foto: DivulgaçãoIrving Berlin – compositor, que compôs mais de 3 mil músicas, incluindo God Bless America e White Christmas, morreu aos 101, em 1989. Foto: DivulgaçãoJames Strom Thurmond - o senador americano deixou o posto aos 100 anos e morreu seis meses depois. Foto: DivulgaçãoHenri Fabre - pioneiro da aviação francesa morreu em 1984, aos 102 anos. Foto: DivulgaçãoGeorge Burns - comediante e ator americano marcado por sua sobrancelha arqueada e pelo charuto morreu 49 dias após completar 100 anos. Foto: DivulgaçãoEugenio Gudin - Economista brasileiro foi ministro da Fazenda entre 1954 e  1955, durante o governo de Café Filho. Morreu em 1986, anos 100 anos. Foto: DivulgaçãoClaude Lévi Strauss - Antropólogo belga, morreu aos 100 anos, em 2009. Estudioso dos povos indígenas lecionou sociologia, de 1935 a 1939, na recém-criada USP. Foto: DivulgaçãoCharles Lane - Quando morreu, aos 101, em 2007, era o mais velho ator americano vivo. Fez mais de 250 filmes, além de programas de TV. Foto: DivulgaçãoBob Hope - Artista nascido em Londres em 1903 migrou para os EUA na juventude e morreu aos cem anos, em 2003. Foto: DivulgaçãoAlbert Hofmann - Suíço, descobriu o LSD e estudioso de outras substâncias alucinógenas, morreuu em 2008, anos 102 anos. Foto: DivulgaçãoRainha Elizabeth - Conhecida como a rainha-mãe, monarca morreu aos 101 anos, em 2002. Foto: Divulgação

Essa autoimagem ruim não é por acaso. Os estereótipos negativos relacionados ao envelhecimento são criados pela sociedade e assimilados ao longo da vida. “Eles são aceitos e incorporados pelos jovens sem muito questionamento. Ao envelhecer, estes conceitos prévios fazem parte da personalidade dos indivíduos e podem produzir efeitos negativos de incapacidade e inutilidade”, afirma Laura em sua dissertação de mestrado defendida na PUC-RS.

Qualidade de vida pra quem?

Envelhecer com qualidade é o grande desafio, principalmente para um país como o Brasil, que terá um rápido envelhecimento da população nos próximos 20 anos. No entanto, qualidade de vida é um valor subjetivo. Acesso a bons médicos, exames com bons resultados e conta bancária podem dizer que tudo está bem, mas o idoso pode não sentir que tem qualidade de vida. O contrário também acontece. “Mesmo a pessoa numa condição objetivamente ruim, pode nas piores condições achar a vida boa”, disse Sérgio Paschoal, médico geriatra do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Atenção: Solidão na velhice aumenta mais risco de morte do que obesidade

Sem voz numa sociedade que não respeita a opinião dos mais velhos e com uma autoimagem ruim, a depressão em idosos se torna mais corriqueira. Um dado que mostra isso é a taxa de suicídio para homens brancos com mais de 65 anos ser cinco vezes mais alta do que a da população em geral.

De acordo com dados de estudo liderado por Maria Cecília Minayo, da Fiocruz, a taxa de suicídios de pessoas com mais de 65 anos passou de 12 a cada cem mil pessoas para 15,8 a cada cem mil, entre 1980 a 2006. A situação é considerada de média gravidade quando passa de dez suicídios a cada cem mil.

“Não é por achar que a vida econômica está ruim, mas achar que perdeu o sentido de viver. Eu posso até ser pobre, mas o que importa é a vida fazer sentido”, disse Sérgio Paschoal.

Companhia: Vizinhança é determinante para a saúde do idoso

O sentido da vida para João Antônio Ramos, de 91 anos, é beber seu vinhozinho diário, receber a família para jantar e planejar suas viagens anuais para Portugal. Muita coisa aconteceu desde o dia que o engenheiro eletricista português chegou ao Brasil, em 1954. Era para permanecer apenas seis meses. O tempo passou e ele foi ficando. Logo se casou, teve seis filhos, 14 netos e agora uma bisneta. “Ainda”, brinca.

A aposentadoria há 30 anos não o deixou deprimido, como é comum acontecer. “É uma mudança, mas a gente supera com outras coisas. Em vez de trabalhar, lê um livro. Querendo, não falta coisa para fazer”, diz com a serenidade típica de quem pode se tornar um centenário.

Até lá, segue sua rotina. Acorda às 9 horas, lê o jornal, faz exercícios como “saltitar, baixar e levantar”, depois dá uma volta, vai ao banco ou encontra um parente. Em julho pretende ir a Portugal encontrar os primos. “Pois meus pais já morreram”, brinca.

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