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Alguns médicos aconselhavam seus pacientes a não deixarem o fumo próximo à data da cirurgia. Pesquisa diz que pode sim

Fim ao vício: parar de fumar antes de uma cirurgia é seguro, defende estudo
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Fim ao vício: parar de fumar antes de uma cirurgia é seguro, defende estudo
Apesar do que se acreditava antes, parar de fumar nas semanas que antecedem uma cirurgia não parece impor riscos aos pacientes. É o que mostra um novo estudo.

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Pesquisas anteriores sugeriam que abandonar o hábito poderia aumentar o risco de problemas respiratórios e de outras complicações no pós-cirúrgico, por isso alguns médicos aconselhavam seus pacientes a não deixarem o cigarro próximo à data da cirurgia.

A mensagem do novo relatório, porém, é que “qualquer hora é um bom momento” quando o assunto é parar de fumar, disse David Warner, da Mayo Clinic de Minnesota. 

“Tem gente dizendo aos pacientes para continuar a fumar, pois é perigoso parar. Além desta ser uma ideia errônea, ela também oferece implicações de ordem prática”, disse o médico, que não participou do estudo.

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Médicos dizem que uma cirurgia oferece aos fumantes uma oportunidade única de largar o cigarro para sempre. Afinal, há um período em todo processo cirúrgico em que é impossível para o paciente acender um cigarro.

Os pesquisadores concordam que estimular os pacientes a parar de fumar mais de dois meses antes de uma cirurgia é seguro e pode também reduzir as complicações cirúrgicas. Mesmo assim, os efeitos desta prática são bastante controversos.

Para abordar o tema, a equipe de Peter Hajek of Barts, da London School of Medicine and Dentistry, combinou dados de nove estudos anteriores – realizados com um total de 900 pacientes. Cada estudo comparava o índice de complicações pós-cirúrgicas em fumantes que pararam de fumar oito semanas ou menos antes de uma cirurgia, e também aqueles que não abandonaram o cigarro.

Um dos nove estudos constatou que os fumantes que abandonaram o cigarro pouco antes da cirurgia apresentaram menos problemas no pós-cirúrgico do que aqueles que não pararam de fumar. Nenhum dos estudos mostrou que quem abandonou o cigarro teve mais problemas. O resultado geral dos estudos não apresentou diferenças entre os índices de complicações dos fumantes que pararam e que não pararam de fumar – considerando os diferentes tipos de complicações e cirurgias mencionadas nos estudos.

Hajek diz que mesmo que estudos complementares sejam necessários para comprovar os efeitos de parar de fumar neste período pré-cirúrgico de oito semanas, as descobertas põem por terra a idéia de que é perigoso parar de fumar antes de uma cirurgia.

Ele disse à Reuters Health: “Esta idéia se baseia em uma teoria incorreta, isto está claro. Estamos bastante certos de que, até que surjam novas evidências sobre efeitos nocivos... não existe nenhum sinal de perigo”.

Mesmo não apresentando perigo, parar de fumar pouco antes de uma cirurgia também não parece ser mais seguro. Mas, se os pacientes abandonarem o cigarro pelo menos dois meses antes, o numero de complicações será reduzido, disse Hajek. “É claro que é melhor parar de fumar mais cedo”, disse ele à Reuters Health.

Os pesquisadores obviamente são rápidos ao ressaltar que parar de fumar a qualquer momento irá oferecer benefícios à saúde em longo prazo.

Warner disse que a revisão, publicada no periódico Archives of Internal Medicine, teve limitações. Por exemplo, combinar diferentes complicações possíveis em um único estudo não leva em conta o fato de que fumar – ou abandonar o hábito – pode interferir mais em determinadas complicações, como nas respiratórias. Mesmo assim, Warner disse “concorda plenamente com o resultado”.

Entretanto, o cardiologista e epidemiologista Dr. Philip Devereaux, da MacMarter University de Ontário, escreveu um comentário sobre o estudo, no qual afirmou que as descobertas estavam longe de ser definitivas. “O estudo não apresenta um resultado conclusivo de que é seguro parar de fumar antes de uma cirurgia”, disse ele à Reuters Health. Ele recomenda aos médicos: “Se o paciente passa em consulta poucos dias antes da cirurgia, não está claro qual seria o momento ideal para recomendar que ele para de fumar”.

Em um artigo sobre o estudo, Hajek e um colega alegam que receberam financiamento para pesquisas de diversas empresas farmacêuticas fabricantes de medicamentos para parar de fumar.
Hajek diz que até que surjam novas evidências sobre a relação entre parar de fumar e complicações pós-cirúrgicas, os médicos devem estimular seus pacientes a abandonar o hábito, estando próximo ou não da data da cirurgia.

Ele diz: “Pare o quanto antes. Mas, se não conseguir, abandonar o hábito mais tarde também está ok”.

* Por Genevra Pittman

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