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Diagnóstico correto deve ser feito por um psicólogo, mas sintomas como tremores, formigamento e sensação de descontrole podem ser indícios de que o indivíduo esteja tendo uma crise em decorrência da condição

Síndrome do pânico é uma condição que não tem causa definida e atinge 4% da população mundial
Johanna Ljungblom/mstockxpert
Síndrome do pânico é uma condição que não tem causa definida e atinge 4% da população mundial

Toda vez que Luzia Toledo Martins, de 42 anos, precisa se locomover de carro é um transtorno. “Me sinto muito angustiada, tenho medo de acontecer algum acidente e eu e meu marido acabarmos mortos. É um desespero muito grande que eu não tenho controle. Parece que é mais forte do que eu”, conta a assistente administrativa. Pode parecer exagero para quem vê de fora, mas essa sensação é, muitas vezes, corriqueira para quem sofre da síndrome do pânico.

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Há três anos do diagnóstico, hoje ela já sabe identificar os sintomas antes de ter uma crise. “Começa com falta de ar e, quando me dou conta, estou respirando de um jeito ofegante, com o coração acelerado, e suando muito”, explica ela. Desde que desenvolveu a síndrome do pânico , apresenta ataques de ansiedade, principalmente quando precisa fazer viagens de carro.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o transtorno não é exclusividade de Luzia. A condição atinge 4% da população mundial, o que representa, aproximadamente, 280 milhões de pessoas. Caracterizada como um tipo de transtorno de ansiedade , as crises podem ocorrer em momentos inesperados ou em algumas situações já definidas, que fazem com que o indivíduo se sinta com medo ou desesperado.

O especialista em medicina comportamental pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e hipnoterapeuta Valdecy Carneiro explica que o transtorno pode se desenvolver em situações na qual o indivíduo se sente ansioso, fora de controle ou impotente para fazer algo, como em acidentes e falecimentos de pessoas próxima ou em circunstâncias que remetam a algo ruim ou extremamente desagradável, como o risco de morte, que acaba gerando o pânico.

“Isso acaba com a funcionalidade do indivíduo, muitas vezes de maneira global, impactando nos relacionamentos pessoais, desempenho profissional, além de incapacitá-lo para situações consideradas simples no cotidiano, como estar em um congestionamento, dormir sozinho ou pegar o metrô”, elucida Carneiro.

Apesar de não haver uma causa específica capaz de desencadear o transtorno, fatores genéticos e comportamentais, como estresse, temperamento forte e mudanças na forma como o cérebro reage a determinadas situações podem indicar uma predisposição à condição.

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Diagnóstico

Por se tratar de reações muitas vezes inexplicáveis e inesperadas, o diagnóstico muitas vezes demora a vir. Por falta de informação, pode ser difícil detectar que certos comportamentos indicam uma crise.

Para identificar a síndrome, o especialista indica que o indivíduo observe se apresenta disfuncionalidade, ou seja, dificuldade em lidar com situações consideradas simples e corriqueiras para a maioria das pessoas.

Os principais sintomas são:

  • Sensação de despersonalização – quando se tem a impressão de ser estranho a si mesmo;
  • Formigamentos;
  • Arritmias;
  • Dor ou desconforto no peito;
  • Ansiedade;
  • Medo de “enlouquecer”;
  • Sentimentos de bloqueio;
  • Sensação de morte;
  • Tremores;
  • Sudorese excessiva;
  • Falta de ar;
  • Tontura.

“A pessoa também pode acabar desenvolvendo algumas fobias específicas que estão associadas a esses sintomas como medo de escuro, medo de lugares fechados, transporte público, sair à noite. Isso também acarreta a uma baixa autoestima e nos casos mais graves pode levar a ideações suicidas”, alerta o especialista.

Segundo Carneiro, quem sofre da síndrome do pânico também está sujeito a desenvolver outros transtornos como a depressão , que afeta 5,8% da população do Brasil, e a ansiedade, que atinge 9,3% dos brasileiros.

“A depressão pode surgir como uma comorbidade, ou seja, um outro distúrbio que se associa ao Pânico. Além da depressão, costumam aparecer outras comorbidades, como Agorafobia (medo de espaços abertos e/ou grandes espaços), Claustrofobia (medo de lugares fechados), Fobia Social (medo do contato com pessoas: poucas ou em aglomeração),  Prolapso da Valva Mitral e Hipoglicemia etc”, afirma.

Tratamento

Ao perceber que já não conseguia mais viajar para longe e que sentia que iria se descontrolar sempre que pensava no problema, Luzia precisou procurar ajuda de um psicólogo. “Não foi fácil reconhecer que eu precisava ser tratada. Mas, desde que fiz isso, tenho conseguido lidar melhor com minhas reações. Hoje, faço viagens curtas e consigo andar de carro sem surtar quando é necessário”, conta ela.

Carneiro recomenda que a pessoa com a síndrome do pânico busque orientação terapêutica especializada, evitando a automedicação.  Atualmente, existem muitos métodos que são utilizados para tratamento, como terapias cognitivas comportamentais, práticas respiratórias e meditativas e a hipnoterapia, método que utiliza a hipnose para o tratamento de transtornos diversos.

Um fator que contribui para um resultado ainda mais eficaz no tratamento da síndrome do pânico é o apoio de amigos e familiares. “É frequente pacientes não iniciarem ou abandonarem tratamentos por falta de alguém que os acompanhe. Muitas pessoas estão em um estágio no qual se veem incapacitadas para tarefas simples e saírem sozinhas, por isso a ajuda de conhecidos é tão importante”, considera o especialista.

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