Estudo mostrou que após os 40 elas também arriscam a saúde para perder peso. Luiza Brunet e outras famosas maduras contam como lidam com a ditadura da magreza

As embalagens cosméticas, as propagandas de cirurgias plásticas e as dietas milagrosas prometem às mulheres com mais de 40 anos o mesmo reflexo exibido duas décadas atrás. Sem conseguir manter essa imagem, muitas se sentem traídas pelo espelho.

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A sensação é de fracasso, ainda mais em um mundo que “prioriza a beleza em detrimento da qualificação”, nas palavras da modelo e empresária Luiza Brunet, 50 anos. Ela está em plena forma física, mas em entrevista ao iG Saúde  disse conviver diariamente com uma dificuldade cada vez maior para manter a silhueta.

“Antes era só correr na praia para perder dois quilos. Hoje faço pilates três vezes por semana, musculação outras duas vezes e diariamente caminho na orla. Sei que é muita coisa, mas eu ainda vivo da beleza”, justifica.

As pesquisas mostram que mesmo fora do universo das passarelas há um aumento da insatisfação com o corpo na maturidade, nem sempre revertida em emagrecimento. Ao contrário. Simultaneamente, há um perigoso crescimento dos índices de transtornos alimentares e também das taxas de sobrepeso nas mulheres desta faixa etária.

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Marle Alvarenga, doutora em nutrição e diretora do Grupo Especializado em Transtornos Alimentares (Genta), explica o contra-senso:

“A mesma indústria da dieta e a mesma ditadura da magreza disseminam uma relação errada com a comida. Por isso, ambas estão por trás do crescimento da obesidade e dos casos de transtorno de imagem, de anorexia e de bulimia entre as mulheres mais velhas”.

Os números endossam a convivência sem harmonia entre peso excessivo e insatisfação com a imagem. O último inquérito realizado pelo Ministério da Saúde apontou que após os 45 anos, as brasileiras atingem o pico máximo de excesso de gordura (64% delas pesam mais do que deviam contra 48% nos outros grupos etários).

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Ao mesmo tempo, uma nova pesquisa internacional – publicada na última edição do periódico especializado Journal of Eating Disorders, revela que quando chegam nesta idade, elas também cometem loucuras para emagrecer, atitudes antes associadas só à adolescência.

O estudo foi feito com 1.849 mulheres de idade média de 59 anos. Delas, 70% fazem dieta, 7,5% recorrem às pílulas milagrosas para perder peso, 8% abusam de laxantes, 3% têm compulsão alimentar e 1% provoca vômitos após as refeições.

“Percebemos nos atendimentos que não se tratam de mulheres que carregam estes transtornos desde novinhas”, afirma Marle, baseada na própria rotina no consultório.

“Muitas não se sentiram pressionadas na juventude por padrões estéticos rigorosos. Mas após os 40 foram cobradas para serem malhadas, mães exemplares e profissionais de sucesso e acabam doentes”.

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Transição

A composição hormonal da mulher após os 40 anos faz com que o metabolismo do corpo seja mais lento, a retenção de líquido mais intensa e o acúmulo de células gordurosas mais presente. Estas três condições tornam a tarefa de ser uma “quarentona sarada” ainda mais difícil.

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A oficial de justiça Maria Eliza Junqueira de Passas da Motta Silveira, 51 anos, tem os números da balança como prova. Foram 10 quilos acumulados nos últimos 20 anos, sem mudar a alimentação (que sempre foi saudável) e sem diminuir a rotina de exercícios físicos (que sempre foi intensa).

“Eu sempre lidei bem com o corpo. Sempre fiz exercício e sempre comi de forma saudável. Ainda sou feliz com o espelho, mas me convenci de que não vou ter o mesmo peso de antes. É um processo natural”, ensina.

Débora Bloch diz que hoje é mais difícil emagrecer um quilo do que era há 20 anos
Edu Cesar/Fotoarena
Débora Bloch diz que hoje é mais difícil emagrecer um quilo do que era há 20 anos

A eterna Garota de Ipanema, a apresentadora Helô Pinheiro, 64 anos, em entrevista recente ao iG Saúde , também disse que a estratégia para ficar feliz com a imagem foi aposentar o jeans tamanho 38.

“A chegada da menopausa faz a gente ficar mais inchada mesmo. É um processo natural e brigar com isso é ficar infeliz para sempre. Não podemos pirar”, aconselha.

Se não bastassem as características naturais das mulheres, que já promovem alterações nos ponteiros da balança, o nutrólogo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Mauro Fisberg, acrescenta que quem está na chamada meia-idade hoje, por coincidência, está vivendo a transformação nutricional do brasileiro.

“O Brasil passa de um perfil de desnutrição majoritária para a ampla obesidade. Neste processo, o corpo ainda preserva memórias celulares do tempo em que faltava comida”, explica o especialista.

“Por causa do extinto de preservação da espécie, há um armazenamento de gordura, pois a mensagem que ficou é que pode faltar alimento. Isso é agravado pelo atual aumento de ingestão de industrializados e pelo sedentarismo.”

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A atriz Débora Bloch, 49 anos, confirma que um quilo hoje parece pesar mais do que o mesmo quilo há vinte anos.

“É muito mais difícil emagrecer aqueles quilinhos que a gente sempre quer perder. Tenho a vantagem de sempre ter feito exercício, desde muito nova, então carrego isso comigo. Mas reconheço que é uma fase de mudança (no corpo). E saber que as mudanças acontecem faz com que eu não me sinta tão pressionada.”

Cultura da insatisfação

A antropóloga Ana Figueiredo, especializada no universo feminino, ministra cursos sobre a representação do corpo no cinema e na mídia. Para ela, o segredo para viver melhor e feliz com a imagem é, de fato, a aceitação da mudança.

“Envelhecer nada mais é do que mudar. E mudança não significa fim. Significa novos limites e novos potenciais”.

“Obviamente, tudo isso fica perdido em uma sociedade que nunca valorizou o mais velho, a experiência. O que há é um incentivo da cultura da insatisfação. Para aumentar o consumo, seja de um creme ou de uma dieta milagrosa, a tática é criar cada vez mais pessoas insatisfeitas. Elas passam a comprar, e muitas vezes pagam com a felicidade, qualquer coisa que traga o que é impossível ter naturalmente.”

Os efeitos são nefastos. Quem come muito – e errado – acaba dentro dos 17% de mulheres diabéticas, 60% de hipertensas , gatilhos de problemas cardíacos , depressão e câncer .

Já as que sucumbem aos transtornos alimentares e dietas extremamente restritivas estão mais próximas de um problema que chega a matar uma em cada dez mulheres (o índice de mortalidade por anorexia é de 10%, de acordo com a Organização Mundial de Saúde), resulta em osteoporose , perda de dentição e também infarto .

Luiza Brunet afirma que é melhor ser mais cheinha do que uma neurótica que não tem vida social
Reprodução
Luiza Brunet afirma que é melhor ser mais cheinha do que uma neurótica que não tem vida social

A professora Miriam Nunes Cezar Carlos, 48 anos, sempre gostou do próprio reflexo do espelho. Mas reconhece que a pressão para as quarentonas aumentou extremamente quando compara com a época da sua mãe.

“Até a prateleira da farmácia te pressiona a comprar aqueles comprimidos infalíveis, tamanha é a oferta. Sem contar que a representação da mulher com mais de 40 anos nas novelas e nos comerciais é impossível. É uma ilusão querer estar como a Luiza Brunet.”

Mas é ela, a própria Brunet, quem dá o antídoto para essa "paranoia".

“Eu ainda vivo da beleza e por isso faço alguns sacrifícios. Mas, pensa bem, não é crime ser mais cheinha, pelo contrário. É bem mais legal do que ser uma neurótica, que não sai pra jantar e só fica buscando um padrão estético de modelo de passarela, incompatível com seu estilo de vida sociável.”

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