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Meningite: os mistérios da doença que pode matar em 24 horas

Uma nova vacina "4 em 1" foi criada, mas médicos não têm total controle sobre a doença

Fernanda Aranda, de Florença (Itália)* | 31/03/2011 09:33

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Foto: Getty Ampliar

Vacina: pesquisas apostam em imunizantes para combater a meningite

A meningite transmitida por bactérias é antiga e desde os anos 1800 há registros de epidemias mundiais. Fez parte do mesmo grupo da varíola, da peste e da gripe espanhola, doenças que, por onde estiveram, levaram a morte rápida e devastação.

Os anos passaram, a tecnologia evoluiu, alguns problemas de saúde foram erradicados (como a varíola) outros controlados (como a gripe) mas a doença meningocócica permanece no cenário contemporâneo com uma triste características do passado: em 15% dos casos mata os infectados poucas horas após o aparecimento do primeiro sintoma.

“Infelizmente, ainda não conseguimos responder porque uma parcela tão significativa morre de maneira tão fulminante – entre 24 e 48 horas após os sinais como febre, dores no corpo, manchas vermelhas e rigidez na nuca”, afirmou o professor de pediatria da Universidade de Paris Jean-Christopher Mercier, durante a reunião convocada pela farmacêutica Novartis para discutir os avanços do tratamento da meningite – que acontece desde a última terça-feira em Florença, na Itália.

Se por um lado letalidade fugaz da doença ainda não é compreendia, por outro, a ciência já entende os motivos que a tornam tão complexa, o primeiro passo para traçar estratégias eficazes para controlar o problema.

A doença

A meningite pode ser transmitida por vírus – esses casos são menos perigosos e muito menos letais – ou por, principalmente, cinco tipos de bactérias: A, C, W, Y ou B. A enfermidade consiste na inflamação da membrana do cérebro, a meninge, que pode resultar não só em mortes, como em infecções generalizadas, sendo necessária a amputação de alguns membros em casos mais graves.

Segundo explicou no encontro Jamie Findlow, chefe do departamento de vacinas da Agência de Proteção à Saúde do Reino Unido, os cinco sorotipos bacterianos estão espalhados por todo o planeta, mas cada região apresenta uma incidência diferente de cada um deles. Enquanto na Europa, por exemplo, a forma mais comum de meningite bacteriana é a B, no Brasil predomina a C. Nos países Árabes, a W e a Y são as mais recorrentes.

Esta maneira peculiar e diversa de infestação de meningite bacteriana torna o controle da doença ainda mais difícil, já que a transmissão, por sua vez, é fácil – por meio das vias respiratórias. A estimativa é que uma entre 10 pessoas que carregam as bactérias manifesta a doença.

Dados levantados pela reportagem no banco virtual de notificações de doenças do governo federal do Brasil (o DataSUS) mostram que, durante 2010, 3.173 pessoas foram internadas no País por infecção meningocócica. Em 2009, a Bahia viveu um surto da doença, com 1.511 casos e 152 mortes, sendo o tipo C o mais incidente. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que 500 mil registros de meningites acontecem todo ano, com 50 mil óbitos. Crianças e adolescentes são as principais vítimas.

A prevenção mais efetiva e segura é vacina – já que o tratamento com antibióticos pode não ser precoce o suficiente para salvar os 15% que vão evoluir rapidamente para a morte. No entanto, até bem pouco tempo, cada tipo de bactéria causadora da meningite exigia uma imunização diferente. A intensa circulação de pessoas por entre as fronteiras torna o bloqueio de casos tarefa ainda mais árdua.

Este contexto começou a mudar quando, no segundo semestre do ano passado, os pesquisadores encontram uma fórmula única para prevenir as principais bactérias causadoras da meningite bacteriana, disse na reunião Maurizio de Martino, professor do Departamento de Pediatria da Universidade de Florença.

Avanços

Foram os pesquisadores da Novartis que conseguiram colocar no mercado de toda a União Europeia a vacina que protege, em uma só dose, contra as meningites do tipo A, C, Y e W. Para ser aplicada, a imunização “4 em 1” precisa de recomendação médica e o público que pode ser vacinado é de crianças a partir dos 11 anos de idade.

De lá para cá, já aprovaram a utilização da vacina países como Argentina, Austrália, Canadá, Chile, Indonésia, Irã, Malásia, Paquistão e Peru. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ainda analisa o pedido de introdução e a expectativa do laboratório fabricante é que isto ocorra no próximo semestre.

Caso aprovada, a nova dose “4 em 1” deve chegar primeiro às clínicas particulares, sem previsão de ser distribuída em postos gratuitos. No calendário público de vacinação brasileiro, apenas no ano passado foi incluída a vacinação simples contra a meningite tipo C. Ao longo de 2011, de acordo com comunicado do Ministério da Saúde, serão fornecidas doses contra o meningococo C em campanhas de imunização para crianças menores de 1 ano.

Foto: Divulgação Ampliar

O jovem alemão Mario Preikschat entrou em coma por conta da meningite e precisou enfrentar meses de fisioterapia para voltar a andar

Desafios permanentes

Tanto a inclusão no cronograma público de vacinas isoladas contra um tipo de meningite incidente como a C quanto a elaboração da “supervacina” que combate quatro sorotipos meningocócicos são comemoradas pelos especialistas, pois permitem que só agora “os médicos sintam que podem controlar esta doença, que existe há tantas décadas”, declarou o expert italiano Maurizio de Martino. Mesmo com estes avanços dos últimos meses, a meningite bacteriana desafia a medicina permanentemente.

“Apesar dos nossos esforços, ainda não conseguimos encontrar uma dose segura e eficaz contra a meningite do tipo B, a mais incidente entre os europeus ( e que representa 30% do total de casos brasileiros)”, lamentou Martino.

A busca por uma vacina contra o tipo B motiva cientistas e também o jovem estudante de 19 anos , nascido na Alemanha. Em 2009, ele contraiu este tipo de bactéria, acreditou ser uma gripe forte, dormiu e poucas horas depois estava em coma. Mario teve infecção generalizada e, por 10 meses, precisou fazer fisioterapia intensa para recuperar os movimentos das pernas. Agora, recuperado, ele diz que “a vacina pode salvar vidas e também trazer esperança”.

Criar doses que protegem contra todos os tipos de meningite é o objetivo principal, mas os cientistas também querem entender a letalidade tão rápida entre parte dos contaminados. Para isso, sequenciam o DNA das bactérias e dos pacientes. Se encontrarem a resposta para a morte tão fulminante, vão esclarecer as dúvidas e angústias da italiana Amelia Vitello. Ela, em 2007, perdeu a filha Alessia de 1 ano e 3 meses, seis horas após os médicos identificarem que a febre e as manchas vermelhas no corpo da garota eram meningite.

* A repórter viajou a convite da novartis

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