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João Gabbardo, superintendente do Instituto de Cardiologia do Distrito Federal, mostrou seu lado fera na Ultra BR135

Fora do hospital, doutor João Gabbardo se transforma na fera das ultramaratonas
Guilherme Lara Campos / Fotoarena
Fora do hospital, doutor João Gabbardo se transforma na fera das ultramaratonas
Corredor há 30 anos, o médico gaúcho João Gabbardo, 55 anos, tomou gosto pelas ultramaratonas e desde 2005 faz várias delas.

Por conta disso acabou como “objeto de estudo” no Instituto de Cardiologia do Distrito Federal (ICDF), no qual é superintendente. A pesquisa é coordenada pela diretora médica da entidade, Núbia Vieira .

Ele participou da Ultramaratona BR135 – a mais difícil prova do Brasil, com distância de 217 quilômetros, realizada na Serra da Mantiqueira , entre as cidades de São João da Boa Vista (SP) e Paraisópolis (MG).

Na chegada a São João da Boa Vista, véspera da largada, a equipe do iG Saúde encontrou Gabbardo fazendo a primeira coleta de sangue para a pesquisa do ICDF, para posterior análise. Aparentava tranquilidade e confiança em relação ao que iria enfrentar.

Ao colher as amostras, o bioquímico Néliton Maia, também de 55 anos, espantava-se com a aventura do paciente. “São 217 quilômetros? É muita coisa. Mas você está de parabéns”, elogiou.

A quilometragem era inédita para Gabbardo. Embora experiente, o máximo que já havia atingido tinha sido 155 quilômetros em uma prova de 24 horas. “A expectativa é completar a BR em 41 horas”, disse.

Comida de ultramaratonista

Do laboratório, Gabbardo voltou para o congresso técnico do evento e acompanhou compenetrado as últimas orientações da organização. Dali, partiu para as compras de suprimentos.

Água, isotônico, refrigerante, iogurte, bolacha, batata, macarrão: cardápio de corredor
Guilherme Lara Campos / Fotoarena
Água, isotônico, refrigerante, iogurte, bolacha, batata, macarrão: cardápio de corredor
No carro de apoio, que seria pilotado pelo pai e pela mulher durante a prova, tudo o que seria consumido ao longo do percurso: refrigerantes diversos, água, sucos, isotônicos, iogurtes, pão tipo bisnaguinha, batata chip, macarrão instantâneo, batata cozida com sal, carboidrato em gel, biscoito doce, chocolate, maçã e melancia.

O jantar da véspera seria um prato reforçado de massa. “O problema é que 24 horas antes de uma corrida eu começo a perder o apetite. Tenho de me forçar a comer”, contou. Já em relação à hidratação, capricho total. “É importantíssimo fazer a ingestão adequada de líquidos antes da prova”.

Outra preocupação do ultramaratonista eram as assaduras. “Nas primeiras provas longas que fiz, sofria com o atrito em várias partes do corpo, a ponto de sangrar. Até que comecei a usar uma pomada para assaduras de bebês”.

A emoção da largada

A expressão de tranquilidade do dia anterior tinha dado lugar a uma leve tensão na linha de largada, na sexta-feira, oito da manhã. “Agora começa a dar um frio na barriga”, confessou, momentos antes do início da BR135.

Mas ansiedade não era exclusividade do médico corredor. Entre sorrisos e abraços, todos os ultramaratonistas demonstravam apreensão. O maior temor de Maria Ritah Fernandes, de 43 anos, corretora de imóveis de Manaus (AM), era a noite. “Tenho medo do escuro. Nessas horas, um vagalume vira um monstro”, disse.

Incertezas passavam inclusive pela cabeça do bi-campeão da prova, Adilson José Pereira, o Ligeirinho, vendedor de 42 anos, da cidade de Poços de Caldas (MG). “Tudo pode acontecer ao longo de 217 quilômetros”.

Pior do que imaginado

A reportagem encontrou João Gabbardo com quase 50 quilômetros de prova corridos. Já passava de duas da tarde, muito sol e calor, ele ia rumo ao Pico do Gavião, na cidade de Andradas (MG), ponto de maior elevação da prova (com cerca de 1663m) . Estava com mais de uma hora de atraso em relação ao plano inicial. “Estou mais cansado do que previa”, disse, subindo acompanhado da mulher Sabine e do amigo ultramaratonista Alberto Peixoto.

Ponto de checagem dos atletas, o Pico do Gavião tem uma vista inacreditável. Alguns corredores aproveitavam para comer e descansar um pouco. O professor de educação física Emerson Bisan, 37 anos, de São Paulo, diabético, fez ali sua medição de glicemia. “Estou me sentindo muito bem, está tudo sob controle. Hoje sigo em ritmo moderado, a ideia é aumentar amanhã”, disse, mostrando o resultado do teste.

Gabbardo preferiu descer rapidamente e montar seu “acampamento” ao pé do Pico, com direito a cadeiras de praia e macarrão instantâneo. Parecia ter recuperado o fôlego e mostrava-se animado para retomar a corrida com apenas 10 minutos de descanso.

Ele corria, o campeão chegava

O dia seguiu, a noite chegou. João passou por Serras do Lima, Barra, Crisólia e Ouro Fino. A reportagem voltou a ter notícias dele na manhã de sábado, com 26 horas de prova e mais de 100 quilômetros já rodados. Estava bem, havia descansado um pouco durante a madrugada mas os planos tinham mudado: agora a previsão era completar a BR com cerca de 45 horas – ou seja, por volta de cinco da manhã de domingo.

Após 28 horas e 19 minutos, Kurt Lindermueller cruzou a linha de chegada da BR135, em Paraisópolis (MG)
Guilherme Lara Campos / Fotoarena
Após 28 horas e 19 minutos, Kurt Lindermueller cruzou a linha de chegada da BR135, em Paraisópolis (MG)
Enquanto nosso médico ultramaratonista seguia pelas trilhas montanhosas de Inconfidentes e Borda da Mata, debaixo de um impiedoso sol, com 28 horas e 19 minutos de prova o alemão naturalizado costa-riquenho Kurt Lindermueller cruzava a linha de chegada em Paraisópolis (MG).

Primeiro estrangeiro a vencer a BR135, Kurt parecia atordoado com a conquista – emoção, cansaço e dor se misturavam. Para recebê-lo, além de algumas poucas pessoas da organização, a mulher, Rebeca. Ela acompanhou o marido de carro, dando suporte durante toda a prova. “Sou sempre o apoio dele”, disse.

Com 50 anos, sete de corrida, o campeão da ultramaratona contou que se preparou para a prova correndo de cinco a seis horas por dia. “O mais difícil foi o calor”, disse exibindo bolhas na pele clara. “Mas a mente comanda o corpo – e a gente continua.”

O gostinho da BR135

À noitinha de sábado, a reportagem encontrou a equipe de apoio de João Gabbardo na pracinha da cidade de Tocos do Moji (MG). Sabine falou que o marido estava sentindo dores na sola do pé, devido a bolhas. No final da prova, o médico viria a confessar que, naquele ponto, achou que não iria completar a corrida.

Foi nessa cidade também que a reportagem do iG Saúde sentiu o gostinho da BR135. O comandante Mário Lacerda – como é chamado por seu staff – nos convidou para acompanhá-lo em uma “missão”. Ele precisava ter certeza de onde estavam todos os atletas e iria fazer uma “varredura” pelo caminho.

Acionou o recordista da BR135, Marco Farinazzo, e o corredor voluntário Augusto Vaz, que seguiriam por uma trilha. Parti com eles, por cerca de seis quilômetros, tendo a luz da lua e uma pequena lanterna para iluminar a escuridão. O percurso não é nada fácil, mas a sensação foi incrivelmente boa.

Uma vez localizados os ultramaratonistas na trilha e verificadas suas condições de segurança, o grupo seguiu para um rápido descanso de três horas.

E o domingo chegou

Nas primeiras horas da manhã de domingo a reportagem foi ao encontro de João Gabbardo e Alberto Peixoto por uma trilha. Eles ficaram animados ao ver a equipe da organização e até arriscaram um trote mais consistente.

João Gabbardo acompanhado do pai, da mulher e dos amigos: chegada emocionante a Paraisópolis (MG)
Guilherme Lara Campos / Fotoarena
João Gabbardo acompanhado do pai, da mulher e dos amigos: chegada emocionante a Paraisópolis (MG)
Àquela altura, a ideia de tempo de conclusão de prova já havia ido por água abaixo. "O importante agora é chegar", bradou Gabbardo. E assim continuou.

Às quatro da tarde, na cidade de Paraisópolis, chegava ao fim a saga do médico ultramaratonista. Com 55 horas e 11 minutos, ele concluía os 217 quilômetros da BR 135, abraçado à mulher e ao pai. Não sabia se sorria ou se chorava. “ Foi muito mais difícil do que eu imaginava. Mas a sensação é fantástica . Fisicamente estou tri bem. A única coisa que incomodou foram bolhas na sola dos pés”, disse.

Gabbardo contou sobre o pior momento da prova: “No sábado à tarde, sofrendo com a temperatura alta, achei que não ia chegar. Perdi o humor, fiquei com raiva de mim, das bolhas, do calor...”

O médico recebeu sua medalha, comemorou e em seguida partiu para o novo exame de sangue, da pesquisa do Instituto de Cardiologia do Distrito Federal. “Estou curioso para ver os resultados”, disse o ultramaratonista, novamente transformado em médico.

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