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Estudo mostrou que o cérebro feminino requer alterações mais extremas que o masculino para produzir sintomas da doença

Um estudo conduzido por pesquisadores suíços e americanos descobriu que o cérebro das mulheres tolera um maior número de mutações genéticas até apresentar os sintomas de distúrbios do desenvolvimento neurológico, como o autismo. Esta espécie de “modelo protetor”, de acordo com os autores do estudo, explica o fato de o autismo ser mais comum em homens que em mulheres. Eles representam 80% da incidência da doença.

A incidência de autismo em meninos é quatro vezes maior que em meninas
Getty Images
A incidência de autismo em meninos é quatro vezes maior que em meninas

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), distúrbios de desenvolvimento neurológico - como eficiência intelectual, distúrbio específico de linguagem, transtorno de déficit de atenção, hiperatividade, epilepsia e autismo -  afetam uma em cada seis crianças em países industrializados. Estudos mostram que há de 30% a 50% mais meninos que sofrem destas doenças do que as meninas.

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"Este é o primeiro estudo que demonstra uma diferença em nível molecular entre meninos e meninas no que se refere ao desenvolvimento de uma deficiência neurológica", disse em um comunicado o autor do trabalho, Sébastien Jacquemont, pesquisador do Hospital da Universidade de Lausanne, na Suíça. "O estudo sugere que há um nível diferente de robustez no desenvolvimento do cérebro, e as meninas parecem ter uma vantagem clara."

Para avançar na compreensão da diferença de gênero, Sébastien Jacquemont juntamente com Evan Eichler, da Universidade de Washington, em Seattle, compararam a frequência de alterações genéticas em cerca de 16 mil crianças com transtornos do desenvolvimento neurológico.

A análise mostrou que as meninas diagnosticadas com alguma disfunção do desenvolvimento neurológico ou transtorno do espectro autista tiveram um número muito maior de mutações, o que demonstra que o cérebro feminino requer alterações mais extremas que o masculino para produzir os sintomas.

Vamos com calma
O psiquiatra do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, Guilherme Polanczyk, concorda que existe sim uma questão de gêneros neste assunto. “Sem dúvida há uma questão de sexo nisto. O próprio autismo e o TDAH [transtorno do déficit de atenção com hiperatividade] é mais comum em meninos. Mas, após a puberdade, distúrbios de ansiedade e depressão ficam mais comuns em mulheres. Acho que temos um caminho aí que pode nos levar a boas descobertas”, disse.

Polanczyk afirma, no entanto, que embora os dados mostrem que as meninas apresentavam mais mutações para manifestarem os sintomas dos distúrbios, o “modelo protetor” é ainda apenas uma especulação. “Acho a explicação plausível, mas ainda é preciso fazer mais replicações deste tipo de estudo para ter certeza”.

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